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 PERFIS - JOSÉ LEITE LOPES

Por amor às partículas subatômicas
José Leite Lopes foi fundamental para criação e consolidação da física teórica no Brasil 

O pernambucano José Leite Lopes é um físico reconhecido internacionalmente. Ele previu em 1958 a existência do chamado bóson Z0 -- uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo de um átomo -- e formulou uma equação que mostra a analogia dessas interações com as eletromagnéticas. Com isso, ajudou a estabelecer o que os físicos chamam de unificação eletrofraca.

Leite Lopes explica a descoberta do bóson Z0 no CBPF

A contribuição inovadora de Leite Lopes para a física teórica não foi imediatamente reconhecida. No entanto, serviria de base para os estudos do paquistanês Abdus Salam e dos norte-americanos Steve Weinberg e Sheldon Glascow, premiados em 1979 com o Nobel de física por um trabalho muito similar ao desenvolvido cerca de vinte anos antes pelo brasileiro.

Leite Lopes foi importante ainda na fundação e consolidação da física teórica no Brasil. "Ele lançou as bases da física moderna no país", conta José Helayel Neto, professor titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Após a explosão das bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki, o pernambucano aproveitou a notoriedade que a física nuclear ganhara no mundo para implantá-la no Rio de Janeiro. Em seguida, participou da criação do CBPF em 1949, ao lado de nomes como Cesar Lattes ou Jayme Tiomno. "A física no Brasil deve muito a ele", afirma Marcelo Damy de Souza Santos, professor emérito da Universidade de São Paulo que trabalhou com o colega em 1943.

Leite Lopes (esq.) comemora ao lado de Wolfgang Pauli o Nobel
recebido por este em 1945, por ter proposto o princípio da exclusão


Leite Lopes nasceu a 28 de outubro de 1918 em Recife e se formou em química antes de se dedicar à física -- que ele considera a "rainha das ciências". Aos 27 anos de idade, obteve o título de doutor nos Estados Unidos sob a orientação do físico austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958), ganhador do Nobel em 1945 e considerado um dos pais da mecânica quântica. Em seguida, voltou para o Brasil, onde lutaria pelo fortalecimento institucional da ciência.

Preocupado com o pequeno número de pesquisas em países subdesenvolvidos, Leite Lopes publicou na imprensa textos que cobravam mais atitudes do governo nessa área. "Não adianta gastar fortunas para importar equipamentos, deve-se aplicar recursos aqui", afirma. "Se desenvolvermos e treinarmos nosso pessoal, poderemos construir nossos próprios equipamentos."

José Leite Lopes na sala de seu apartamento no Leblon (Rio de
Janeiro), ao lado de telas pintadas por ele (foto: Rodrigo Polito)


Acusado de envolvimento com o comunismo durante o regime militar, o físico foi preso e exilado. "Ele é uma pessoa politicamente engajada e tem uma extrema capacidade de concentração", conta o antropólogo José Sérgio Leite Lopes, o mais velho dos três filhos do físico. "Muitas vezes estuda com a TV ligada", brinca.

Leite Lopes demonstra otimismo com o futuro, mas ainda critica a falta de auxílio à ciência no Brasil. "Embora haja muitos profissionais e diversos centros de pesquisa, não houve uma modernização de equipamentos", lamenta. Em entrevista à CH on-line, o físico falou de sua trajetória e de seu envolvimento com a física -- mas também de duas outras paixões: a pintura e as mulheres. Aos 84 anos, ele continua a freqüentar duas vezes por semana sua sala no CBPF.

Rodrigo Polito
Ciência Hoje on-line
março/2003

 

 
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