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NOTÍCIAS :: ANTROPOLOGIA
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Casados têm menos testosterona
Esforço para sedução e acasalamento pode estar por trás da variação constatada em etnia do Quênia
A leitora ganhou mais um motivo para fugir de homens casados. O casamento é, junto com a idade, outro fator que pode fazer com que homens produzam menos testosterona – hormônio responsável por características físicas e comportamentais do sexo masculino, inclusive pelo desejo sexual. Um estudo antropológico norte-americano confirmou a suspeita de que, ao menos em um grupo étnico pastoril do Quênia, o casamento diminui os níveis desse hormônio nos homens.
O estudo, liderado pelo antropólogo Peter Gray, da Universidade de Nevada, em Las Vegas (EUA), mostra que idade pode não ser o principal fator envolvido nos níveis de testosterona produzida pelo organismo masculino e confirma que o investimento na sedução e o esforço para o acasalamento podem estar associados à variação desses níveis. O estudo foi publicado em outubro na revista
Current Anthropology.
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A etnia Ariaal vive no Quênia, a oeste da cidade de Marsabit, destacada no detalhe (mapas: Wikimedia Commons).
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A equipe de Gray mediu níveis de testosterona de 205 homens com 20 anos ou mais na pequena e reclusa tribo Ariaal – comunidade de aproximadamente 10 mil habitantes que vivem em Marsabit, no norte do Quênia. Presentes na região desde 1880, eles sobrevivem da pecuária de subsistência. Os homens Ariaal se tornam guerreiros depois da puberdade e costumam ficar solteiros até por volta dos 30 anos, quando se casam com uma mulher de seu grupo. Em seguida, por volta dos 40, eles podem vir a se casar – com mais de uma mulher desta vez.
Foram coletadas amostras da saliva dos participantes no período da manhã e da tarde para a análise da quantidade do hormônio. Os pesquisadores fizeram ainda entrevistas individuais para coletar dados antropológicos. Conforme previsto pela equipe, os resultados mostram que os indivíduos casados com uma mulher apresentaram níveis de testosterona mais baixos do que os de homens não casados.
“Os níveis de testosterona são mais baixos em homens casados porque eles investem menos em acasalamento e não precisam competir por fêmeas”, explica Gray em entrevista à
CH On-line.
“Os jovens da tribo Ariaal ficam solteiros, sem se casar ou ter filhos até além de seus 20 anos. Durante esse período, eles podem ser sexualmente ativos com mulheres também jovens e solteiras da tribo, além de gastar bastante tempo em atividades com os homens”.
Casamentos poligâmicos
No entanto, os níveis de testosterona dos homens poligâmicos não diferiram daqueles medidos nos homens monogâmicos. Segundo o pesquisador, além de esse resultado refletir a idade mais avançada em que os homens da tribo Ariaal passam a praticar poligamia, outros fatores sociais podem manter o interesse feminino por homens que tenham mais de uma mulher. “A transição do casamento monogâmico para o poligâmico nesse tipo de sociedade envolve menos o comportamento derivado da produção de testosterona e mais a idade, os laços políticos e acumulação de bens”, esclarece Gray.
Em outra pesquisa realizada em 2002, o grupo do antropólogo havia medido os níveis de testosterona de quenianos da etnia Swahili e constatou que, ao contrário dos homens Ariaal, os homens poligâmicos apresentaram mais testosterona que os outros homens e que os resultados não foram alterados pela idade dos indivíduos analisados. “A falta de efeito da idade nesse processo indica que a produção de testosterona varia de acordo com padrões culturais”, explica ele. “No caso dos quenianos Swahili, os resultados refletem o quadro de desnutrição, o gasto excessivo de energia e disseminação de doenças nesse povo”.
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Testosterona e paternidade
Em outro estudo feito recentemente em Kingston, na Jamaica, a equipe de Gray analisou a relação dos níveis de testosterona com a paternidade e percebeu que os homens que convivem com seus filhos podem ter a produção desse hormônio reduzida. Somente 5% dos mamíferos – incluindo os humanos – mantêm laços afetivos com seus parceiros e cuidam da sua prole. No estudo de Gray, publicado em julho na revista
Hormones and Behavior,
foram analisados pais que moram com seus filhos e cuidam deles diariamente e os que se separaram da sua mulher e filhos, mas os visitam periodicamente. Os resultados mostraram que os pais que residem com os filhos têm níveis de testosterona mais baixos do que os pais “visitantes”. Agora, o pesquisador pretende se dedicar à pesquisa das diferenças hormonais entre os homens norte-americanos que são pais biológicos e os que são padrastos.
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Gray acrescenta que ainda há outros fatores que podem influenciar os níveis do hormônio no organismo masculino, como a hora do dia em que as amostras são coletadas, o estado de saúde do indivíduo (a concentração é menor se o homem está doente, obeso ou se tem o vírus da Aids). “A produção de testosterona parece responder à influência de contextos sociais que não envolvem somente comportamentos agressivos ou atividades sexuais”.
O antropólogo ainda revela que não é só em sociedades com costumes diferentes dos nossos que isso acontece. “Estudos recentes feitos com norte-americanos mostraram que homens envolvidos em casamento e relacionamentos em geral têm níveis de testosterona mais baixos que os de solteiros”, conta. “Um estudo deste ano feito no Canadá mostrou também que, mesmo se os relacionamentos forem a longa distância ou na mesma cidade, os homens continuam apresentando menor produção do hormônio”.
Fabíola Bezerra
Ciência Hoje On-line
09/11/2007
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