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Colunas / Física sem mistério

A mensagem na garrafa

O planeta Terra tenta, de várias maneiras e há muitos anos, se comunicar com o universo que está além de seus limites. Adilson de Oliveira fala em sua coluna sobre essas tentativas e das grandes distâncias e dificuldades que as desafiam.

Por: Adilson de Oliveira

Publicado em 17/12/2010 | Atualizado em 17/12/2010

A mensagem na garrafa

A recente utilização de sondas espaciais para enviar mensagens para além da Terra, apesar de muito cara e complexa, guarda semelhanças com a forma antiga de se transmitir recados em garrafas pelos oceanos (foto: Dasha Bondareva/ CC 2.0 BY-NC)

Muitas estórias já foram relatadas acerca de mensagens lançadas ao mar dentro de garrafas. Algumas são apenas ficção, mas outras são verdadeiras. 

Há vários relatos sobre garrafas contendo mensagens sendo encontradas em outros continentes, após realizarem viagens de milhares de quilômetros e depois de vários anos. Isso é possível porque, ao lançar a garrafa ao mar, dependendo das correntes marítimas, elas podem fazer viagens inusitadas. 

Esse tema é tão interessante que uma das mais famosas músicas do grupo inglês The Police chama-se "Message in a Bottle" (em português, mensagem em uma garrafa). A letra da música fala de um náufrago perdido em uma ilha que envia, dentro de uma garrafa, um "S.O.S" ao mundo com a esperança de ser resgatado.

Diversas mensagens já foram enviadas para as estrelas na esperança de sinalizarem a presença humana

Na verdade, diversas "mensagens em garrafas" já foram enviadas para lugares muito distantes. Algumas talvez sequer tenham sido feitas para serem lidas, mas outras foram certamente elaboradas com esse propósito, na esperança de que sinalizassem a presença humana. Estou me referindo às mensagens enviadas para as estrelas.

Desde o advento das transmissões de rádio e televisão, que começaram nas primeiras décadas do século passado, o nosso planeta está enviando para o espaço informações na forma de ondas eletromagnéticas. 

Dando sinal de vida

Os sinais de rádio e televisão são ondas eletromagnéticas, ou seja, modulações de campos elétricos e magnéticos. Como quaisquer ondas eletromagnéticas, não necessitam de um meio físico para se propagar, ou seja, podem viajar pelo espaço sideral.

As ondas eletromagnéticas foram previstas em 1865 pelo físico escocês James C. Maxwell (1831-1879), que as deduziu a partir da solução de um conjunto de equações que relacionam os campos elétricos e magnéticos, conhecidas como equações de Maxwell. 

James Clerck Maxwell
Gravura feita por G. J. Stodart de James C. Maxwell. O físico escocês previu as ondas eletromagnéticas. Por meio de ondas eletromagnéticas de rádio e televisão, enviamos sinais para o espaço.

Naquela época, os fenômenos elétricos e magnéticos eram compreendidos como duas manifestações distintas de forças da natureza. Maxwell conseguiu fazer uma unificação na descrição desse fenômeno e mostrou, também, que a luz era uma onda eletromagnética. (Leia coluna publicada sobre o tema)

Alguns anos depois, em 1888, o físico alemão Heinrich R. Hertz (1857-1894) detectou as ondas previstas por Maxwell e verificou que elas se propagavam na velocidade da luz, além de apresentar as mesmas propriedades físicas, como refração, reflexão e polarização.

Os sinais de rádio começaram a ser transmitidos de maneira mais ampla no começo do século passado, com as estações de rádio, e os sinais de televisão, na década de 1950. 

Como essas ondas viajam na velocidade da luz, elas já alcançaram distâncias da ordem de uns 50 a 60 anos-luz (um ano-luz equivale a aproximadamente 10 trilhões de quilômetros) e poderiam ser detectadas com tecnologia semelhante a que dispomos atualmente nos chamados radiotelescópios. 

Esses equipamentos constituem-se de antenas usadas para captar emissões na faixa das ondas de rádio oriundas de objetos celestes. 

Tem gente aí?

O radiotelescópio de Arecibo, localizado em Porto Rico, nos Estados Unidos, é um dos principais equipamentos utilizados nessa busca. Com 305 metros de diâmetro, é o maior radiotelescópio fixo do mundo. 

Até hoje, no entanto, não há qualquer evidência de que os sinais detectados foram produzidos por uma forma de vida inteligente. Como em nossa galáxia existem centenas de bilhões de estrelas, é difícil rastrear todas à procura desse tipo de sinal.

Há décadas buscam-se sinais de fora da Terra. Mas ainda não há qualquer evidência de vida inteligente extraterrestre

Além disso, as estrelas estão tão distantes de nós que os sinais eletromagnéticos, mesmo transmitidos à velocidade da luz, levam milhares de anos para viajar por toda a galáxia, como é o caso dos sinais produzidos aqui na Terra que já viajaram algumas dezenas de anos-luz pelo espaço.

Outra maneira de enviar mensagens para o espaço, muito mais complicada, mas que se assemelha ao arremesso de garrafas ao oceano, é a utilização de sondas espaciais. 

As mensagens mais famosas são as que estão gravadas em dois discos de cobre revestidos de ouro. Um foi enviado com a espaçonave Voyager 2, lançada pela Nasa em 20 de agosto de 1977, e o outro, dentro da Voyager 1, lançada pela agência espacial norte-americana em cinco de setembro do mesmo ano, ambas com a missão de obter imagens dos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. 

Os discos contêm 15 imagens – dentre as quais o Cristo Redentor –, 35 sons da natureza – vento, pássaros, água etc. – e saudações em 55 línguas, inclusive em português, além de trechos de músicas étnicas, obras de Beethoven e Mozart, entre outras, além de uma indicação da localização da Terra no Sistema Solar – terceiro planeta a partir do Sol. 

Disco da Voyager
Um dos discos da missão Voyager, da Nasa, que contém imagens e sons selecionados para retratar a diversidade biológica e cultural da Terra. Uma das sondas acaba de atingir ponto distante na borda do Sistema Solar. (foto: Nasa/JPL)

 

Passados 33 anos de seu lançamento, ambas as espaçonaves continuam enviando sinais para Terra. No dia 13 de dezembro, a Nasa divulgou que a Voyager 1, em junho de 2010, alcançou a zona de heliopausa, considerada a fronteira mais externa do Sistema Solar. A espaçonave foi o primeiro artefato construído pelo homem a chegar a essa região espacial.

Trata-se de uma região localizada ao redor do Sistema Solar, na qual o vento solar, constituído por partículas de alta energia – como os prótons e elétrons – emitidas pelo Sol, não consegue mais se propagar devido ao vento interestelar, originado em estrelas ativas da galáxia. 

As viagens das espaçonaves Voyager 1 e 2 continuarão até elas colidirem com algum objeto do meio interestelar. Se elas seguirem suas trajetórias, levarão milhares de anos para passarem próximas a estrelas vizinhas ao nosso Sistema Solar. 

Talvez uma civilização ainda encontre nossas "mensagens em garrafas" e seja capaz de entendê-las

Infelizmente, daqui a cerca de 15 anos, as baterias nucleares das sondas irão se esgotar. Assim, não terão mais como transmitir os seus sinais e continuarão uma solitária viagem pelo espaço.

Talvez, em um futuro distante, alguma civilização encontre as nossas "mensagens em garrafas" e seja capaz de entendê-las. Mas a possibilidade de vida inteligente talvez seja muito pequena. Talvez o surgimento da própria vida seja apenas um evento isolado, que aconteceu em nosso planeta e não se repetiu no universo, já que são necessárias condições muito especiais para que ela apareça. 

O astrônomo americano Carl Sagan (1934-1996), idealizador dos discos colocados nas Voyager 1 e 2, afirmou em seu livro Contato: “Não devemos estar sós nesse universo, senão seria um enorme desperdício de espaço”. Se formos tão otimistas como Sagan, quem sabe a nossa "garrafa" estelar não cumpra a sua missão? 

 

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos

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Adilson de Oliveira

A coluna Física sem mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês, desde junho de 2006. Ela é mantida pelo físico Adilson de Oliveira, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Seus textos apresentam de forma descomplicada temas ligados a física e astronomia. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação do colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para adilson@df.ufscar.br

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