SOMENTE NO ACERVO
DA REVISTA CH
 
   
   
   
   
   
   
   
 

 

  NOTÍCIAS :: ANTROPOLOGIA

A pesquisa na linha de fogo
Antropóloga discute dificuldades para se investigar o crime organizado urbano


O trabalho de campo de alguns pesquisadores pode estar literalmente na linha de fogo. É o que mostra o depoimento da antropóloga Alba Zaluar, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ao longo de quase trinta anos envolvida em estudos sobre a criminalidade urbana, ela já viu um dos pesquisadores de seu grupo de estudos ser seqüestrado e vários outros se depararem com tiroteios nas favelas cariocas durante investigações de campo.

Pesquisadores reunidos na USP para discutir as dificuldades práticas das investigações sobre o crime organizado (foto: Bruno Quirino e Rafael Navarro). 

As dificuldades práticas da pesquisa sobre a criminalidade urbana foram discutidas por Zaluar em uma mesa-redonda dedicada ao tema, durante o Seminário Internacional Sobre Crime Organizado, realizado esta semana pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP).

A antropóloga disse que, no começo de suas pesquisas, em 1980, não havia no Brasil estudos na área da antropologia e da sociologia sobre criminalidade. Para obter informações sobre o assunto, ela teve que criar um arquivo com recortes da imprensa que ainda existe – atualmente, é incrementado com notícias publicadas na internet.

Zaluar destaca que o antropólogo não pode se render aos preconceitos do senso comum e ter opinião desfavorável à população pobre, muitas vezes apontada como culpada por sua condição marginal pela grande imprensa ou por uma parcela mal informada da opinião pública. A pesquisadora lembrou o exemplo da máfia italiana, que, segundo ela, foi objeto de diversas narrativas estereotipadas. Isso gerou um forte preconceito contra o sul da Itália, o que acabou por impedir um conhecimento mais preciso – e eficaz – daquelas comunidades em que o crime organizado havia surgido.

A antropóloga diz que sempre adotou métodos que envolvem a interação do observador com o objeto de pesquisa. A idéia é que o pesquisador conheça outra postura – que pode ser bem diferente da sua – e, naquele momento, os problemas podem surgir. “O mergulho no universo do outro pode se transformar em uma armadilha”, explica Zaluar. “Para obter um conhecimento mais profundo sobre o objeto de estudo, preciso sentir, agir, pensar e me relacionar com ele. Mas se meu objeto é o crime, eu teria então que praticar crimes e sair com armas para assaltar pessoas, como fazem os criminosos?”, indaga.

Em seu trabalho de campo, Zaluar atua como se fizesse uma viagem: uma passagem de um mundo a outro. O antropólogo viajante vai e vem, se aproxima e se distancia. Ele tem que saber que nunca deixa de ser uma outra pessoa, com classe social, maneira de vestir, falar e agir muitas vezes diferente das do outro, seu objeto de pesquisa.

O trabalho de campo
O antropólogo, na opinião de Zaluar, não pode ser considerado um infiltrado no meio em que vai atuar. Ele precisa conquistar a adesão da comunidade em que trabalha ao seu projeto. Mas há precauções a se tomar. “É preciso ter cuidado para não ficar prisioneiro do saber do nativo”. O pesquisador precisa sempre dialogar com seu objeto de pesquisa, mas isso não significa que tenha que abdicar da possibilidade de vir a discutir com ele.

Zaluar discutiu o exemplo dos presos, que têm vontade de desabafar e contar o que sofreram: “Mas esses conhecimentos nunca devem se referir a nomes de pessoas”, alerta. “Precisamos apenas entender a dinâmica das organizações criminosas”. Entre os problemas enfrentados quando se pesquisam indivíduos envolvidos em atividades criminosas, estão a omissão de informações e as mentiras. “Isso temos que vencer a cada momento da pesquisa, porque é uma defesa daqueles que estão na atividade ilegal”. É preciso então diversificar os informantes e ampliar as fontes de dados. Ela usa notícias de jornal, filmes e autobiografias, bem como informações de órgãos oficiais.

Zaluar observa ainda que uma das fases mais importantes da pesquisa é a escolha do objeto empírico. Onde será feita a pesquisa? Para isso, é preciso um conhecimento prévio das pessoas que residem naquele lugar e da possibilidade de se estabelecer com elas uma relação de confiança. Isso depende de um mapeamento minucioso para identificar o que pode ser mais interessante de se estudar no universo das atividades ilegais.

“Esta é a explicação pela qual ainda não podemos estudar o banditismo no Brasil”, avalia Zaluar. “Ainda não temos um mapeamento para identificar as atividades econômicas mais importantes na rede dos crimes organizados”. Somente isso permitiria dizer onde os cientistas sociais deveriam colocar seu empenho investigativo, completa a antropóloga.


Maristela Garmes 

Especial para a CH On-line
30/11/2007

 

 
  INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO