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Desfazendo mitos

No momento em que as autoridades brasileiras tentam restringir a presença de haitianos no país, a colunista Keila Grinberg resgata marcos importantes da história do Haiti e questiona postura – de ontem e de hoje – do Brasil em relação ao país insular.

Por: Keila Grinberg

Publicado em 13/01/2012 | Atualizado em 13/01/2012

Desfazendo mitos

Pôr do sol na praia Pierre Payan, no Haiti. Apesar dos problemas que enfrenta hoje, o país já foi um exemplo de agricultura diversa e sustentável, com víveres suficientes para alimentar a população. (foto: Flickr/ BitHead – CC BY-NC-SA 2.0)

Quem olha com temor para o crescente movimento de haitianos que atravessam as fronteiras brasileiras pode se acalmar estudando um pouco a história do Haiti. Ajudaria um bocado a desfazer alguns mitos que grassam nas mentes de brasileiros há mais de 200 anos, desde a revolução escrava que em 1804 resultou na independência daquele país.

Primeiro mito: há que se ter cuidado com pessoas e ideias que vêm do Haiti. No Brasil do século 19, quando se falava do Haiti, ou era para expressar o medo provocado pela influência que as ideias de liberdade poderiam provocar em escravos, libertos e descendentes de africanos em geral no país, ou era para detratar alguém. Quando se queria acusar uma pessoa – que fosse negra ou mulata – de não ser de bem, nada melhor do que pintá-la como simpatizante da revolução do Haiti.

No Brasil do século 19, quando se falava do Haiti, ou era para expressar o medo provocado pela influência que as ideias de liberdade poderiam provocar no país ou era para detratar alguém

Foi o que aconteceu, por exemplo, em junho de 1824, na cidade de Laranjeiras, em Sergipe. Um grupo de proprietários, incomodado por ter como secretário da presidência da província (algo como vice-governador, hoje em dia) o mulato Antonio Pereira Rebouças, acusou-o de ter organizado um protesto pela cidade, liderando outros mulatos que teriam saído pelas ruas dançando ao som de zabumbas e gritando “viva o Haiti” e “vivam pretos e mulatos”.

Na carta enviada pelos supostos ‘homens de bem’ às autoridades militares, foi dito que Rebouças “fez muitos elogios ao rei do Haiti e, porque não o entendiam, falou mais claro: São Domingos, o Grande São Domingos [nome da colônia francesa antes da independência do Haiti]. (...). Alerta. Alerta. Acudir enquanto é tempo”.

Nunca ficou provado se Rebouças realmente participou do barulho, nem mesmo se   ele chegou de fato a existir. Mas uma coisa é certa: a denúncia foi suficiente para que ele perdesse o emprego e tivesse que responder a um processo (na época, uma devassa).

Da mesma forma, muitas das denúncias de haitianismo no Brasil do século 19 nunca foram comprovadas. Mas, nesse caso, o importante para os proprietários de escravos era abafar qualquer eco que as ideias de liberdade que fundamentaram a rebelião de escravos no Haiti pudessem ter no Brasil.

‘Haiti: the aftershocks of history’, de Laurent Duboi.Segundo mito: o Haiti só produz pobreza. Errado. Como vem demonstrando o historiador Laurent Dubois em vários de seus trabalhos, especialmente no recentíssimo livro Haiti: the aftershocks of history (‘Haiti: as réplicas da história’, em traduação livre), da editora Metropolitan Books, depois da independência, para construir alternativas ao sistema de plantation no qual a maioria dos seus habitantes tinha trabalhado como escravos, foi desenvolvido no Haiti um sistema de pequenos sítios e economia descentralizada.

Era uma espécie de agricultura sustentável, com o cultivo alternado de frutas e raízes. Além disso, produzindo um pouco de café e dedicando-se à pecuária, conseguiram desenvolver uma economia autônoma. Se não produziu riqueza, ao menos foi suficiente para assegurar uma qualidade de vida melhor do que a da maioria dos descendentes de africanos que vivia nas Américas, atraindo imigrantes e estabelecendo relações comerciais com empresários de outros países.

Não custa dar o crédito

Claro que isso não quer dizer que não houvesse problemas no Haiti. Disputas pelo poder e altos impostos não tornavam a vida dos haitianos fácil. Mas havia víveres suficientes para alimentar a população.

Hoje, metade do que o Haiti consome é importada. A economia é centralizada e, desde o início da ocupação americana (1915-1934), as pequenas fazendas foram substituídas por grandes plantações mantidas por corporações estrangeiras. Isso sem contar o terremoto de 2010, que trouxe mais pobreza e a primeira epidemia de cólera do país, doença que conhecemos no Brasil desde o século 19.

Palácio presidencial do Haiti, destruído por terremoto
Palácio presidencial do Haiti, localizado em Porto Príncipe, destruído pelo terremoto de janeiro de 2010. O desastre piorou a situação de pobreza no país, que hoje depende de muito importações e tem economia fortemente centralizada. (foto: Logan Abassi/ CC BY 2.0)

É possível que a maioria dos haitianos que hoje procura na cidade de Brasileia novas oportunidades não tenha mais a memória das experiências de liberdade e agricultura sustentável que marcaram as vidas de seus bisavós há mais de um século. Mas não custa dar o crédito.

Além de socorrer pessoas em situações dramáticas, não seria nada mal mostrar ao mundo que é possível entrar no clube dos países ricos sem fechar as portas aos imigrantes.


Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)

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Keila Grinberg

A coluna Em tempo é publicada na segunda sexta-feira do mês, desde outubro de 2008. Ela é mantida pela historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Seus textos discutem temas ligados à história, sem perder de vista a perspectiva do tempo presente. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação da colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para keila@pobox.com

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