O enigma do movimento
Colunista explica a conexão entre os movimentos acelerados e a gravidade
Por: Adilson de Oliveira
Publicado em 21/09/2007 | Atualizado em 15/12/2009
Questões como essas despertaram o interesse de Albert Einstein (1879-1955). Por volta do ano de 1907, ele pensava em uma forma de generalizar a Teoria da Relatividade Restrita, que ele tinha proposto em 1905 (veja a coluna Sonhos de um jovem visionário ). Segundo essa teoria, nenhum observador poderia ser considerado privilegiado em relação a outro qualquer. Quando Einstein formulou essa hipótese, ele apenas considerou a sua validade para os chamados “observadores inerciais”, que, como diz o próprio nome, são observadores que mantêm o seu estado de movimento e não estão sujeitos à ação de forças. Inércia X gravidade Havia também uma questão que incomodava Einstein. Como a gravidade atua sobre os corpos independentemente do material ou do estado físico do corpo? Podemos pensar nessa questão da seguinte maneira: um corpo sob a ação de uma força sofre uma determinada aceleração de acordo com a sua massa. Nesse contexto, essa é a massa inercial do corpo, pois a inércia está relacionada ao estado de movimento. Por outro lado, se a força que atua sobre o corpo é a força gravitacional, esta é igual ao produto da massa (agora chamada de massa gravitacional) pelo campo gravitacional. Como era conhecido desde a época de Newton, ambas as massas têm o mesmo valor. Contudo, para Einstein, isso significava que ora a mesma qualidade (massa) do corpo se manifesta como “inércia”, ora como “gravidade”. Essa conseqüência levou à elaboração do chamado Princípio da Equivalência, segundo o qual as experiências realizadas localmente na presença de um campo gravitacional dão os mesmos resultados que as realizadas em um sistema de referência não-inercial (observador acelerado). Por exemplo, na Estação Espacial Internacional, que se encontra a uma altitude de 600 km em relação ao solo, costumamos ver os astronautas flutuarem e afirma-se que eles não estão sofrendo a ação da gravidade. Porém, esta afirmação estará correta ou incorreta dependendo do ponto de vista.
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Se considerarmos o interior da estação espacial, teremos a impressão de que não há gravidade naquele local. Entretanto, se observarmos de fora da estação, de qualquer ponto da superfície terrestre, verificaremos que os astronautas estão caindo o tempo todo na direção da Terra. Eles – e a estação espacial – nunca chegam ao solo, pois, à medida que caem, a superfície da Terra (que é curva) se afasta na mesma proporção. Levando em conta esse referencial, existe sem dúvida a ação de uma força.
Da mesma maneira, um astronauta no interior de um foguete que está viajando no espaço profundo, longe da influência gravitacional de qualquer objeto celeste, mas com uma aceleração igual à da gravidade terrestre, terá a sensação de estar sobre a superfície da Terra. Se ele subir em uma balança para medir o seu peso, terá o mesmo valor de quando o mediu em uma balança na Terra. Será também fisicamente impossível para ele distinguir se o seu foguete está estacionado sobre a superfície da Terra ou viajando aceleradamente. Portanto, em ambas as situações, não se pode distinguir qual é de fato a ação que está ocorrendo.
Segundo o Princípio da Equivalência, não podemos saber, no caso do ônibus fazendo a curva, se estamos em um sistema acelerado ou se existe um campo gravitacional que nos puxa para fora (a não ser que haja alguma informação externa ao ônibus). Essa surpreendente constatação de Einstein levou à formulação da sua Teoria da Relatividade Geral, que em sua essência é uma nova teoria da gravitação, que modificou completamente a maneira de vermos o espaço e o tempo. A partir dessa teoria, pode-se compreender que a inércia está associada à gravidade e esta, por sua vez, à curvatura do espaço provocada pela presença da massa. Essa fantástica idéia, que abordarei futuramente, foi uma das maiores revoluções científicas de toda a história. Ela finalmente resolveu o enigma do movimento.
Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos
21/09/2007



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