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Uma viagem que entrou para a história
Tempestades, calor: descubra o que a família real portuguesa enfrentou para chegar ao Brasil
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A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, retratada pelo pintor inglês Geoffrey Hunt. O artista baseou-se em informações de diários de bordo e até de cartas marítimas, fornecidas pelo pesquisador Kenneth Light, para retratar com perfeição os navios que trouxeram a corte ao Brasil, além de sua localização exata às 15 horas do dia 7 de março de 1808.
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Dia 29 de novembro de 1807. O vento balançava as velas dos 18 navios de guerra e 30 mercantes que estavam prestes a zarpar do porto de Lisboa com a família real portuguesa. A bordo, muita comida e todos os tesouros reais. Marujos, capitães, almirantes e nobres somavam, segundo alguns pesquisadores, mais de doze mil pessoas. Todas iriam acompanhar o príncipe regente D. João VI e sua família em uma longa viagem para o Brasil, a maior colônia de Portugal.
A decisão de seguir para o território brasileiro surgiu por conta da ameaça de o imperador francês Napoleão Bonaparte invadir Portugal, além de outras medidas tomadas por ele. A partir do momento em que chegou ao poder, Napoleão buscou expandir os limites do império francês, invadindo territórios vizinhos. Além disso, insatisfeito com o poder econômico da Inglaterra, decretou o Bloqueio Continental, uma medida que fechou os portos de todos os países europeus para os produtos ingleses.
Fortes aliados no comércio, Inglaterra e Portugal seriam prejudicados por essa proibição. Mas D. João VI não permitiria que isso acontecesse. Tanto que decidiu transferir a sede do reino português para o Brasil, mantendo, assim, as relações comerciais com a Inglaterra e, de quebra, evitando ser pego por Napoleão.
O historiador carioca Kenneth Henry Light – que pertence a uma família anglo-brasileira – acredita que o príncipe tomou uma decisão de mestre. “Quando os franceses entraram em Lisboa, no dia 20 de novembro, e não encontraram a família real, Napoleão viu que tinha sido enganado. Sua sorte, aliás, mudou completamente depois que ele decidiu invadir Portugal”, conta Light, autor do livro
A Viagem Marítima da Família Real,
lançado em março de 2008 por conta das comemorações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil.
Procurando descobrir o que aconteceu durante essa viagem, Kenneth Light encontrou, no arquivo nacional de Londres, os diários de bordo de vários almirantes ingleses. As valiosas e detalhadas anotações permitiram que Kenneth descobrisse diversas curiosidades sobre a jornada portuguesa.
Além disso, os diários foram uma excelente fonte para Kenneth visualizar os navios da época, aprender as técnicas de navegação e saber o que realmente aconteceu a bordo. Ele pôde perceber, por exemplo, que, navegando pelo oceano Atlântico, a família real e a tripulação sofreram com as condições da viagem, pois enfrentaram muitos problemas, como comida ruim, tempestades e calmarias.
Kenneth conta que, como a rota cruzava a linha do Equador, o calor castigava os viajantes, principalmente quando não havia vento (para você ter uma idéia, os navios chegaram a ficar até 10 dias parados no meio do oceano). Em outros momentos, os ingleses e os portugueses enfrentaram terríveis tempestades, mas como já tinham 300 anos de experiência em navegação, não corriam qualquer perigo e nem pensavam em desistir e voltar para casa.
Nos porões dos navios, eram guardadas toneladas de comida e litros de água potável, suficientes para quase quatro meses inteiros a bordo. O banquete a bordo, porém, não parecia muito apetitoso. “A comida era estocada salgada ou seca. Muitos animais eram transportados para o navio e abatidos nos primeiros dias. Havia um insetinho chamado gorgulho que contaminava o pão, a comida mais importante”, conta Kenneth.
Apesar disso, os estoques foram suficientes para cumprir a travessia do oceano e não há registro de que qualquer membro da tripulação tenha ficado doente. Mesmo com os navios abastecidos com água e comida de sobra, porém, D. João decidiu parar em Salvador, na Bahia. “Talvez porque estivesse cansado com o pouco progresso das calmarias”, explica Kenneth, que conta ainda que o príncipe regente talvez quisesse provar em terra firme frutas e legumes frescos que haviam chegado de um navio pernambucano.
Pouco tempo depois, no dia 7 de março de 1808, a frota finalmente alcançou a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Graças à chegada da família real portuguesa, muitas mudanças ocorreram no Brasil colônia, que foi elevado ao grau de Reino Unido em 1815. A partir de 1808, surgiram a imprensa, a primeira escola de medicina, o primeiro banco e muito mais. E pensar que tudo começou quando D. João decidiu cruzar o oceano, há 200 anos!
Juliana Marques
Ciência Hoje das Crianças
18/06/2008
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