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  <title>Colunas</title>
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       Confira as últimas colunas publicadas na CH On-line
       
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 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/embrioes-de-278-milhoes-de-anos">
  <title>Embriões de 278 milhões de anos</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/embrioes-de-278-milhoes-de-anos</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>O estudo das estratégias reprodutivas adotadas pelos vertebrados é de grande importância para a compreensão da evolução desse grupo. Foi a partir do surgimento do ovo amniótico (série de membranas que protegem o embrião) que esses animais puderam, de forma definitiva, conquistar a terra firme. Com o ovo amniótico, os vertebrados não precisaram mais passar por um estágio larval seguido de metamorfose – o que ocorre em anfíbios de modo geral.</p>
<div class="pullquote">O estudo das estratégias reprodutivas adotadas pelos vertebrados é de 
grande importância para a compreensão da evolução desse grupo</div>
<p>O grupo de vertebrados dotados de ovo amniótico – chamados de amniotas – reúne os mamíferos e os répteis (incluindo dinossauros e aves). Esse ovo pode ter uma casca dura, como ocorre em grande parte dos répteis, ou ser composto apenas pelas membranas, como no caso dos mamíferos.</p>
<p>Entre os amniotas, há animais que fazem a postura de seus ovos (denominados ovíparos) e outros cujo embrião se desenvolve dentro do corpo da mãe (chamados de vivíparos). Existem ainda aqueles – chamados de ovovivíparos – cujo ovo é retido por um tempo prolongado dentro do corpo das fêmeas e a postura é realizada quando o embrião já se encontra em um estágio de desenvolvimento bastante avançado.</p>
<p>O aparecimento do ovo amniótico em vertebrados é um assunto bastante debatido no meio acadêmico. Embora os primeiros amniotas descobertos datem de aproximadamente 340 milhões de anos atrás, não existia, até agora, qualquer evidência direta ou indireta acerca da estratégia reprodutiva desses animais.</p>
<p>Particularmente em depósitos do Paleozoico (era geológica que compreende camadas formadas entre 542 milhões e 251 milhões de anos atrás), nunca tinham sido encontrados indícios de ovos ou de embriões, fato que intrigava os cientistas, já que, em alguns depósitos, houve extensa atividade de coleta ao longo de décadas. Uma das explicações para essa ausência está relacionada ao baixo potencial de preservação de embriões e ovos, que são bastante frágeis.</p>
<p>Mas uma descoberta recente feita por pesquisadores uruguaios e brasileiros acaba de fornecer novas pistas sobre a maneira como os répteis mais primitivos se reproduziam. O achado, <a class="external-link" href="http://www.tandfonline.com/toc/ghbi20/current">publicado na <em>Historical Biology</em></a>, indica que a viviparidade em animais dotados de ovo amniótico é bem mais antiga do que se supunha.<br /><br /></p>
<h3>Viviparidade em répteis primitivos</h3>
<p>Até então, o registro mais antigo de animal amniota vivíparo pertence a um réptil marinho primitivo chamado de <em>Keichosaurus</em>. Essa forma, da qual são conhecidas algumas dezenas de espécimes, é procedente de rochas do Triássico com aproximadamente 230 milhões de anos encontradas na China. O tamanho dos indivíduos é relativamente pequeno: o comprimento da cauda até o focinho é menor do que 30 centímetros (cerca de um palmo e meio).</p>
<p>A hipótese de que essa espécie já teria desenvolvido o ovo amniótico foi levantada pelos pesquisadores responsáveis pela descoberta porque foram encontrados alguns embriões diretamente associados ao corpo de supostas fêmeas.</p>
<div class="pullquote">A pesquisa recua em cerca de 50 milhões de anos o registro mais antigo de um animal amniota vivíparo</div>
<p>O novo estudo, que foi liderado por Graciela Piñeiro, da Faculdade de Ciências, em Montevidéu (Uruguai), e teve a participação de Jorge Ferigolo, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (Brasil), encontrou interessantes evidências de viviparidade em restos de mesossauros (répteis aquáticos primitivos) coletados em rochas de 278 milhões de anos. Dessa forma, a pesquisa recua em cerca de 50 milhões de anos o registro mais antigo de um animal amniota vivíparo.</p>
<p>Os mesossauros são estudados há bastante tempo, mas, devido à fragilidade do seu crânio, ainda geram algumas controvérsias. Segundo a maioria dos pesquisadores, esses vertebrados ocupam uma posição bem basal na evolução dos répteis; no entanto, há quem chegue a considerá-los um grupo à parte, talvez o mais primitivo dentro dos amniotas.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/embrioesde02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/embrioesde02.jpg/image_preview" alt="Mesossauro ‘Stereosternum’" title="Mesossauro ‘Stereosternum’" height="304" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Exemplar de mesossauro do gênero ‘Stereosternum’ que faz parte da coleção do Museu Nacional/ UFRJ. Esses animais têm aparência semelhante à de lagartos e raramente atingem um metro de comprimento. (foto: Arquivo Museu Nacional/ UFRJ)</dd>
</dl>

<p>São reconhecidas três espécies de mesossauros, pertencentes a três gêneros distintos: <em>Mesosaurus</em>, <em>Stereosternum</em> e <em>Brazilosaurus</em>. De forma geral, a aparência desses pequenos animais – que raramente chegam a ter um metro de comprimento – lembra superficialmente a de lagartos e seus hábitos são considerados marinhos.</p>
<p>Os restos de mesossauros são relativamente numerosos em alguns depósitos tanto no Brasil como no Uruguai. Também já foram coletados em Goiás e, sobretudo, na África do Sul. Vale a pena ressaltar que, como os mesossauros são encontrados tanto na América do Sul quanto na África, eles são evidências diretas da união desses continentes no passado distante, já que dificilmente teriam condições de cruzar o oceano Atlântico, cuja dimensão atual foi formada ao longo de milhões de anos.</p>
<p>Graciela e seus colaboradores estudaram dezenas de indivíduos coletados no Brasil e no Uruguai e encontraram evidências de embriões diretamente associados ao corpo de indivíduos adultos, incluindo uma possível fêmea com um embrião ainda no interior de seu corpo. Também havia outros espécimes cujas dimensões diminutas (menos de 15 centímetros de comprimento) sugerem tratar-se de animais muito jovens, possivelmente embriões.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/embrioesde03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/embrioesde03.jpg/image_preview" alt="Embrião e adulto de mesossauro" title="Embrião e adulto de mesossauro" height="284" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Montagem que evidencia o tamanho pequeno de um embrião isolado de mesossauro encontrado pelos pesquisadores (embaixo) em comparação com o de um espécime adulto coletado (em cima). (foto: Historical Biology)</dd>
</dl>

<p>Com base nesses exemplares, além de estabelecer o registro mais antigo de viviparidade em amniotas primitivos, os autores puderam fazer várias sugestões com relação à reprodução dos mesossauros. Uma delas é que uma fêmea deveria carregar poucos filhotes – apenas um ou dois de cada vez. Caso essa interpretação esteja correta, existe a possibilidade de que os mesossauros cuidassem de seus filhotes recém-nascidos, um comportamento comum em animais com prole reduzida.</p>
<p>A pesquisa abre uma interessante possibilidade de investigação, já que o desenvolvimento de estratégias reprodutivas é absolutamente fundamental do ponto de vista da evolução dos organismos. Distintas formas encontram maneiras diferentes de se reproduzir para possivelmente se adaptar às novas situações e condições surgidas durante a evolução do nosso planeta. E assim a vida continua, cheia de surpresas interessantes, tanto no passado como no presente...</p>
<p>Aproveito para agradecer ao professor Jorge Ferigolo por me enviar o artigo em questão.<br /><br /><strong>Alexander Kellner</strong><br />Museu Nacional/ UFRJ<br />Academia Brasileira de Ciências<br /><br /></p>
<h3>Paleocurtas</h3>
<p><strong>As últimas do mundo da paleontologia</strong><br />(clique nos <em>links</em> sublinhados para mais detalhes)</p>
<table class="invisible">
<tbody>
<tr>
<td>
<p>Alex Schiller Aires (Universidade Federal do Pampa) e Renato Lopes (Universidade Federal do Rio Grande) publicaram na <a class="external-link" href="http://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/15_1/ing.html"><em>Revista Brasileira de Paleontologia</em></a> um estudo sobre a diversidade de mamíferos quaternários (que viveram entre cerca de 1 milhão e 900 mil anos atrás até os dias atuais) encontrados na plataforma continental brasileira. No trabalho, os autores discutem como as condições de preservação dos fósseis podem influenciar a representatividade da fauna de uma região.</p>
</td>
<td>
<p>Alunos e professores da Universidade Regional do Cariri (Urca) estão organizando o II Encontro Universitário de Paleontologia e Arqueologia, de 30 de maio a 02 de junho de 2012. O evento, que se destina a despertar o interesse de alunos para as pesquisas sobre fósseis e objetos arqueológicos da região, contará com várias palestras e minicursos e promete ser bastante produtivo. Para mais informações, acesse o <a class="external-link" href="http://www.urca.br/encontropaleontologia/II"><em>site</em> do encontro</a>.</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<p>Acaba de ser lançado um interessante livro que aborda o registro paleontológico do Rio Grande do Sul. De autoria dos geólogos Paulo Manzig e Luiz Carlos Weinschütz, ambos pesquisadores do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, em Mafra (Santa Catarina), a obra <em>Museus e fósseis da região Sul do Brasil</em> retrata as principais ocorrências paleontológicas dessa região, incluindo diversos achados que não haviam sido registrados anteriormente. Muito bem ilustrado, inclusive com imagens em 3D, o livro é uma importante iniciativa de divulgação das pesquisas realizadas com fósseis, que são tão carentes no Brasil. Mais informações no <a class="external-link" href="http://www.mfa.unc.br/index.php?pagina=categoria_txt&amp;desc_cat=Cenp%E1leo&amp;id_cat=22"><em>site</em> da universidade</a>.</p>
</td>
<td>
<p>Um assunto bastante intrigante é o fato de que algumas espécies têm seu sexo determinado pelas condições ambientais, mais especificamente pela temperatura à qual são submetidas quando ainda estão dentro dos ovos. Um estudo recentemente publicado por Armando Escobedo-Galván (Universidade Autónoma do México) e colaboradores na <a class="external-link" href="http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0195667112000377"><em>Cretaceous Research</em></a> avaliou a influência desse fenômeno sobre as taxas de sobrevivência e extinção de espécies de tetrápodes (animais com os ossos dos quatro membros bem diferenciados) encontrados em depósitos no limite entre o Cretáceo e o Paleógeno (há cerca de 65 milhões de anos).</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<p>Acaba de ser descrito um dinossauro gigante com penas encontrado em depósitos da Formação Yixian, na China. Liderada por Xing Xu (Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, Pequim), a pesquisa descreve um novo dinossauro carnívoro (<em>Yutyrannus huali</em>) que alcançava nove metros de comprimento e possuía o corpo revestido por estruturas filamentosas interpretadas como penas primitivas. A descoberta, publicada na <a class="external-link" href="http://www.nature.com"><em>Nature</em></a>, é nova evidência de que o surgimento de penas estaria mais ligado a questões de regulação térmica do que ao desenvolvimento do voo.</p>
</td>
<td>
<p>O professor Antônio Carlos Siqueira Fernandes (pesquisador do Museu Nacional/ UFRJ) acaba de ser eleito para a Academia das Ciências de Lisboa (Portugal), na categoria de sócio correspondente. Ele é o primeiro paleontólogo brasileiro a fazer parte da entidade, fundada em 24 de dezembro de 1779, o que demonstra o crescente reconhecimento dos pesquisadores de fósseis do Brasil.</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
]]>
  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Alexander Kellner</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Evolução</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Paleontologia</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-05-15T22:00:01Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/vivendo-o-seculo-20">
  <title>Vivendo o século 20</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/vivendo-o-seculo-20</link>

  


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    <![CDATA[
<p>“<em>Thinking the twentieth century</em> é leitura essencial para todos aqueles que querem saber o que os historiadores contemporâneos têm a dizer. Ele mostra que historiadores podem questionar suas próprias hipóteses, examinar suas próprias certezas e ver as maneiras pelas quais suas próprias vidas são moldadas e ajustadas pelo seu século.” Quem disse isso foi o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-), em evento que homenageou o também historiador britânico Tony Judt (1948-2010), ocorrido no King’s College, em Cambridge, Inglaterra, em março passado. <a class="external-link" href="http://www.lrb.co.uk/v34/n08/eric-hobsbawm/after-the-cold-war">Sua fala foi depois publicada</a> na <em>London Review of Books</em>.</p>
<p>Judt, falecido em 2010, vítima de distúrbio degenerativo conhecido como doença de Lou Gehrig, <a class="external-link" href="http://www.nybooks.com/articles/archives/2012/apr/05/tony-judt-right-questions/">tem estado presente na mídia literária e acadêmica</a> – <a class="external-link" href="http://www.nybooks.com/articles/archives/2012/mar/22/tony-judt-final-victory/">principalmente na <em>New York Review of Books</em></a>, revista para a qual contribuía regularmente –, não só pelas homenagens póstumas que vem recebendo, mas principalmente por conta da publicação do livro <em>Thinking the twentieth century</em> (Pensando o século 20, em tradução livre). Trata-se de uma série de conversas de Judt com o também historiador Timothy Snyder, que acaba de ser lançada pela Penguin Press e tem publicação em português prevista para o início de 2013.<em><br /></em></p>
<p><em><img class="image-left" src="/colunas/em-tempo/imagens/vivendooseculo2002.jpg/image_mini" alt="Capa Thinking the twentieth century" />Thinking the twentieth century</em> é um livro curioso. Não só por ser resultado de uma série de conversas, o que por si só não é tão incomum, mas por ser uma história intelectual do século 20 contada, ou discutida, por alguém assumidamente definido como um intelectual do século 20. O resultado é uma história intelectual a partir de uma narrativa pessoal, que nos faz pensar não só sobre os temas específicos do livro, mas também sobre a própria relação entre biografia e objeto de estudo – o que, aliás, tanto Snyder quanto Judt fazem, respectivamente, no prefácio e no posfácio da obra.</p>
<p>O livro começa com as reflexões de Judt sobre a catástrofe sofrida pelos judeus da Europa Central e Oriental na primeira metade do século 20 – a destruição das comunidades judaicas europeias e o Holocausto – e termina com uma análise da falência da política norte-americana no mundo pós-Guerra Fria. <br /><br /></p>
<h3>A insistente intervenção judaica</h3>
<p>Todos os capítulos iniciam com observações sobre sua vida, para depois entrar na análise histórica propriamente dita. Logo no primeiro, ficamos sabendo que ele recebeu o nome Tony em memória da prima de seu pai, Toni, que morreu em Auschwitz. E assim, mesmo nunca tendo devotado seus estudos especificamente à história dos judeus, mesmo nunca tendo a questão judaica estado no centro de sua vida intelectual, ele admite que o tema vinha se colocando cada vez mais presente em suas preocupações, a ponto de afirmar que “a história intelectual do século 20 (e a história dos intelectuais do século 20) tem uma conformação específica”, “uma narrativa que insistentemente intervém e se intromete em qualquer balanço do pensamento do século 20 e de seus pensadores: a catástrofe dos judeus europeus”.</p>
<div class="pullquote">Mesmo nunca tendo a questão judaica estado no centro de sua vida 
intelectual, ele admite que o tema vinha se colocando cada vez mais 
presente em suas preocupações</div>
<p>Claro que, apesar de fazer essa relação a partir de sua própria experiência, Judt não pensava apenas em si próprio. Muito pelo contrário. Partindo de reflexões sobre o pensamento e as trajetórias de vida de intelectuais como Stefan Zweig, Hannah Arendt e seu colega Eric Hobsbawm, Judt abre espaço para se pensar por que importantes intelectuais do século 20 têm suas raízes nas escolas rabínicas das comunidades judaicas da Europa Oriental, a começar por Isaac Deutscher, que desistiu de ser rabino para virar marxista, cuja trilogia sobre Leon Trotsky foi devorada por Judt aos 13 anos. Judt não chega a elaborar uma resposta para isso, mas também não deixa de pensar o fenômeno como uma questão histórica ampla.</p>
<p>Interessante que essa relação entre biografia e análise histórica foi também pensada por vários outros judeus da contemporaneidade – intelectuais do século 20 –, seja como memória (que o próprio Judt também publicou, sob o título <em>O chalé da memória</em>), seja como história – mesmo que essas distinções não sejam tão claras assim. Basta citar o <em>My German question</em> (Minha questão alemã, em tradução livre), do alemão Peter Gay, a trilogia do búlgaro Elias Cannetti (<em>A língua absolvida</em>, <em>Uma luz em meu ouvido</em> e <em>O jogo dos olhos</em>, todos editados pela Companhia das Letras) e o livro do brasileiro Boris Fausto, <em>Negócios e ócios</em> (também publicado pela Companhia das Letras). Em todos esses livros – todos, aliás, leituras imprescindíveis –, seja à luz da microhistória, seja como ego-história, a narrativa é centrada no autor e as trajetórias individuais iluminam, cada qual à sua maneira, o contexto histórico mais amplo.</p>
<div class="pullquote">Em <em>Thinking the twentieth century</em>, o principal personagem não é o historiador, mas a história</div>
<p>A peculiaridade de Tony Judt em seu último livro é que ele o termina defendendo que a “invisibilidade retórica” ainda é a melhor maneira de escrita do historiador. A tal invisibilidade não significa uma pretensão à objetividade, nem mesmo abdicar de fornecer suas próprias opiniões sobre os temas analisados. Muito pelo contrário. Para ele, historiadores sem opiniões não são muito interessantes – e eu assino embaixo. Mas significa que ele não defende o uso de sua própria trajetória para iluminar aspectos do século 20, mas sim mostra como o desenrolar do século 20 – surpreendente em muitos aspectos, para ele – abalou suas próprias certezas e convicções, causando impacto profundo em sua vida.</p>
<p>Em <em>Thinking the twentieth century</em>, o principal personagem não é o historiador, mas a história.<br /><br /><strong>Keila Grinberg<br /></strong>Departamento de História <br />Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro<br />Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)</p>
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  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Keila Grinberg</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>História</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-05-11T19:57:00Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/por-quem-e-como-os-sinos-dobram">
  <title>Por quem (e como) os sinos dobram?</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/por-quem-e-como-os-sinos-dobram</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>As atividades criativas a que chamamos de artísticas, e todo o complexo de valores, sensibilidades e práticas que as sustenta, são objeto da investigação antropológica desde o começo do século 20. Na obra dos sociólogos alemães Georg Simmel e Max Weber já se encontravam importantes análises do modo como a música ocidental se estruturava e se relacionava com as demais dimensões da organização social.</p>
<p>Considera nosso senso comum que a experiência artística expressa mais diretamente os sentimentos e emoções do que outras áreas da atividade humana; o que é matéria de muita discussão e dissenso, já que não há uma definição universalmente válida do que seja ‘emoção’. Tampouco da fronteira possível entre o sensível, o sentimental e o cognitivo – tão elaborada em nossa cultura e tão fundamental para as argumentações internas ao mundo artístico.</p>
<div class="pullquote">As manifestações musicais – imensamente variadas como são – conservam aquele aguilhão profundo que, como se diz, “atinge a alma”</div>
<p>É mais adequado ao pensamento antropológico considerar que a experiência artística, tal como definida pela cultura ocidental, relaciona-se com as áreas de máxima intensidade vivencial; é inseparável, na maior parte das culturas, do que chamamos de ritual, seja na forma contrita do religioso, por um lado, ou na forma lúdica dos lazeres, por outro. Mesmo que, entre nós, a música, por exemplo, tenha se afastado do campo específico da religião, suas manifestações – imensamente variadas como são – conservam aquele aguilhão profundo que, como se diz, “atinge a alma”. Esse era um dos sentidos dos sinos na cristandade.</p>
<p>A antropologia brasileira tem abrigado importantes desenvolvimentos na área da antropologia da arte – ou da música, mais especificamente. Por dolorosa coincidência, três personagens importantes desse campo vieram recentemente a interromper suas atividades: Santuza Naves e Gilberto Velho faleceram neste último mês e Elizabeth Travassos foi jogada em um estado grave de inconsciência por um acidente hospitalar, de que padece desde o fim de 2011.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/porqueossinos02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/porqueossinos02.jpg/image_preview" alt="Luiz Fernando Dias Duarte e colegas" title="Luiz Fernando Dias Duarte e colegas" height="289" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Luiz Fernando Dias Duarte (à esquerda, abaixado), ao lado de colegas, entre eles, Gilberto Velho (sentado), Santuza Naves (à direita, de blusa branca) e Elizabeth Travassos (no centro, abaixada), após aula magna proferida por Velho no Museu Nacional/UFRJ em 30 de junho de 2010. (foto: Arquivo pessoal do colunista)</dd>
</dl>

<p>Santuza havia feito seu mestrado com Velho, a respeito de Caetano Veloso e a Tropicália. Elizabeth fez seu doutorado também com ele, sobre o modernismo musical e seu interesse nas tradições populares, comparando o compositor brasileiro Mário de Andrade com o húngaro Béla Bartók. Velho, entre tantas facetas criativas, dedicou-se à pesquisa sobre o papel da arte nas sociedades urbanas contemporâneas, tendo publicado já em 1977 uma instigante coletânea sobre ‘arte e sociedade’. Nesse volume combinavam-se três tendências de análise que continuam caracterizando o campo: a histórica, a sociológica e a etnológica.</p>
<p>A história social dos fenômenos artísticos na cultura ocidental é um pano de fundo essencial para compreender os fenômenos da atualidade; assim como é essencial para o olhar antropológico sobre as outras culturas humanas e os fatos que ali parecem equivalentes à nossa arte. Esta última tendência abriga o campo bastante autônomo da etnomusicologia. O leitor interessado no que haja aí de mais recente pode consultar o <a class="external-link" href="http://www.ppgasmuseu.etc.br/museu/Pages/cursos.html">programa do atual curso</a> de Carlos Fausto e Tommaso Montagnani no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<br /><br /></p>
<h3>Vários estudos, um mestre</h3>
<p>Gilberto Velho orientou muitas outras teses dedicadas à pesquisa sobre fenômenos musicais: as de <a class="external-link" href="http://hermanovianna.wordpress.com/">Hermano Vianna</a> sobre o <a class="external-link" href="http://www.overmundo.com.br/banco/o-baile-funk-carioca-hermano-vianna">mundo <em>funk</em></a> e sobre o <a class="external-link" href="http://hermanovianna.wordpress.com/tag/o-misterio-do-samba/">samba como música representativa da nacionalidade</a>, <a class="external-link" href="http://www.bdae.org.br/dspace/bitstream/123456789/1590/1/tese.pdf">a de Pedro Leite Lopes</a> sobre o <em>heavy metal</em>, as de Sandra Costa sobre o <a class="external-link" href="http://www.bdae.org.br/dspace/handle/123456789/1586"><em>hip-hop</em> carioca</a> e sobre as <a class="external-link" href="http://teses.ufrj.br/PPGAS_D/SandraReginaSoaresDaCosta.pdf">carreiras populares de músico</a>, <a class="external-link" href="http://teses2.ufrj.br/Teses/PPGAS_M/CaioGoncalvesDias.pdf">a de Caio Dias</a> sobre Tom Jobim, a de <a class="external-link" href="http://milaburns.com/2012/04/16/ao-mestre-com-carinho/">Mila Burns</a> sobre <a class="external-link" href="http://www.academiadosamba.com.br/monografias/MilaBurns.pdf">Dona Ivone Lara</a>, <a class="external-link" href="http://www.bdae.org.br/dspace/handle/123456789/1570">a de Roberta Ceva</a> sobre o forró universitário. Esses trabalhos, assim como muitos outros dessa seara dedicados à arte e à cultura, buscavam compreender os sentidos sociais de tais fenômenos, articulando-os com as condições de organização social e espírito cultural de seu tempo e lugar.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/porqueossinos03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/porqueossinos03.jpg/image_preview" alt="Samba" title="Samba" height="300" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Gilberto Velho orientou várias pesquisas sobre fenômenos musicais, entre eles, o samba. (foto: Naty Torres/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)</dd>
</dl>

<p>Na tradição seguida por Velho é muito forte o aporte da escola norte-americana do ‘interacionismo simbólico’, particularmente na figura do sociólogo Howard Becker – também músico de <em>jazz</em> –, que desenvolveu o conceito de ‘mundos artísticos’, ou seja, a constituição de grupos ou redes de sujeitos vinculados à prática da arte. Esses mundos se caracterizam pela especificidade dos estilos de vida ali cultivados; com o desenvolvimento de um sentimento de comunhão peculiar, regras práticas, disposições éticas, e até mesmo formas próprias de cultivar o conflito e a competição. Velho explorou as relações contemporâneas desses mundos no Brasil com o fenômeno dos ‘comportamentos desviantes’, como o consumo de drogas ou a homossexualidade.</p>
<p>A conotação de transgressão de que se cercou no Ocidente a vanguarda artística desde o romantismo é uma das marcas mais vívidas desse mundo – o que tem sido tratado por numerosos autores, interessados na sua correlação com a racionalização, com o individualismo, com a interiorização; enfim, com as linhas mestras da modernidade ocidental. Um ponto importante é o da associação da atividade artística com uma qualidade de verdade subjetiva, chamada de ‘autenticidade’, que tanto pode se expressar no plano pessoal, do artista criador, quanto no plano coletivo, da expressão de uma ‘alma nacional’.</p>
<div class="pullquote">Saber como dobram os sinos, qual o sentido do mundo de experiências em que passamos imersos na vida, é a dura tarefa dos antropólogos</div>
<p>É interessante destacar que os trabalhos de Travassos e de Naves, embora com estilos diferentes, enfrentaram questões comuns da relação entre música e nação. Suas próprias teses, já citadas, moviam-se no âmbito do desafio de articulação entre o modernismo artístico e a modernização nacional. E seus trabalhos posteriores continuaram a frequentar essa linha fundamental de exploração do sentido da música brasileira: no caso de Travassos, o estudo das tradições orais e do patrimônio cultural; no de Naves, o da música popular brasileira e da contracultura, por exemplo.</p>
<p>Como disse o poeta inglês John Donne em 1624, os sinos, quando dobram, dobram sempre por todos nós, servos da morte. Saber <strong>como </strong>dobram, qual o sentido do mundo de experiências em que passamos imersos na vida, é a dura tarefa dos antropólogos; mesmo quando acabrunhados pela perda de colegas tão caros.<br /><br /><strong>Luiz Fernando Dias Duarte</strong><br />Museu Nacional<br />Universidade Federal do Rio de Janeiro<br /><br /></p>
<div class="bloco-centralizado"><strong>Sugestões para leitura</strong><br />TRAVASSOS, Elizabeth. <em>Os mandarins milagrosos: arte e etnografia em 
Mário de Andrade e Béla Bartók.</em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.<br /><br />TRAVASSOS, Elizabeth. <em>Modernismo e música brasileira.</em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. <br />
<br />NAVES, Santuza C.. <em>O violão azul: modernismo e música popular. </em>Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1998. <br />
<br />NAVES, Santuza C.. <em>Da bossa nova à tropicália.</em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.<br /><br />
VELHO, Gilberto (org.). <em>Arte e Sociedade: ensaios de sociologia da arte.</em> Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.</div>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Luiz Fernando Dias Duarte</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Música</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Antropologia</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Arte</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Cultura</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-05-04T22:06:57Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/mais-baratas-e-abundantes">
  <title>Mais baratas e abundantes</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/mais-baratas-e-abundantes</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>As energias renováveis estão na ordem do dia, tanto nas bancadas de pesquisa quanto nos laboratórios industriais. Sendo assim, é mais que natural que o tema seja recorrentemente tratado por aqui. <a title="Rumo à energia solar mais eficiente" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/rumo-a-energia-solar-mais-eficiente">Na coluna de julho de 2010</a>, abordamos os conceitos científicos básicos que estão por trás da tecnologia das células solares.</p>
<p><a title="O novo patamar da energia solar" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/o-novo-patamar-da-energia-solar">Em março deste ano</a>, apresentamos algumas inovações científicas e tecnológicas referentes às células solares ditas convencionais, aquelas confeccionadas com filmes finos em materiais rígidos à base de silício ou de semicondutores inorgânicos – cobre, índio, gálio e selênio (CIGS). Agora, volto ao assunto para relatar inovações com as células solares plásticas, feitas à base de polímeros.</p>
<p>Depois da descoberta dos polímeros condutores, <a class="external-link" href="http://pubs.rsc.org/en/Content/ArticleLanding/1977/C3/c39770000578">em meados dos anos 1970</a>, inúmeros pesquisadores passaram a desenvolver células solares a partir desse material. Daqueles dispositivos pioneiros, <a class="external-link" href="http://www.nature.com/nature/journal/v254/n5500/abs/254507a0.html">com eficiência de conversão de energia solar em eletricidade inferior a 1%</a>, aos mais atuais, com esse índice beirando os 10%, os pesquisadores tiveram que usar de muita criatividade para vencer dificuldades tecnológicas inerentes aos polímeros e finalmente chegar ao momento em que se vislumbra a possibilidade de aplicação tecnológica competitiva.</p>
<p>O cenário teve uma mudança animadora nos últimos dois anos, quando a eficiência saltou dos 5% para algo em torno de 9%. Isso parece pouco, quando temos em vista os 20% apresentados por células solares de silício, mas a história não é tão simples assim. Há que se levar em conta outros elementos importantes do processo tecnológico. <br /><br /></p>
<h3>Eficiência não é tudo</h3>
<p>As células solares orgânicas são divididas em duas categorias: pequenas moléculas e grandes moléculas, os ditos polímeros. É essa última classe que está despertando o grande interesse no momento, pois não depende da tecnologia de filmes finos no vácuo, como é o caso das células orgânicas à base de pequenas moléculas.</p>
<div class="pullquote">As células solares poliméricas são simplesmente processadas em soluções 
de solventes orgânicos, em atmosfera ambiente e temperatura inferior a 
200ºC</div>
<p>As células solares poliméricas são simplesmente processadas em soluções de solventes orgânicos, em atmosfera ambiente e temperatura inferior a 200 graus centígrados.</p>
<p>Na busca de células mais eficientes, os pesquisadores investigam novos materiais, suas configurações morfológicas e aspectos de engenharia de superfície.</p>
<p>Muitas vezes essas novas estruturas consistem na combinação de dois ou mais materiais conhecidos, de modo que a união dê origem a propriedades elétricas capazes de aumentar a eficiência na conversão da energia solar em eletricidade. Um exemplo clássico e bem-sucedido desse tipo de estrutura – chamada tandem – é a inclusão de fulerenos para aumentar a condutividade elétrica de células solares orgânicas.</p>
<p>Mesmo com esses avanços, ainda não foi possível a elaboração de um sistema polimérico com eficiência comparável à dos sistemas inorgânicos. Mas essa não é a questão mais importante quando se trata de comparar os dois sistemas.</p>
<p>A questão mais importante é o custo dos dispositivos. As células de silício, que chegam a atingir 20% de eficiência, talvez não possam reduzir muito os custos atuais, pela complexidade tecnológica da sua preparação. Os dispositivos CIGS, que também atingem 20% em sistemas de filmes finos, dependem do índio, cujo estoque mundial é muito pequeno. Então, a porta está aberta para uma tecnologia que forneça algo em torno de 15% de eficiência e seja baseada em material abundante e barato.</p>
<p>Os polímeros podem permitir isso, “basta” passar dos atuais 10% e chegar aos 15%. Esforço nesse sentido não falta, como também não falta competidor de peso – até porque o incentivo é grande. Estima-se que, neste ano, o mercado para eletrônica com materiais plásticos – não apenas células solares – será superior a R$ 15 bilhões.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/imagens/barataeabundante02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/imagens/barataeabundante02.jpg/image_preview" alt="Células solares de silício" title="Células solares de silício" height="335" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Células solares de silício, como a da foto, ainda são as mais eficientes e competitivas, mas, pela complexidade tecnológica da sua preparação, talvez não possam reduzir muito os custos atuais, abrindo espaço para os sistemas orgânicos. (foto: Ersol/ CC BY 3.0)</dd>
</dl>

<p>Outra vantagem dos semicondutores poliméricos sobre os inorgânicos está relacionada ao desenvolvimento de dispositivos maleáveis, como telas de telefones celulares. Muitos dos materiais utilizados nos sistemas metálicos reagem com o oxigênio da atmosfera, de modo que os dispositivos maleáveis devem ser protegidos com uma camada de material plástico ou por meio de dispendiosos processos de encapsulamento. Isso não é necessário no caso de semicondutores de polímero.<br /><br /></p>
<h3>Ainda a caminho</h3>
<p>Na prática, os competidores buscam materiais e processos de fabricação que resultem em células mais eficientes e duráveis. Avanços científicos e tecnológicos relevantes foram recentemente apresentados <a class="external-link" href="http://www.nature.com/nphoton/journal/v6/n3/full/nphoton.2012.11.html">em artigo de revisão publicado na <em>Nature</em></a>, por Gang Li, Rui Zhu e Yang Yang.</p>
<p>Muitos deles se concentram em alterações na largura da banda de energia proibida dos materiais que compõem o sistema ou na inclusão de uma segunda banda de energia, como é o caso das estruturas tandem. É essa largura que define a energia do espectro solar que será absorvida eficientemente pela célula (leia mais detalhes na coluna de julho de 2010).</p>
<div class="pullquote">Embora animadores, os resultados obtidos até o momento não vão levar imediatamente à fabricação de dispositivos comerciais</div>
<p>O sonho é manipular materiais e suas bandas de energia de modo a obter células que absorvam toda a faixa de luz visível do espectro solar, mas criar material que absorva na faixa do vermelho não é nada fácil. No ano passado, <a class="external-link" href="http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/ja1112595">pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte obtiveram</a>, a partir da mistura de um polímero com fulereno, um material capaz de absorver luz entre o amarelo e o violeta, com eficiência superior a 7%.</p>
<p>Embora animadores, os resultados obtidos até o momento não vão levar imediatamente à fabricação de dispositivos comerciais. Esses são apenas os primeiros passos na direção de uma eletrônica impressa em material plástico flexível.<br /><br /><strong>Carlos Alberto dos Santos<br /></strong>Professor-visitante sênior da Universidade Federal da Integração Latino-americana</p>
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  </content:encoded>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Carlos Alberto dos Santos</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Física</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Tecnologia</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Eletrônica</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-05-04T14:34:19Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/empresas-ciencias-sociais-e-sustentabilidade">
  <title>Empresas, ciências sociais e sustentabilidade</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/empresas-ciencias-sociais-e-sustentabilidade</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>O Brasil chama a atenção do mundo pelo seu expressivo crescimento econômico e em breve vai sediar a Rio+20, conferência internacional sobre desenvolvimento sustentável. Cada vez mais, o termo ‘desenvolvimento sustentável’ tem sido complementado pela expressão ‘com inclusão social’. Mas, nesse quesito, que nota o país anfitrião da Rio+20 poderia tirar?</p>
<p>Não muito boa, a julgar pela nossa história, em que a resolução de conflitos sociais sempre foi atribuição das forças policiais e, mais recentemente, da Força Nacional, como nos recentes conflitos trabalhistas nos canteiros das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, que resultaram em incêndio de alojamentos. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, apressou-se em atribuir os distúrbios a atos de vandalismo de um pequeno grupo de pessoas infiltradas (<em>O Globo</em>, 18/04/2012, pág. 27). Aguardamos então a identificação desse poderoso grupo, Sr. ministro.</p>
<div class="pullquote">Na nossa história, a resolução de conflitos sociais sempre foi atribuição das forças policiais</div>
<p>Em uma rápida análise sobre esse evento, podemos ressaltar que a hidreletricidade é uma energia sustentável. Ponto a favor. Já a inclusão social, nesse caso... deixa pra lá. Esse e outros episódios sugerem que, apesar de nítidos progressos na redução da desigualdade na última década, a mentalidade de nossos líderes e gestores pouco mudou.</p>
<p>Outro exemplo eloquente e, dessa vez, bem urbano foi fornecido na semana passada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, cujo secretário de Transportes qualificou como vândalos (de novo...) os populares anônimos que destruíram painéis colocados ao longo de uma das avenidas mais frequentadas do centro carioca (<em>O Globo</em>, 18/04/2012, pág. 20). Os painéis visam impedir a passagem de pedestres por lugares que não sejam os julgados adequados pelos engenheiros responsáveis por sua instalação. Mas esses engenheiros são pouco pedestres e quase nada usuários de transporte coletivo.</p>
<p>Como exemplo de atitude diametralmente oposta, no Japão, as novas praças são entregues sem grama. Esta é colocada depois que a população usou a praça por algum tempo e deixou traçados os seus caminhos preferenciais, que são então calçados. O resto é gramado.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/terra-em-transe/imagens/empresascienciassociais02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/imagens/empresascienciassociais02.jpg/image_preview" alt="Praça japonesa" title="Praça japonesa" height="318" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">No Japão, o gramado das novas praças só é colocado depois que a população usa o espaço e deixa traçados seus caminhos preferenciais, que são pavimentados. (foto: Flickr/ kjly – CC BY-NC-ND 2.0)</dd>
</dl>

<p>Os casos brasileiros citados ilustram o modelo narcisista, autoritário e arrogante de gestão no qual persistimos. Seu subtexto declara: sei tudo e o que faço é perfeito, portanto, qualquer discordância é desvio. Mas frequentemente diz também: isto é meu, não se meta. Autoritarismo e patrimonialismo são traços marcantes da sociedade brasileira que não ajudam a fazer urbanismo sustentável nem promover inclusão social.</p>
<p>Mas, sejamos justos, nas últimas décadas o Estado transformou-se bastante. Seus muitos, pesados e ineficientes braços foram sendo substituídos por ágeis empresas privadas contratadas. O processo ocorreu no resto do mundo também, mas no Brasil esse capitalismo de Estado é marcado pela nossa também histórica tendência a borrar as fronteiras entre o público e o privado.</p>
<p>O binômio Estado-empresa poderia se traduzir em maior eficiência no uso dos recursos, mas o que parece predominar é a eficiente apropriação, por algumas empresas e servidores públicos, de recursos bem reais, por meio da compra de bens e serviços virtuais, fato que é objeto de rotineiro e caudaloso noticiário. Depois do trafico de armas, pessoas ou drogas, este deve ser um dos negócios mais lucrativos que há.</p>
<div class="pullquote">O novo Código Florestal promove mais apropriação de recursos naturais coletivos por uma minoria</div>
<p>O problema é que verbas, desviadas ou não, são sinônimos de trabalho, água, terra, alimento e muitos outros recursos humanos e ambientais. Portanto, desperdiçá-las significa exercer mais pressão sobre um planeta já desgastado, o que explica por que questões como a governança estão na agenda de conferências como a Rio+20.</p>
<p>Outro tema da atualidade nacional que revela nosso pouco caso com o meio ambiente é a proposta do novo Código Florestal, que <a class="external-link" href="http://www.ciclovivo.com.br/noticia.php/4773">acaba de ser votado novamente na Câmara dos Deputados</a> e agora segue para sanção ou veto presidencial. O documento está na contramão da sustentabilidade e da redução das emissões de carbono, compromisso que assumimos voluntariamente na COP 15, em Copenhagen. No quesito governança, a proposta promove mais apropriação de recursos naturais coletivos por uma minoria e o generoso perdão do desmatamento já ocorrido.<br /><br /></p>
<h3>Cenário contraditório</h3>
<p>Ser o país anfitrião de uma conferência internacional sobre clima, meio ambiente e sustentabilidade coloca o Brasil no centro das atenções, mas, com ou sem Rio+20, o país se destaca por sintetizar ao mesmo tempo as possibilidades e os desafios do desenvolvimento sustentável.</p>
<p>Temos (ainda) excepcional biodiversidade, grandes extensões de florestas que (ainda) não conseguimos derrubar, recursos hídricos abundantes (mas de qualidade ameaçada), variedade crescente de fontes renováveis de energia (e também pesados subsídios a energias não renováveis e carbono-intensivas) e setores industriais pujantes e inovadores convivendo com extensos bolsões de feudalismo: um verdadeiro laboratório.</p>
<p>E qual o lugar da ciência nos processos decisórios desse laboratório? Nenhum, a julgar pela predominância dos apetites privados, aliados ou não às esferas de governo, como se viu no caso da aprovação do Código Florestal.</p>
<p>Na arena global, o cenário não é diferente. O planeta, literalmente, pertence às grandes corporações, que representam pouca gente, mas têm muito mais recursos para investimento do que os governos. As indústrias carbono-intensivas, como a do petróleo, estão entre as mais poderosas. Elas exploram um recurso não renovável, cuja extração e combustão geram elevada morbimortalidade e emissões de gases que, segundo a ciência do clima, provocam aquecimento global.</p>
<p>Apesar disso, os gastos anuais globais com subsídios à produção e venda de combustíveis fósseis são de U$ 650 bilhões, a maior parte para manter os preços baixos. Pode parecer contraditório, mas faz sentido, já que todas as engrenagens da economia atual dependem desses combustíveis em maior ou menor grau.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/terra-em-transe/imagens/empresascienciassociais03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/imagens/empresascienciassociais03.jpg/image_preview" alt="Plataforma de petróleo" title="Plataforma de petróleo" height="300" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">A indústria do petróleo está entre as mais poderosas do mundo. Apesar dos impactos ambientais que ela provoca, todas as engrenagens da economia atual dependem de seus produtos em maior ou menor grau. (foto: Ken Hodge/ Flickr – CC BY 2.0)</dd>
</dl>

<p>Logo, é natural que o tema das mudanças climáticas levante tanta controvérsia; as questões em jogo são enormes. O que não é natural é a também enorme concentração da riqueza e do poder em tão poucas mãos, petrolíferas ou não. Em um ecossistema natural, isso duraria pouco ou dificilmente ocorreria, graças aos mecanismos de regulação do mesmo.<br /><br /></p>
<h3>Regulação comprometida</h3>
<p>No ecossistema da economia, também há mecanismos reguladores. As agências... reguladoras, por exemplo. Se você viaja de ônibus, barca ou avião ou tem telefone fixo ou celular, conhece bem a eficiência das mesmas. A imprensa é outro mecanismo importante, mas é atividade de empresas de comunicação, que são geralmente bem menores do que as empresas que anunciam em suas mídias, o que coloca claros limites à independência das primeiras.</p>
<p>E há a ciência, o pequeno grilo falante, primo pobre nos orçamentos, supostamente neutra, objetiva, independente e universal. Em um mundo em que narcisismo e voracidade estão em alta e honestidade e responsabilidade em baixa, ela até poderia ser um mecanismo regulador. Mas, embora use verbas geralmente públicas, sua divulgação depende sempre de canais privados, como a grande mídia e as revistas especializadas.</p>
<p>Minhas pesquisas são bancadas por agências de fomento, brasileiras, estrangeiras ou multilaterais, todas públicas. Mas, para ler a maioria de minhas publicações, em papel ou em uma tela de computador, você terá que pagar algo às editoras privadas Springer ou Elsevier. É verdade que muitas agências de fomento, como o National Institute of Health, nos Estados Unidos, mantêm portais onde estão disponíveis pelo menos os resumos das publicações de trabalhos financiados com verbas públicas. Mas a Elsevier estaria pressionando o legislativo local para que isso acabasse.</p>
<div class="pullquote">São raros os cientistas que arriscam ser silenciados por batalhões de 
advogados e abordam temas que os interesses corporativos mais robustos 
podem considerar inoportunos</div>
<p>Para uma empresa, essa postura é natural, é o eterno combate à concorrência, é a fria lógica empresarial. Mas... se a difusão da ciência está privatizada, esqueça a neutralidade e a independência. Mesmo que tenham condições materiais para isso, são raros os cientistas que arriscam ser silenciados por batalhões de advogados e abordam temas que os interesses corporativos mais robustos podem considerar inoportunos. Afinal, o que impede as ditas corporações de serem também acionistas da editora, hum?</p>
<p>E, fechando o ciclo, o trabalho que um cientista submete a uma editora só é encaminhado aos colegas de profissão para revisão anônima – e gratuita – depois de passar pelo crivo de editores que são assalariados e, portanto, dependentes da boa vontade de seus patrões para seguir pagando as contas em dia. A rotatividade deve ser alta na categoria.</p>
<p>Para sair desse círculo vicioso, vamos precisar de muita ciência independente e, no momento, mais do que as do clima, as mais urgentes são as sociais e políticas. Talvez elas expliquem como o Estado republicano chegou a esse nível de anemia, como os sistemas de representação atingiram esse nível de descrédito e como as corporações ganharam tanto poder.</p>
<p>Espremida entre representantes que legislam em causa própria, corporações que infiltram todas as estruturas que poderiam regulá-las e grupos mafiosos que sugam os frutos de seu trabalho, a sociedade civil global talvez tenha mais chances de se fazer ouvir transformando-se, ela própria, em empresa.<br /><br /><strong>Jean Remy Davée Guimarães</strong><br />Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho<br />Universidade Federal do Rio de Janeiro</p>
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  </content:encoded>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Jean Remy Davée Guimarães</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Ciências sociais</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Sustentabilidade</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Inclusão</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Meio ambiente</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-27T22:59:18Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bioconexoes/compulsao-vicio-e-recompensa">
  <title>Compulsão, vício e recompensa</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bioconexoes/compulsao-vicio-e-recompensa</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>O longa-metragem inglês<em> <a class="external-link" href="http://www.imdb.com/title/tt1723811/">Shame</a></em>, lançado no mês passado no Brasil, descreve o cotidiano de Brandon Sullivan, um executivo bem-sucedido cujo descontrole e cuja dependência por sexo trazem consequências devastadoras para a sua vida.</p>
<div class="pullquote">Esse tipo de distúrbio é surpreendentemente frequente e está se tornando cada vez mais comum em todo o mundo</div>
<p>O personagem é insaciável. Em sua rotina obsessiva, busca relações sexuais a todo o instante, seja com garotas de programa, virtualmente ou em lugares públicos. Apesar de o caso de Brandon parecer exótico e extremo, esse tipo de distúrbio é surpreendentemente frequente e está se tornando cada vez mais comum em todo o mundo.</p>
<p>A compulsão por sexo foi originalmente descrita pelo psiquiatra alemão <a class="external-link" href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1415-47142009000200011">Richard von Krafft-Ebing</a> (1840-1902) em 1886. Entretanto, só recentemente passou a ser definida como transtorno mental.</p>
<p>Essa compulsão é caracterizada pela imposição interna incontrolável em realizar um ato sexual mesmo que venha a prejudicar a si próprio ou outras pessoas, por uma excitação gradativa antes de realizá-lo e por um alívio imediato, seguido de arrependimento, após consumá-lo. Causa sofrimento emocional e pode comprometer a saúde financeira e as relações familiares e profissionais do indivíduo.</p>
<p>Nos Estados Unidos, <a class="external-link" href="http://articles.cnn.com/2008-09-05/health/sex.addiction_1_relationship-addiction-patrick-carnes-addiction-cases?_s=PM:HEALTH">estima-se que 5% da população têm comportamento sexual compulsivo</a>. Valores provavelmente muito subestimados, devido ao constrangimento dos envolvidos em revelar a sua condição. Não há estatísticas a respeito no Brasil.<br /><br /></p>
<h3>Recompensa evolutiva</h3>
<p>De forma bastante simplificada, sexo é a recompensa evolutiva pela estratégia de reprodução adotada pela espécie humana. É evidente, portanto, a importância biológica de uma associação entre excitação, satisfação e ato sexual.</p>
<p>Estudos de neuroimagem funcional em seres humanos demonstraram que o orgasmo afeta as mesmas regiões do cérebro que, por exemplo, o consumo de cocaína. Não é difícil imaginar que comportamentos compulsivos podem levar a adaptações moleculares e celulares no cérebro semelhantes às observadas pelo uso abusivo de drogas.</p>
<p>De fato, em 2010, cientistas canadenses demonstraram que, em ratos, ocorre a sensibilização das mesmas regiões cerebrais após relações sexuais repetidas ou exposição à anfetamina. Entre essas regiões, está o núcleo accumbens, estrutura próxima ao hipocampo ligada à sensação do prazer e que faz parte do sistema dopaminérgico mesocorticolímbico.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/bioconexoes/imagens/shame_corre.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bioconexoes/imagens/shame_corre.jpg/image_preview" alt="Corrida em Shame" title="Corrida em Shame" height="172" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">É possível especular que um programa intenso de atividade física seja capaz de reduzir os sintomas do transtorno hipersexual. Em um trecho marcante de 'Shame', o protagonista se exercita correndo pelas ruas de Nova Iorque em uma  tentativa, inconsciente, de não ceder à compulsão. (imagem: reprodução)</dd>
</dl>

<p>Há uma associação entre aumento da neurotransmissão dopaminérgica e a compulsão por sexo. De modo semelhante aos efeitos sensibilizantes das drogas de abuso, encontros sexuais repetidos amplificam a resposta à dopamina no núcleo accumbens.</p>
<p>A importância de um neurotransmissor – a dopamina – no desencadeamento de transtornos de comportamento pode ser confirmada pelas alterações descritas em algumas pessoas em tratamento da doença de Parkinson. Pelo menos 17% desses pacientes, quando utilizam substâncias que simulam, parcialmente, o efeito da dopamina – os chamados ‘agonistas da dopamina’ –, passam a apresentar transtornos de comportamento, incluindo compulsão por jogos de azar, internet, compras ou sexo.</p>
<p>O ato sexual aumenta a expressão do gene de resposta imediata FosB delta no sistema dopaminérgico mesocorticolímbico. O aumento da expressão desse gene melhora o desempenho sexual, enquanto seu bloqueio o prejudica.</p>
<p>Tanto as experiências sexuais repetidas quanto o consumo de drogas de abuso também promovem, novamente no núcleo accumbens, a atividade da enzima MAP cinase.</p>
<p>Da mesma forma, as alterações na morfologia e nos prolongamentos de neurônios são análogas após exposição continuada a substâncias de abuso ou comportamento sexual compulsivo.</p>
<p>Podemos concluir que os mesmos circuitos cerebrais de recompensa e 
motivação são ativados tanto por substâncias de abuso quanto por 
compulsão sexual</p>
<p>Nos últimos 50 anos, a nosologia psiquiátrica discriminou a busca compulsiva por substâncias (álcool, cocaína, heroína, nicotina) daquela associada a comportamentos (jogos de azar, sexo, internet).</p>
<p>Os avanços recentes da ciência, entretanto, têm desafiado esse limite de diagnóstico, apontando vulnerabilidades comuns entre a busca patológica por drogas de abuso e aquelas associadas a exageros de comportamento.</p>
<p>Um benefício clínico antecipado pela identificação do sistema dopaminérgico mesocorticolímbico como coadjuvante tanto do abuso de drogas quanto dos transtornos sexuais está na possibilidade de utilização de medicamentos prescritos originalmente para o tratamento de dependência química em casos de compulsão por sexo.</p>
<p>Um <a class="external-link" href="http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11958364">estudo de 2001</a> descreveu resultados promissores da utilização do antagonista opioide naltrexona (usado no tratamento de dependentes de álcool e heroína) na redução do comportamento sexual compulsivo.</p>
<p>Curiosamente, o exercício físico eleva os níveis cerebrais de opioides endógenos e está associado ao aumento de dopamina no núcleo accumbens de roedores e humanos. A prática crônica de exercícios também é capaz de prevenir o consumo de anfetamina em ratos, além de evitar recaída de fumantes em abstinência.</p>
<p>Podemos especular, portanto, que um programa intenso de atividade física talvez seja capaz de reduzir os sintomas do transtorno hipersexual.</p>
<p>Em um trecho marcante de <em>Shame</em> (veja no vídeo abaixo), Brandon se exercita correndo pelas ruas de Nova Iorque. Provavelmente uma tentativa inconsciente de não ceder à sua compulsão por sexo.</p>
<p align="center"><iframe src="http://www.youtube.com/embed/FRORMEiJuRg" frameborder="0" height="259" width="450"></iframe></p>
<p><strong><br />Stevens Rehen</strong><br />Instituto de Ciências Biomédicas<br />Universidade Federal do Rio de Janeiro</p>
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  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Stevens Rehen</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Vídeo</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Psiquiatria</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Biologia</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Medicina e Saúde</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Neurociência</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-05-01T16:36:37Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/regras-leis">
  <title>Regras, leis</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/regras-leis</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>Lei tanto significa “o que se deve fazer” (é seu sentido jurídico) quanto “o que acontece regularmente”, isto é, a descrição de um fato sistemático (é seu sentido científico). Leis do primeiro tipo definem o montante dos pagamentos do imposto sobre a renda, por exemplo. Leis do segundo tipo explicam o movimento dos corpos, entre numerosos outros fatos.</p>
<p>Uma regra <em>manda</em> fazer a concordância do adjetivo com o substantivo ou do verbo com o sujeito. Mas uma regra também <em>descreve</em> a regularidade da palatalização das consoantes /t/ e /d/ diante de /i/, que leva à pronúncia [tchia] - [djia] em algumas regiões do país, em vez de [tia] - [dia] em outras regiões. E uma regra comanda (descreve como é) o alçamento de vogais átonas, produzindo pronúncias como [m<strong>i</strong>nin<strong>u</strong>] e [c<strong>u</strong>ruja], sem afetar as tônicas: [voc<strong>ê</strong>], [c<strong>o</strong>co]; nunca [*voc<strong>i</strong>], [*c<strong>u</strong>co].</p>
<p>Assim, no campo dos estudos da língua, há regras normativas e regras descritivas (eventualmente, explicativas). As primeiras têm funções sociais – querem produzir comportamentos. As outras têm funções científicas – querem produzir saber.</p>
<p>O sentido mais corrente de regra – para muitos, o único – é de comando, de lei que se deve seguir. Essa versão quase exclusiva se deve à brutal redução dos papéis das gramáticas na escola e, principalmente, na sociedade.</p>
<p>Embora na escola se estude a classificação dos fonemas, a estrutura das sílabas, uma classificação das palavras e algumas das regras de sua formação, uma classificação das orações e aspectos de sua estrutura, etc., o que fica são apenas as regras que corrigem: a concordância nominal <em>deve</em> ser assim ou assado, a regência de tal verbo <em>deve</em> ser indireta, a divisão silábica de palavras como ‘passado’ <em>deve</em> ser ‘pas-sa-do’, tal construção <em>é</em> errada etc. Ninguém pergunta a um professor de português se ‘exceto’ é advérbio. Pergunta pelas normas: como se deve escrever, como se deve pronunciar.</p>
<div class="pullquote">Supor que só há regras normativas é uma completa falsidade, tanto do ponto de vista histórico quanto do teórico e metodológico</div>
<p>As regras ortográficas são o melhor sintoma dessa mentalidade. Poucos discutem suas motivações: o que vigora são as listas, os manuais de uso. Chega-se a esquecer que são baixadas por lei ou portaria.</p>
<p>Ora, supor que só há regras normativas é uma completa falsidade, tanto do ponto de vista histórico quanto do teórico e metodológico. Pior, essa versão falsa é vista de forma absurda: as regras seriam <em>instituídas</em> pelos gramáticos, como se lê frequentemente nos jornais, quando ocorre algum debate sobre língua.</p>
<p>Uma leitura, mesmo banal, de qualquer gramática (refiro-me às gramáticas, não aos manuais de redação ou de ‘autoajuda’, do tipo ‘não erre mais’), deixa claro que os gramáticos apresentam o resultado de sua pesquisa sobre a língua. É claro que estabelecem um limite: só tratam da língua como escrita pelos melhores escritores (na verdade, selecionam os exemplos). É claro que essa escolha implica uma posição relativamente a uma representação imaginária da língua. É como dizer que a verdadeira língua é a dos ‘melhores’.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/palavreado/imagens/regras02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/imagens/regras02.jpg/image_preview" alt="Gramáticas" title="Gramáticas" height="274" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Ao elaborar sua gramática, o gramático tradicional estabelece um limite: tratar apenas da língua usada pelos melhores escritores em sua escrita. Essa opção reflete a valorização de uma modalidade linguística em detrimento de outras. (foto: Roberto B. de Carvalho)</dd>
</dl>

<p>Essa opção dos gramáticos tradicionais (sem conotação pejorativa) é uma seleção ideológica, cujo traço essencial é a maior valorização de uma modalidade em relação às outras etc. A gramática tem também um papel político: dotar um povo, ou um país, de uma língua oficial. Mesmo assim, ela não poderia ser lida como a <em>instituição</em> de regras pelos gramáticos. Eles não dizem “as regras <em><strong>devem</strong></em> ser estas”, mas “as regras que os escritores seguiram <em><strong>são</strong></em> estas”. Também anotam algumas variantes, mas que tratam como exceções.<br /><br /></p>
<h3>Todo falante usa regras</h3>
<p>As gramáticas logo vão à escola, às editoras e às redações. Portanto, à sociedade. Assim, logo cumprirão um segundo papel: o de erigir a gramática (a ‘língua’) dos escritores em modelo de escrita para todos e, eventualmente, em modelo de fala e em critério de avaliação da capacidade intelectual. É um corolário da ‘transformação’ da suposta língua dos escritores em língua do Estado (e da razão...).</p>
<p>Sumariamente, essa característica dá conta do papel social das gramáticas oficiais. No entanto, ao lado disso, e não necessariamente em posição de confronto, deveria ser claro que todos os que falam seguem regras. Só se fala segundo uma gramática. Não existe língua sem regras, e, por extensão, não existe variedade linguística que não siga regras.</p>
<p>Analfabetos seguem regras, crianças seguem regras. Estrangeiros em fase de aprendizagem da língua seguem regras. Eventualmente, produzem formas inusitadas, que alguns explicam como analogias. Assim, mesmo os verdadeiros erros (formas que não ocorrem regularmente em nenhuma das variedades linguísticas existentes) decorrem da aplicação de uma regra, ou da extensão de uma regra a domínios em que ela não se aplica.</p>
<div class="pullquote">Mesmo os verdadeiros erros decorrem da aplicação de
 uma regra, ou da extensão de uma regra a domínios em que ela não se 
aplica</div>
<p>Vejamos um caso exemplar, a hipercorreção, que consiste em ‘corrigir demais’. Ela tem aspectos sociais – a condenação do erro e o desejo de aparecer bem – e um aspecto psicológico, ligado ao processamento, que consiste na aplicação de uma regra que corrigiria o erro. O que há de peculiar na hipercorreção é que ela se aplica a um dado que parece um erro, mas não é.</p>
<p>Seja o seguinte caso: a sociedade condena pronúncias como <em>paiaço</em> (palhaço), <em>teia</em> (telha), <em>fio</em> (filho). Acontece que as formas <em>teia</em> e <em>fio</em> (e outras) tanto podem ser variantes populares de <em>telha</em> e <em>filho</em> quanto formas ‘corretas’: <em>teia</em> (de aranha), <em>fio</em> (de cabelo).</p>
<p>Um falante inseguro em relação a sua língua, mas interessado em uma boa apresentação de si, tentará ser sempre correto. Ciente de que as formas com /y/ são condenadas, ele as substituirá pela forma <strong>lh</strong> (aplica uma regra!). Em vez de <em>fio</em>, dirá <em>filho</em>, mas também, em vez de <em>teia</em> (de aranha), <em>telha</em>, e, em vez de <em>pia</em> (do banheiro), <em>pilha</em>. Já ouvi falantes rurais de origem italiana dizerem <em>fortalha</em> por <em>fortaia</em> (palavra para <em>omelete</em>, em um dos dialetos). Ou seja: a regra foi aplicada mesmo em palavra de outra língua!</p>
<p>O fenômeno da hipercorreção raramente é tratado na escola, porque nela, infelizmente, as formas populares são simplesmente tratadas como erros (deveriam ser tratadas como variantes regidas por gramáticas particulares). Mas há casos de evidente hipercorreção. O mais notório é a dificuldade centenária de convencer falantes a não empregar flexões com verbos impessoais. Pois é da hipercorreção que resultam formas como <em>faziam 15 dias</em> e <em>haviam / haverão muitas pessoas</em>. Mais recentemente, começou a se disseminar a forma <em>tratam-se de (questões, problemas)</em>...</p>
<p>A explicação é clara: geralmente se condena a ‘falta’ de concordância (Os menino <em>foi</em>, Nós <em>pega</em> o peixe). Que, na verdade, é outra regra! Como consequência, mais ou menos inconscientemente, o falante que quer ser correto ‘pensa’ que deve usar o máximo possível de formas plurais. E as emprega mesmo quando não é o caso.</p>
<p>Ganharíamos muito se não tivéssemos preconceitos e se, em consequência, tratássemos as línguas como objetos sociais que são e ainda como objetos estruturais, ou semiestruturais, que também são. Não há fio solto em nenhuma variedade.<br /><strong><br />Sírio Possenti</strong><br />Departamento de Linguística,<br />Universidade Estadual de Campinas</p>
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  </content:encoded>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Sírio Possenti</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Cultura</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Linguística</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-27T15:03:52Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/fisica-no-cotidiano">
  <title>Física no cotidiano</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/fisica-no-cotidiano</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>O nascer do Sol é um dos mais belos espetáculos da natureza. Nas grandes cidades, infelizmente, ele passa despercebido, não somente devido à correria do dia a dia, mas também devido ao fato de que os altos prédios e a poluição acabam ocultando-o.</p>
<p>Quem sai cedo de casa eventualmente tem a chance de ver esse fenômeno. Talvez muitos de nós já tenhamos observado a rápida transição que ocorre no amanhecer. Parece que, em um instante, tudo está escuro e, minutos depois, o Sol domina o ambiente.</p>
<p>A grande influência do Sol sobre nós fez com que ele fosse considerado uma divindade em muitas culturas. A sua luz e o seu calor são essenciais para a manutenção da vida na Terra.</p>
<div class="pullquote">A luz e o calor do Sol são essenciais para a manutenção da vida na Terra</div>
<p>Praticamente todas as formas de energia usadas na nossa sociedade são oriundas do Sol. Por exemplo, a energia que extraímos dos alimentos foi quimicamente acumulada durante o processo de fotossíntese, por meio do qual as plantas usam a energia da luz solar para converter gás carbônico, água e minerais em compostos orgânicos e oxigênio gasoso.</p>
<p>Ao ingerir um alimento, nosso organismo quebra as ligações químicas dessas moléculas e obtém energia, que é armazenada em outras moléculas, como a adenosina trifosfato (ATP).</p>
<p>Quando nos dirigimos para o trabalho, seja por meio de automóveis, ônibus ou metrô, também utilizamos, de certa forma, a energia do Sol. Os biocombustíveis, gerados principalmente a partir da cana–de-açúcar (caso do etanol) e de óleos vegetais (caso do biodiesel), são exemplos disso.</p>
<p>Na produção de combustíveis fósseis, derivados do petróleo, também ocorre uma transformação da energia solar. Admite-se que a origem do petróleo esteja relacionada à decomposição dos seres que formam o plâncton e de outras matérias orgânicas – restos de vegetais, algas e animais marinhos –, em um processo que demora centenas de milhões de anos. Quando queimamos esses combustíveis, liberamos a energia química que foi acumulada na matéria orgânica durante esse tempo.</p>
<p>A energia hidrelétrica, que representa grande parte da matriz energética do Brasil, também depende da energia solar. No momento em que a água desce pela represa da usina hidrelétrica, fazendo com que as turbinas girem e produzam eletricidade, há o processo de transformação da energia de movimento (energia cinética) da água em energia elétrica. Para que a represa continue a ter água, é necessário que haja chuvas e estas só acontecem por causa da evaporação da água provocada pelo Sol.</p>
<p>Portanto, uma manhã ensolarada não é apenas prenúncio de um dia bonito. Ela deve servir também para nos lembrar da importância do Sol em nossas vidas.<br /><br /></p>
<h3>O dia começa</h3>
<p>Durante o dia, em nossos empregos ou em nossas casas, realizamos diversas atividades que dependem de certos dispositivos ou fenômenos e normalmente não temos noção de como eles funcionam ou ocorrem. Utilizamos, por exemplo, a radiação eletromagnética para controlar à distância televisores, aparelhos de DVD, videocassetes, <em>videogames</em>, computadores <em>etc</em>.</p>
<p>Geralmente esses equipamentos utilizam controles remotos que emitem radiação na faixa do infravermelho, com comprimento de onda entre 1 milímetro e 1 micrômetro (milionésima parte do metro). Esses comprimentos de onda são invisíveis aos nossos olhos, pois são muito longos (enxergamos comprimentos de onda entre 630 e 390 nanômetros).</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/copy_of_fisicanocotidiano02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/copy_of_fisicanocotidiano02.jpg/image_preview" alt="Controle remoto" title="Controle remoto" height="300" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Os controles remotos usam radiação infravermelha para enviar os comandos aos aparelhos controlados por eles. (foto: Subhadip Mukherjee/ Sxc.hu)</dd>
</dl>

<p>Ao acionarmos os botões do controle remoto, ele emite pulsos longos e curtos que representam um código binário, que é convertido pelo aparelho receptor. Cada botão do controle remoto corresponde a determinado código, representado por frequências específicas que são enviadas para o equipamento controlado. Ao receber esses sinais, o aparelho os decodifica e realiza as operações solicitadas (trocar de canal, aumentar/diminuir o volume <em>etc.</em>).</p>
<p>Em nossas casas, também são comuns os fornos que utilizam radiações na faixa das micro-ondas (com comprimentos de onda entre 1 metro e 1 milímetro). Os fornos de micro-ondas comerciais operam com radiação de comprimento de onda de aproximadamente 12,2 cm.</p>
<p>Nesses aparelhos, o cozimento dos alimentos ocorre pela absorção da energia das micro-ondas pelo corpo. Como as micro-ondas são uma radiação eletromagnética, elas fazem com que as moléculas que apresentam dipolo elétrico (sistema com duas cargas elétricas opostas – positiva e negativa – e de mesmo valor), como as de água, oscilem e, como consequência, dissipem a energia absorvida.</p>
<p>Os aparelhos celulares, tão comuns atualmente, também operam na faixa das micro-ondas, mas com potência muito menor, da ordem de 3 watts. Nos fornos de micro-ondas, a potência é de aproximadamente 1.100 watts.</p>
<div class="pullquote">Processos descritos pela chamada física quântica ocorrem no interior de computadores, <em>smartphones</em> e <em>tablets</em></div>
<p>Já os computadores, <em>smartphones</em> e <em>tablets</em> utilizam processadores que chegam a conter mais de um trilhão de componentes. Esses componentes são responsáveis pelo processamento das informações e conseguem transformar as centenas de <em>gigabytes</em> que estão armazenadas nos discos rígidos em imagens, sons, cálculos, textos <em>etc.</em></p>
<p>Processos descritos pela chamada física quântica (que estuda os sistemas em escala atômica) ocorrem no interior desses dispositivos e os levam a executar operações lógicas que resultam em todas as maravilhas que os computadores realizam (saiba mais na coluna <a title="Pequenos habitantes de um mundo próximo" class="internal-link" href="/colunas/fisica-sem-misterio/pequenos-habitantes-de-um-mundo-proximo">‘Pequenos habitantes de um mundo próximo’</a>).<br /><br /></p>
<h3>A noite chega</h3>
<p>Quando o dia termina, começam a surgir alguns pontos brilhantes no céu, que, em uma noite sem luar, longe das luzes da cidade, podem ser vistos aos milhares. Esses pontos, as estrelas, sempre nos maravilharam. Embora essa visão de céu noturno seja rara nos dias de hoje, ela é, sem dúvida, tão bela quanto o amanhecer.</p>
<p>Se olharmos com cuidado, perceberemos que as estrelas têm diversos tamanhos e cores e que estão dispostas de maneira a formar certos padrões, nos quais visualizamos algumas figuras. Chamamos esses agrupamentos de estrelas de constelações. Em certas regiões do céu, é possível perceber aglomerados com muitas estrelas e nuvens opacas (nebulosas). É o caso da constelação de Órion, uma das mais visíveis no céu, principalmente entre o início de dezembro e o final de maio ou começo de junho.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/fisicanocotidiano03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/fisicanocotidiano03.jpg/image_preview" alt="Constelação de Órion" title="Constelação de Órion" height="257" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">A constelação de Órion é uma das mais visíveis no céu, especialmente entre o início de dezembro e o final de maio ou começo de junho. (foto: Nasa)</dd>
</dl>

<p>As estrelas podem ter diâmetros que variam de centenas de milhares de quilômetros (nosso Sol, por exemplo, tem 1,4 milhão de quilômetros) até mais de um bilhão de quilômetros, como é o caso de Betelgeuse, a estrela vermelha da constelação de Órion. Elas são formadas principalmente por hidrogênio e hélio em altíssimas temperaturas.</p>
<p>A quantidade de massa e a temperatura da estrela determinam seu tamanho e sua cor. E quanto maior a massa da estrela, mais quente ela tende a ser. A temperatura na superfície de estrelas com massa igual à do Sol é da ordem de 6.000 ºC, mas, em seu interior, esse valor atinge dezenas de milhões de graus Celsius.</p>
<p>Diante dos tamanhos desses distantes sóis, cuja luz viaja milhares de anos até chegar aos nossos olhos, nos lembramos do quanto somos pequenos comparados à imensidão do cosmos.</p>
<p>Mas nos congestionamentos de trânsito e nas filas de supermercados e bancos, pouco tempo nos sobra para refletirmos sobre esse complexo mundo que está a nossa volta. Precisamos incorporar um pouco mais a ciência ao nosso cotidiano, afinal, ela pode ser tão bela e fascinante quanto todos os fenômenos que explica.<br /><br /><strong>Adilson de Oliveira</strong><br />Departamento de Física<br />Universidade Federal de São Carlos</p>
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  </content:encoded>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Adilson de Oliveira</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Física</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-20T23:14:59Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/os-primeiros-tetrapodes">
  <title>Os primeiros tetrápodes</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/os-primeiros-tetrapodes</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>Descobertas da paleontologia que ganham destaque na imprensa estão geralmente vinculadas ao encontro e à descrição de novas formas de vida. Mas, desta vez, um trabalho que não propõe espécies novas despertou o interesse das pessoas, incluindo leitores desta coluna: achados de exemplares de tetrápodes (animais com os ossos das quatro patas bem diferenciados) que fornecem preciosas informações sobre a transição dos vertebrados da água para ambientes terrestres.<br /><br /></p>
<h3>Conquista da terra firme</h3>
<p>De uma forma simplificada, pesquisas apontam para a origem da vida no mar. Sim, os mares do passado eram certamente diferentes dos atuais em termos de composição, distribuição e correntes, mas o registro fossilífero demonstra que os primeiros organismos surgiram em corpos de água e, depois, conquistaram os ambientes terrestres.</p>
<div class="pullquote">Na história evolutiva dos vertebrados, essa transição do mar para a terra firme ainda está envolta em muito mistério</div>
<p>Na história evolutiva dos vertebrados, essa transição do mar para a terra firme ainda está envolta em muito mistério. Às vezes ocorrem achados especiais, como o <a title="A descoberta de um novo elo perdido" class="internal-link" href="/colunas/cacadores-de-fosseis/a-descoberta-de-um-novo-elo-perdido"><em>Tiktaalik roseae</em></a>, um peixe que já possuía diversas adaptações encontradas nos primeiros tetrápodes e que surpreendem os pesquisadores. Em outros casos, é um conjunto de novos dados – e fósseis – que trazem avanços para a pesquisa. Essa é a situação do trabalho realizado por Timothy Smithson (University Museum of Zoology Cambridge, Inglaterra) e colaboradores que foi publicado no mês passado na prestigiosa <a class="external-link" href="http://www.pnas.org/"><em>PNAS</em></a> – revista científica da Academia de Ciências dos Estados Unidos.</p>
<p>Devido a intensas buscas e coletas de fósseis, existe hoje ao redor do mundo uma quantidade expressiva de depósitos do Devoniano Médio a Superior (360-375 milhões de anos atrás) contendo tanto restos de tetrápodes como também de peixes, que seriam mais proximamente relacionados aos primeiros tetrápodes. No entanto, a vasta maioria dessas ocorrências é de animais aquáticos, cujo tamanho variava de um a dois metros de comprimento, com o crânio achatado e grande em relação ao seu corpo.</p>
<p>Já as formas tipicamente terrestres, ou seja, que podiam se locomover em terra firme, são encontradas em depósitos do Carbonífero (cerca de 330 milhões de anos atrás). Nesse período geológico, os tetrápodes já eram bastante diversificados, ocupando uma variedade relativamente grande de ambientes.</p>
<p>Esses animais tinham o crânio proporcionalmente menor e menos achatado do que as formas aquáticas, o que estaria relacionado ao desenvolvimento de uma respiração mais efetiva para o ambiente terrestre. E o tamanho de muitas dessas espécies é relativamente pequeno: 100 milímetros da ponta do focinha à cauda.</p>
<p>Mas, como e quando ocorreu essa transição da água para a terra firme?<br /><br /></p>
<h3>Teoria da atmosfera com pouco oxigênio</h3>
<p>Para responder essa pergunta, o que os paleontólogos precisavam era justamente de fósseis. No entanto, por algum motivo, estes não vinham sendo encontrados nas camadas de idade crucial para a conquista da terra firme, entre 330 e 360 milhões de anos.</p>
<p>Essa lacuna de informação já tinha sido registrada há bastante tempo pelo lendário paleontólogo Alfred Sherwood Romer (1894-1973), um dos principais especialistas em répteis fósseis. E apesar de ela ter sido reduzida por alguns achados realizados ao longo dos anos, os pesquisadores ainda não tinham respostas para essa ausência de tetrápodes terrestres nesse período de transição.</p>
<p>Uma das principais teorias levantadas para explicar essa falta de fósseis era de que eles simplesmente não existiam. Logo após a extinção ocorrida ao final do Devoniano (359 milhões de anos), a atmosfera teria sido muito pobre em oxigênio, o que impediria os tetrápodes primitivos, cujo sistema respiratório não era bem desenvolvido para um ambiente terrestre, de deixar a água.</p>
<p>Curiosamente, a falta de tetrápodes nesse intervalo de tempo também coincidia com a ausência de artrópodes (grupo de invertebrados que inclui, entre outros, insetos, aranhas e escorpiões), possível base da alimentação dos primeiros vertebrados terrestres.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/osprimeirostetrapodes02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/osprimeirostetrapodes02.jpg/image_preview" alt="Fósseis de artrópodes" title="Fósseis de artrópodes" height="183" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Fósseis de artrópodes de 348 milhões de anos procedentes da Escócia. Esses invertebrados possivelmente constituíam a base da alimentação dos primeiros tetrápodes terrestres. (foto: National Museums Scotland - NMS)</dd>
</dl>

<h3>Os novos achados</h3>
<p>Por meio de uma coleta de fósseis sistemática, Timothy e colegas conseguiram encontrar em quatro localidades da Escócia depósitos contendo restos de tetrápodes – tanto terrestres como aquáticos – cuja idade gira em torno de 348 milhões de anos. Essa descoberta diminuiu a lacuna do conhecimento sobre a evolução dos vertebrados em aproximadamente 15 milhões de anos.</p>
<p>De quebra, os pesquisadores ainda encontraram em três desses depósitos restos de artrópodes – ou seja, o possível alimento dessas primeiras formas de tetrápodes terrestres.</p>
<p>Esses achados contradizem a teoria de que os níveis de oxigênio na atmosfera terrestre eram particularmente baixos durante esse período.</p>
<p>Mas a pesquisa ainda se encontra no início. Certamente, conforme os autores comentam, existem muitas espécies diferentes no conjunto de mais de centenas de tetrápodes encontrados. E alguns deles ainda precisam ser preparados para revelar detalhes de sua anatomia, o que levará algum tempo.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/osprimeirostetrapodes03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/cacadores-de-fosseis/imagens/osprimeirostetrapodes03.jpg/image_preview" alt="Restos de tetrápodes" title="Restos de tetrápodes" height="258" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Restos de diversos tetrápodes foram encontrados em rochas de 348 milhões de anos na Escócia. Em A e B, pata de um tetrápode ainda não identificado que exibe morfologia bem típica de formas terrestres modernas. Em C, arcada inferior de um tetrápode terrestre primitivo. (foto: Smithson et al./ PNAS)</dd>
</dl>

<p>Um dos achados, por exemplo, é uma pata ainda não identificada que claramente demonstra uma forma muito parecida com os tetrápodes mais derivados. Isso sem contar os diversos crânios – uns mais completos do que outros – que demonstram pertencer a tetrápodes com aspecto geral moderno.</p>
<p>Ou seja: em breve teremos mais novidades sobre essas fases iniciais da conquista da terra firme pelos vertebrados.</p>
<p>Aproveito para agradecer aos leitores Francisco Mello e Keila Koiss pela sugestão de abordar essa descoberta.<br /><br /><strong>Alexander Kellner</strong><br />Museu Nacional/UFRJ<br />Academia Brasileira de Ciências<br /><br /></p>
<h3>Paleocurtas</h3>
<p><strong>As últimas do mundo da paleontologia</strong><br />(clique nos <em>links</em> sublinhados para mais detalhes)</p>
<table class="invisible">
<tbody>
<tr>
<td>
<p>Está sendo organizada em Montevidéu (Uruguai) a III Jornada do Cenozóico, que acontecerá nos dias 14 e 15 de junho de 2012. Sob os auspícios da Direção Nacional de Minas e Geologia do Uruguai – que comemora 100 anos –, o evento tem como objetivo congregar especialistas em distintas áreas, tais como sedimentologia, geomorfologia, hidrogeologia, recursos minerais, paleontologia e arqueologia. Mais informações na <a class="external-link" href="http://www.cenozoico.com">página do evento na internet</a>.</p>
</td>
<td>
<p>Os professores Thomas Fairchild e Marcello Simões anunciam o simpósio temático Paleoambientes e Paleontologia, que tem como objetivo principal reunir trabalhos de ponta dos diversos ramos da paleontologia com aplicação direta na caracterização de paleoambientes. O evento faz parte do 46º Congresso Brasileiro de Geologia, que será realizado de 30 de setembro a 5 de outubro de 2012 em Santos. Mais informações no <a class="external-link" href="http://www.46cbg.com.br"><em>site</em> do evento</a>.</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<p>Acaba de ser lançado o livro <em>Georges Cuvier: do estudo dos fósseis à paleontologia</em> pela <a class="external-link" href="http://www.editora34.com.br">Editora 34</a> e a <a class="external-link" href="http://www.scientiaestudia.org.br">Associação Filosófica Scientiae Studia</a>. Nessa obra, Frederico Felipe (Universidade Federal de Santa Catarina) discute a relação que o homem travou com os fósseis, desde a pré-história até o desenvolvimento da pesquisa paleontológica como disciplina científica, o que foi alcançado por meio dos trabalhos de Cuvier.</p>
</td>
<td>
<p>Um novo pterossauro acaba de ser descrito da China. <em>Guidraco venator</em> (em tradução livre: espírito maligno do dragão caçador) foi estudado por Xiaolin Wang (Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, Pequim) e colaboradores (incluindo o colunista) e tem parentesco com uma forma encontrada na Bacia do Araripe, Ceará. A importância da descoberta, que gera um paradoxo do ponto de vista da distribuição desses répteis alados, motivou a capa da <a class="external-link" href="http://www.springerlink.com/content/p4t8k67g2785/"><em>Naturwissenschaften</em></a>, uma das principais revistas científicas da Alemanha.</p>
</td>
</tr>
<tr>
<td>
<p>O <a class="external-link" href="http://www.tandfonline.com/loi/gich20">periódico <em>Ichnos</em></a> acaba de publicar um volume especial sobre pegadas encontradas na Coreia do Sul. Organizada por Martin Lockley (Universidade do Colorado, Denver, Estados Unidos) e pesquisadores sul-coreanos, a obra reúne uma série de artigos originais sobre as mais recentes descobertas realizadas no país, particularmente de aves fósseis, mais ricas em nível mundial.</p>
</td>
<td>
<p>Uma reconstrução em vida de <em>Titanoboa cerrojonensis</em>, cobra que viveu há 60 milhões de anos na Colômbia, encontra-se exposta no Grand Central Terminal em Nova Iorque (Estados Unidos) desde 23 de março deste ano. Com um tamanho estimado entre 12 e 15 metros, essa é a maior cobra já encontrada. Uma bela iniciativa para popularizar a paleontologia!</p>
</td>
</tr>
<tr class="odd">
<td>
<p>A exposição ‘Mundo Jurássico’ continua percorrendo diversas cidades do país. O sucesso é tamanho que agora são duas mostras, que foram inauguradas quase simultaneamente no mês passado no Shopping Vitória (Espírito Santo) e no Teresina Shopping (Piauí). Vale a pena conferir.</p>
</td>
<td>
<p>&nbsp;</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
]]>
  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Alexander Kellner</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Paleontologia</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-14T18:20:55Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/disciplina-com-sentido">
  <title>Disciplina com sentido</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/disciplina-com-sentido</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>A repercussão causada pela coluna do mês passado (<a title="Historiadores pra quê?" class="internal-link" href="/colunas/em-tempo/historiadores-pra-que">‘Historiadores pra quê?’</a>), sobre a formação de historiadores e os rumos da profissão no Brasil, comparada à situação aqui nos Estados Unidos, deu o que pensar. Que o tema é sensível a todos nós, não é novidade. Que é complexo – impossível dar conta de todos os aspectos em um texto para esta coluna –, também não. Sem pretender reproduzir novamente toda a discussão, não queria deixar de responder aos comentários postados no <em>site</em> e nas redes sociais.</p>
<p>Muitos mencionaram os baixos salários dos professores da educação básica como fator fundamental para que a maioria dos graduados preferisse a carreira acadêmica à escolar. Ninguém nega que os salários são mesmo baixos, muito diferentes dos de professores universitários (ao menos daqueles que trabalham na rede pública federal, ou estadual, em alguns casos). O valor dos salários e as poucas perspectivas de crescimento profissional tiram da sala de aula muita gente que adora escola. Eu sou uma delas. Mas reduzir o problema à questão do salário não me parece suficiente.</p>
<div class="pullquote">É crônica a necessidade de professores de física e 
química no ensino médio, mas nem por isso inexistem mestrados 
profissionais ligados ao ensino nessas áreas</div>
<p>Afinal, os salários de professores de matemática e ciências são iguais aos de professores de história. É crônica a necessidade de professores de disciplinas como física e química no ensino médio, mas nem por isso inexistem mestrados profissionais ligados ao ensino nessas áreas. Para dar aulas de história, ao contrário, apesar de todas as dificuldades, não faltam professores.</p>
<p>No concurso público para professor de história em Curitiba em 2007 havia 1.052 candidatos para 141 vagas; em Belo Horizonte, em concurso para professor da educação básica em 2010, a relação candidato-vaga em história foi de 38,02 (enquanto em língua portuguesa foi de 34,42 e em ciências e biologia, de 26,77). E continuamos sem mestrados profissionais na nossa área.</p>
<p>Recentemente, Carlos Fico, coordenador da área de história na Capes e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também mencionou o assunto em seu <a class="external-link" href="http://www.brasilrecente.com/2012/03/mestrado-e-atualizacao-profissional.html">blogue</a>. A continuar a expansão dos programas de pós-graduação, o momento para investimento no campo não poderia ser mais propício.</p>
<p>Mas, se a questão da formação e remuneração dos professores afeta os profissionais da educação básica como um todo, é inegável que, nessa discussão sobre o campo de atuação do profissional da história, existam questões específicas à nossa área. E era a elas que Anthony Grafton se referia, ao publicar a série de três artigos (o primeiro em conjunto com Jim Grossman) sobre o que chamou de “plano B” do campo de trabalho do historiador nos Estados Unidos.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/em-tempo/imagens/disciplinacomsentido02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/em-tempo/imagens/disciplinacomsentido02.jpg/image_preview" alt="Sala de aula" title="Sala de aula" height="286" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Nas salas de aula brasileiras, professores de ensino fundamental e médio lidam com um número cada vez maior de alunos para os quais a história é apenas mais uma disciplina sem sentido. (foto: Joseph Barillari/ Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)</dd>
</dl>

<p>É a isso também que se refere Guilherme Pereira das Neves no generoso <em>e-mail</em> que me enviou sobre a coluna. Professor da Universidade Federal Fluminense e coordenador da área de história na Capes entre 2005 e 2007, estudioso do assunto há tempos, Guilherme aprofundou não só os pontos que abordei, mas também a discussão desencadeada por Grafton, elencando os elementos que diferenciariam a situação vivida no Brasil daquela nos Estados Unidos.</p>
<p>Segundo ele, no Brasil, a conjugação de uma sociedade cuja população era majoritariamente analfabeta, as heranças patrimonialistas e os sistemas de poder autoritários teriam garantido para a história “um lugar completamente periférico e decorativo na construção do país”. Esse lugar, no entanto, não teria deixado a história de fora do processo de institucionalização da pós-graduação e da pesquisa no país, ocorrido com a criação respectivamente da Capes e do CNPq, em 1951.</p>
<p>As duas instituições, “por um certo ângulo, correspondiam às necessidades de um país em crescimento acelerado, num momento de intensas transformações tecnológicas e de agudas tensões políticas (...). A história (e suas congêneres) nunca constituíram, como tantas vezes reclamamos, prioridades de tais iniciativas, mas não pôde ser deixada de fora, não só porque era inviável descartar a noção ocidental predominante de um conhecimento humanístico amplo, como, sobretudo, porque seus praticantes estavam convencidos (ou percebiam as vantagens que daí advinham) de que a história era uma ciência, nem mais, nem menos, como disse J.B. Bury no final do século 19.” <br /><br /></p>
<h3>História como ciência</h3>
<p>É justamente na definição da história como ciência que Guilherme Pereira das Neves centra seu principal ponto de reflexão. Conjugada à produção de mestres e doutores em massa, todos com prazo pré-definido para concluir suas dissertações e teses, e à produção em massa de artigos, livros e capítulos de livro, a aquisição de uma cultura histórica passou a ser menos importante do que ganhar mais pontos para seus programas de pós-graduação.</p>
<div class="pullquote">A aquisição de uma cultura histórica passou a ser menos importante do 
que ganhar mais pontos para programas de pós-graduação</div>
<p>Em suas palavras: "Para mim, um dos elementos decisivos para que isso tenha ocorrido (ou esteja ocorrendo) resulta da atitude dos próprios historiadores diante da história. Considerá-la uma ciência ‘não mais, nem menos’ significa colocá-la no mesmo plano de qualquer outra disciplina com um campo definido e uma metodologia específica. Significa ignorar que, no mundo contemporâneo, que se desfaz das travas da tradição e que perde os referenciais eternos fornecidos sobretudo pela religião, a vida coletiva precisa ser discutida, pensada, argumentada. E, nessa discussão, os argumentos são de natureza sobretudo histórica. Portanto, desfazer-se do plano B, como propõem Grafton e Grossman, não corresponde apenas à aquisição da consciência das múltiplas possibilidades de emprego que o conhecimento histórico proporciona, muito além da via ápia constituída pela segura posição de professor universitário efetivo. Corresponde igualmente a um questionamento da relação que os historiadores estabeleceram com a história, do lugar que a história ocupa na sociedade e, ainda, do que a sociedade pretende para si mesma. (...)”</p>
<p>“No entanto, enquanto no Brasil a universidade continuar a produzir uma história ensimesmada, insípida como água destilada de laboratório – porque se acredita científica –, e o grande público (se é que ele existe além da tela de TV) acreditar que a história é permanente reencenação (...), não haverá nem plano B e nem mesmo plano A. Haverá apenas, de um lado, os privilegiados professores do ensino superior público – embora tiranizados por regras cada vez mais estritas, destinadas a promover interesses e vantagens estranhas ao conhecimento – e, do outro, os marginalizados professores das escolas estaduais e municipais, tentando lidar com um número cada vez maior de alunos para os quais história constitui apenas o nome de mais uma disciplina sem sentido."</p>
<p>Como transformar a história em uma disciplina com sentido – para professores universitários, pós-graduandos, professores das escolas de ensino fundamental e médio, alunos, e sobretudo, para a sociedade – talvez seja, esse sim, nosso maior desafio. <br /><br /><strong>Keila Grinberg</strong><br />Departamento de História, <br />Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro<br />Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)</p>
]]>
  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Keila Grinberg</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Educação</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>História</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-13T19:05:25Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/para-divulgar-ciencia-e-suas-tendencias">
  <title>Para divulgar ciência e suas tendências</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/para-divulgar-ciencia-e-suas-tendencias</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>O conhecimento, qualquer que seja sua natureza, avança pela divulgação de ideias inéditas. Isso não é importante apenas do ponto de vista prático, por causa de interesses comerciais (patentes) ou para garantir a paternidade de uma descoberta científica. A divulgação de ideias inéditas tem grande efeito psicológico, tanto para aqueles que as produzem quanto para quem as divulga.</p>
<p>Os jornalistas, que, muitas vezes, são responsáveis por esse processo de divulgação de novas ideias, têm até uma expressão própria para designar a publicação de uma notícia em primeira mão: ‘furo’. ‘Furar’ os concorrentes tem quase o mesmo significado para jornalistas e cientistas.</p>
<p>Um trabalho científico sem uma boa componente inédita dificilmente é aceito pelas principais revistas do ramo. Já na popularização científica, não há esse rigor quanto ao ineditismo da informação.</p>
<div class="pullquote">Se o ineditismo do tema não é uma exigência prioritária na popularização científica, talvez sua abordagem deva ser ao menos original</div>
<p>Revistas como a <em>Science</em> e a <em>Nature</em>, por exemplo, enviam a jornalistas cadastrados no mundo todo os resumos dos artigos que serão publicados na semana seguinte – mediante acordo de que nada será divulgado antes do prazo preestabelecido – para que eles tenham tempo de preparar eventuais matérias. E embora saibam que vários veículos de diversos países publicarão as mesmas notícias ao mesmo tempo, os jornalistas se pautam pela relevância dos temas e não deixam de divulgá-los.</p>
<p>Se o ineditismo do tema não é uma exigência prioritária, talvez sua abordagem deva ser ao menos original. É sempre agradável quando um texto de divulgação científica apresenta um tema bem conhecido sob uma ótica que foge ao lugar-comum. Essa fuga do lugar-comum constitui um componente de originalidade de textos de popularização científica.</p>
<p>A originalidade desses textos também pode surgir ao se destacar antecipadamente tendências de inovação tecnológica. O escopo da coluna ‘Do laboratório para a fábrica’ possibilita esse tipo de divulgação. Um relato dessa experiência será apresentado por este colunista na <a class="external-link" href="http://www.pcst2012.org/">12ª Conferência Internacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia</a>, que será realizada de 18 a 20 de abril na Itália.<br /><br /></p>
<h3>Ciência por trás da inovação</h3>
<p>O principal objetivo da coluna é discutir a ciência que está por trás de inovações tecnológicas consolidadas ou não. Ou seja, a ideia é mostrar como o conhecimento produzido em universidades e centros de pesquisa chega ou pode chegar à linha de produção das indústrias.</p>
<p>Os temas selecionados mensalmente resultam de prospecção na literatura científica e tecnológica especializada (principalmente as revistas <em>Nature</em> e <em>Science</em>), bem como em meios de divulgação de novidades da ciência e tecnologia (principalmente o <a class="external-link" href="http://physicsworld.com/"><em>PhysicsWorld</em></a>).</p>
<p>Ficamos muito satisfeitos quando selecionamos um tema que se encontra na ordem do dia. A partir dele, buscamos elaborar um texto que atinja o grande público. Ou seja, procuramos transformar um material estruturado sobre uma base conceitual complexa em uma história que pode ser lida e compreendida sem a necessidade de conhecimento prévio desses conceitos básicos.</p>
<p>Por exemplo: fundamentos do magnetismo foram discutidos em vários textos. Alguns deles tratam de aplicações tecnológicas desse fenômeno na medicina, como <a title="Magnetismo, farmacologia e medicina" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/magnetismo-farmacologia-e-medicina">‘Magnetismo, farmacologia e medicina’</a>, <a title="Nanopartículas que salvam vidas" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/nanoparticulas-que-salvam-vidas">‘Nanopartículas que salvam vidas’</a> e <a title="Histerese magnética: perdas e ganhos" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/histerese-magnetica-perdas-e-ganhos">‘Histerese magnética: perdas e ganhos’</a>. Outros voltam-se para aplicações na indústria eletrônica, como <a title="Um sonho prestes a se realizar" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/um-sonho-prestes-a-se-realizar">‘Um sonho prestes a se realizar’</a>, <a title="De Lord Kelvin a Fert e Grünberg" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/de-lord-kelvin-a-fert-e-grunberg">‘De Lord Kelvin a Fert e Grünberg’</a>, <a title="Um metal polivalente" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/um-metal-polivalente">‘Um metal polivalente’</a>, <a title="Memórias magnéticas a caminho da indústria" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/memorias-magneticas-a-caminho-da-industria">‘Memórias magnéticas a caminho da indústria’</a> e <a title="O nome errado para o produto certo" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/o-nome-errado-para-o-produto-certo">‘O nome errado para o produto certo’</a>.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/imagens/paradivulgar02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/imagens/paradivulgar02.jpg/image_preview" alt="Aplicações do magnetismo" title="Aplicações do magnetismo" height="371" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">O principal objetivo da coluna é mostrar a ciência por trás das inovações. Os fundamentos do magnetismo, por exemplo, já foram discutidos em vários textos que trataram de aplicações tecnológicas desse fenômeno na medicina e na indústria eletrônica. (montagem: Thaís Fernandes)</dd>
</dl>

<p>Esses textos obedecem a um padrão caracterizado pela exposição de inovações tecnológicas pouco conhecidas pelo grande público, mas bem documentadas na literatura especializada. Mas há também casos em que conseguimos perceber – por intuição ou sorte – tendências na área da inovação tecnológica e abordar esses temas ‘quentes’ antes mesmo que eles ganhem maior projeção. <br /><br /></p>
<h3>Apostas bem-sucedidas</h3>
<p>A <a title="A longa caminhada do papel eletrônico" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/a-longa-caminhada-do-papel-eletronico">coluna de março de 2009</a> é um bom exemplo disso. Nada de animador foi encontrado na prospecção feita no mês anterior. Falava-se muito nos lançamentos de livros eletrônicos e seus leitores, mas a literatura especializada dava pouca cobertura ao tema. Entre 2000 e 2008, a <em>Science</em> publicou um único artigo sobre o assunto – <a class="external-link" href="http://www.sciencemag.org/content/308/5723/785.short">‘Electronic paper: a revolution about to unflod?’</a> –, em 2005, e a <em>Nature</em> publicou um artigo em 2003 (<a class="external-link" href="http://www.nature.com/nature/journal/v425/n6956/abs/nature01988.html">‘Video-speed electronic paper based on electrowetting’</a>) e outro em 2004 (<a class="external-link" href="http://www.nature.com/nature/journal/v428/n6980/abs/nature02389.html">‘High-mobility ultrathin semiconducting films prepared by spin coating’</a>).</p>
<p>A <a class="external-link" href="http://ip-science.thomsonreuters.com/pt/produtos/wos/"><em>Web of Science</em></a>, grande banco de dados sobre estudos científicos, registra para esse período 628 trabalhos sobre o tema, com uma distribuição anual de cerca de 50 trabalhos até 2004. Em 2005, esse número saltou para 70 artigos. Depois, cresceu progressivamente até atingir 145 trabalhos em 2008.</p>
<p>Concluímos, então, que deveríamos abordar o assunto e publicamos a coluna <a title="A longa caminhada do papel eletrônico" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/a-longa-caminhada-do-papel-eletronico">‘A longa caminhada do papel eletrônico’</a> em 27 de março de 2009. Coincidentemente, no dia primeiro de abril, a <em>Nature</em> publicou dois textos sobre o mesmo tema – <a class="external-link" href="http://www.nature.com/news/2009/090401/full/news.2009.202.html">‘Bendy displays to Market’</a> e <a class="external-link" href="http://www.nature.com/news/2009/090401/full/458568a.html">‘The textbook of the future’</a> –, uma confirmação de que estávamos no caminho certo.</p>
<p>Outro caso em que a coluna registrou uma tendência de impacto foi o do grafeno. O tema nos despertou interesse depois de uma <a class="external-link" href="http://sciencewatch.com/ana/st/graphene/09febSTGraNovo/">entrevista com o físico russo-britânico Konstantin Novoselov publicada na <em>Science Watch</em> </a>em fevereiro de 2009. Uma rápida busca na <em>Web of Science</em> nos mostrou que o número de artigos publicados anualmente sobre grafeno cresceu lentamente de 2000 a 2005. Em 2006, houve um crescimento de 73% em relação a 2005 e, em 2007, o número foi mais do que o dobro em relação a 2006. Em 2008, o aumento foi de 80% em relação a 2007.</p>
<div class="pullquote">De olho nas tendências que despontam no campo 
da ciência, é possível levar conhecimento científico de ponta ao grande 
público</div>
<p>Essa evolução, que evidencia o grande interesse despertado pelo tema na literatura especializada, está relacionada à publicação de um <a class="external-link" href="http://www.sciencemag.org/content/306/5696/666.abstract?sid=b0ffecb8-c1ac-4c15-814f-a52d1aff5823">artigo em 2004 na <em>Science</em></a> em que Andre Geim e Konstantin Novoselov descrevem como conseguiram isolar o grafeno.</p>
<p>Em 27 de fevereiro de 2009, publicamos a coluna <a title="Uma história de sorte e sagacidade" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/uma-historia-de-sorte-e-sagacidade">‘Uma história de sorte e sagacidade’</a>, que descreve como o material foi descoberto por Andre Geim, Konstanti Novoselov e colaboradores e discute algumas de suas propriedades. As pesquisas tecnológicas em torno desse material, relatadas nos meses seguintes na literatura especializada, nos motivaram a publicar, em 25 de junho de 2010, a coluna <a title="Promessas tecnológicas do grafeno" class="internal-link" href="/colunas/do-laboratorio-para-a-fabrica/promessas-tecnologicas-do-grafeno">‘Promessas tecnológicas do grafeno’</a>. Em outubro daquele ano, Geim e Novoselov ganharam o Nobel.</p>
<p>De olho nas tendências – nem sempre evidentes – que despontam no campo da ciência, é possível levar conhecimento científico de ponta ao grande público. Com essa postura, aliada ao esforço de tornar temas complexos inteligíveis aos leitores não especializados, procuramos contribuir para a melhoria da cultura científica da população.<br /><br /><strong>Carlos Alberto dos Santos</strong><br />Professor-visitante sênior da Universidade Federal da Integração Latino-americana</p>
]]>
  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Carlos Alberto dos Santos</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Divulgação científica</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Inovação</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Física</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-06T19:25:51Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/o-sangue-que-nos-faz">
  <title>O sangue que nos faz?</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/o-sangue-que-nos-faz</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>Um dos valores mais arraigados de nossa cultura é o da consanguinidade, ou seja, o da descendência ou parentesco pelo ‘sangue’. Embora hoje recoberta pela ideia dos genes, fenômeno recente, essa representação ancora a pessoa humana na base naturalista de nossa visão de mundo: somos feitos da matéria combinada de nossos pais e mães; eles, de seus respectivos pais e mães, e assim até o primeiro casal de <em>Homo sapiens</em>.</p>
<p>&nbsp;Efetivamente, como todos os mamíferos superiores, somos sexualmente diferenciados, dependemos de uma reprodução sexuada, e o desamparo original dos infantes humanos exige um longo suporte coletivo quase universalmente oferecido por um pequeno círculo doméstico.</p>
<p>Esses dados biológicos de base são, porém, matéria de uma das mais complexas elaborações simbólicas da humanidade: os sistemas de parentesco. Não há sociedade que não tenha se dedicado a definir rigorosamente as regras dos casamentos possíveis e proibidos de seus membros – a chamada ‘proibição do incesto’.&nbsp;</p>
<div class="pullquote">Não há sociedade que não tenha se dedicado a definir rigorosamente as 
regras dos casamentos possíveis e proibidos de seus membros</div>
<p>O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss ofereceu uma das mais poderosas interpretações dessas regras ao enunciar o seu ‘princípio de aliança’. Segundo ele, a entrada humana em seu estado de cultura é marcada pela necessidade e ordenação da troca social: a de bens, a de palavras e a de mulheres.</p>
<p>Ao lado da economia e da linguagem, as regras de parentesco instituem a humanidade e suas variações produzem a especificidade de cada sistema simbólico. Sem a troca, não haveria sociedade. Sem as complexas tramas do parentesco – a que estão associadas todas as demais dimensões da vida social –, não haveria uma ordem simbólica, uma cultura.</p>
<p>O princípio da aliança depende da distinção entre doadores e receptores, ou seja, entre o grupo de que se considera membro qualquer sujeito humano e um grupo outro, contrastivo, capaz de garantir a alteridade necessária à operação.</p>
<p>A maior parte das regras de parentesco elabora a dinâmica entre o idêntico e o diferente a partir da oposição entre os parentes paralelos e os cruzados. Paralelos são os parentes descendentes dos germanos (irmãos e irmãs) de mesmo sexo dos pais; cruzados, o oposto.</p>
<p>Os filhos do irmão do pai ou da irmã da mãe são os paralelos, considerados idênticos ao tal sujeito – chamado em antropologia de ‘ego’. Os filhos da irmã do pai ou do irmão da mãe são os cruzados e constituem uma linhagem outra, na qual o ‘ego’ poderá buscar sua cônjuge.</p>
<p>A cultura ocidental privilegiou um sistema chamado de bilateral, porque considera parentes tanto os paralelos quanto os cruzados. Sua proibição de incesto independe da direção do cruzamento de parentes, e a escolha dos cônjuges obedece a um princípio estatístico e não prescritivo. Consideramos consanguíneos todos os parentes pelo lado do pai e da mãe e a afinidade se restringe aos parentes da esposa (ou esposo, evidentemente), encontrados provavelmente nos termos da ‘ideologia do amor’.</p>
<p>Essa é uma das ancoragens históricas para nossa representação dos vínculos de sangue. Um pouco de um lado, outro pouco do outro, e estamos engatados em uma árvore genealógica frondosa, com galhos idênticos de ambos os lados. <br /><br /></p>
<h3>Do casamento para o indivíduo</h3>
<p>As tramas do parentesco são, porém, muito mais complexas do que apenas a regulação da procriação. Elas lidam com os fatos da procriação, mas os envolvem em redes de significado muito elaboradas, carregadas de tensões e conflitos, e muito estranhas aos nossos olhos.</p>
<p>Há sociedades poligâmicas e poliândricas (uma esposa para vários maridos); há sociedades que praticam o infanticídio generalizado, com adoção de filhos de uma casta escrava; há sociedades que praticam a reprodução incestuosa sistemática em suas casas reais; há sociedades em que casamentos homossexuais das elites se combinam com a adoção de descendentes oficiais nascidos na plebe; há sociedades em que o primeiro filho de uma mulher deve ser gerado por um amante cuja identidade deverá permanecer secreta para o filho; e assim indefinidamente.</p>
<p>Nós não consideramos estranhos, no entanto, os nossos próprios costumes, que tendem a desvalorizar as adoções, por exemplo, e que levam muita gente a despender rios de dinheiro e torrentes de lágrimas para conseguir levar a cabo uma reprodução assistida (inseminação artificial, barriga de aluguel etc.) que lhes garantirá um herdeiro ‘de sangue’.&nbsp;</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/sanguequenosfaz02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/sentidos-do-mundo/imagens/sanguequenosfaz02.jpg/image_preview" alt="Inseminação artificial" title="Inseminação artificial" height="281" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">A supervalorização do parentesco 'pelo sangue' leva muita gente a despender rios de dinheiro e torrentes de lágrimas para conseguir levar a cabo uma reprodução assistida que lhes garantirá um herdeiro 'legítimo'. (imagem: Wellcome Images/ CC BY-NC-ND 2.0)</dd>
</dl>

<p>Acabo de participar da banca examinadora de <a class="external-link" href="http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/107849/sentidos-paternidade-pais-desconhecidos-exame">uma tese sobre processos de investigação de paternidade</a>, baseada em sujeitos que haviam sido registrados sem o nome do pai e que buscavam, por diversos meios, obtê-lo. Desde meios pessoais, contatos cuidadosos com os supostos pais ou com suas famílias, até processos judiciais com exames oficiais de DNA, no limite da luta.</p>
<p>Essas pessoas relatam um longo calvário de insegurança e ansiedade, à luz da ilegitimidade do ‘filho natural’ ou ‘bastardo’. Sabrina Finamori, autora da tese, desenhou a etnografia dessas carreiras de busca identitária contra o pano de fundo da história da legislação sobre reconhecimento de paternidade no Brasil, profundamente alterada com o surgimento de recursos técnicos considerados como irretorquíveis.</p>
<p>As técnicas passadas – que incluíam comparação fisionômica, medidas antropométricas, análise dos tipos sanguíneos – foram contemporâneas de uma legislação que visava sobretudo proteger a instituição do casamento, heterossexual, monogâmico e indissolúvel. Expelia para os limites da sociedade os bastardos, nascidos de relações incestuosas, avulsas ou adúlteras.</p>
<p>A legislação contemporânea vem se desenvolvendo na direção da proteção crescente dos indivíduos – e não do casamento. Assim, não só é agora possível o reconhecimento de paternidade independentemente da condição conjugal do genitor, como há iniciativas do Estado de promoção do reconhecimento em todas as situações que forem do seu conhecimento – como no projeto ‘Pai legal na escola’, criado pelo Ministério Público em 2002.<br /><br /></p>
<h3>Supervalorização ‘de sangue’</h3>
<p>Já que valorizamos tão fundamente o conhecimento sobre os nossos ‘verdadeiros’ pais, essas iniciativas são possivelmente bem-vindas, contribuindo para a minoração de sofrimentos e constrangimentos, sobretudo nas classes populares.&nbsp;</p>
<div class="pullquote">Os passos recentes da legislação nacional reforçam a ideologia da substancialidade consanguínea</div>
<p>Por outro lado, não se pode deixar de registrar – como o fez Finamori – que esses passos da legislação nacional reforçam a ideologia da substancialidade consanguínea, em contraposição à abertura a novas formas de conjugalidade e de reprodução que se avolumam em nosso horizonte.</p>
<p>Mas de tais contradições se faz também o nosso sistema de parentesco, tão intrincado, complexo e ‘naturalizado’ quanto o da mais remota sociedade tribal. Não basta obedecer ao mandamento da troca, é preciso fazê-lo de acordo com certos protocolos. <br /><br /><strong>Luiz Fernando Dias Duarte<br /></strong>Museu Nacional<br />Universidade Federal do Rio de Janeiro<br /><br /></p>
<div class="bloco-centralizado"><strong>Sugestões para leitura</strong> <br />Dumont, Louis. <em>Introduction à deux théories d'anthropologie sociale. Groupes de filiation et alliance de mariage</em>. Paris: Mouton, 1971. <br /><br />Finamori, Sabrina. ‘<a class="external-link" href="http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/107849/sentidos-paternidade-pais-desconhecidos-exame/">Os sentidos da paternidade: dos ‘pais desconhecidos</a>’ ao exame de DNA’. Tese de doutorado em Antropologia Social, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2012. <br /><br />Fonseca, Claudia. ‘<a class="external-link" href="http://www.google.com.br/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;ved=0CCcQFjAA&amp;url=http%3A%2F%2Ffiles.claudialwfonseca.webnode.com.br%2F200000019-e1357e1b31%2FA%2520vingan%25C3%25A7a%2520de%2520Capitu%2520-%2520DNA%2C%2520escolha%2520e%2520destino%2520na%2520fam%25C3%25ADlia%2520brasileira%2520contempor%25C3%25A2nea%2C%25202002.pdf&amp;ei=QP99T_3VK8G2twfvzoyxDg&amp;usg=AFQjCNEJjPiUxRHDPmXzyRF4XwEkAv3WQQ">A vingança de Capitú: DNA, escolha e destino na família brasileira contemporânea</a>’. In Bruschini, Cristina; Unbehaum, Sandra. <em>Gênero, Democracia e Sociedade Brasileira</em>, São Paulo: Editora 3, 2002. <br /><br />Heilborn, Maria Luiza; Aquino, Estela M. L.; Bozon, Michel; Knauth, Daniela R. <em>O Aprendizado da Sexualidade. Reprodução e trajetórias sociais de jovens brasileiros</em>. Rio de Janeiro: Garamond/Fiocruz, 2006. <br /><br />Lévi-Strauss, Claude. <em>As Estruturas Elementares do Parentesco</em>. Petrópolis: Vozes, 1976. <br /><br />Luna, Naara. ‘<a class="external-link" href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-59702005000200009&amp;lng=en&amp;nrm=iso&amp;tlng=pt">Natureza humana criada em laboratório: biologização e genetização do parentesco nas novas tecnologias reprodutivas</a>’. <em>História, Ciência, Saúde - Manguinhos</em>, n.12, pp. 395-417, 2005.</div>
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  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Luiz Fernando Dias Duarte</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Antropologia</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-04-06T14:35:42Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/censurar-dicionarios">
  <title>Censurar dicionários?</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/censurar-dicionarios</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>Discutiu-se um pouco, nas últimas semanas, sobre dicionários. Mais exatamente, foram tornadas claras algumas características e funções dessas obras. Todos os que se pronunciaram reafirmaram verdades óbvias. É de esperar que a maioria das pessoas tenha uma ideia clara sobre o que seja um dicionário.</p>
<p>O que levou às recentes manifestações foi uma inusitada ação do Ministério Público, acionado por um cidadão que considerou que dicionários ofendem grupos (etnias etc.) ao registrarem acepções negativas de certas palavras. Concretamente, houve uma ação do MP contra o <em>Dicionário Houaiss</em>, por registrar acepções de “cigano” consideradas ofensivas (“aquele que trapaceia, velhaco, burlador”).</p>
<p>Pode-se ver melhor o caso na versão on-line do referido dicionário, até porque as acepções consideradas ofensivas tinham sido retiradas do ar, em decorrência da ação ou de sua divulgação. Mas, pouco tempo depois, foram repostas, com uma explicação sobre a origem daquelas acepções (talvez em decorrência das manifestações contra a ação): “Uso: as acepções 5 e 6 resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba por basear-se em ideias errôneas e preconcebidas sobre as características deste povo que no passado levava uma existência nômade”.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/palavreado/imagens/dicionarios02b.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/imagens/dicionarios02b.jpg/image_preview" alt="Verbete 'cigano'" title="Verbete 'cigano'" height="225" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Após ação do Ministério Público, o verbete 'cigano' ganhou no 'Dicionário Houaiss' uma explicação sobre a origem de acepções da palavra consideradas negativas. (imagem: reprodução)</dd>
</dl>

<p>Algumas coisas já poderiam estar claras nesta altura da história. Uma delas é que cada obra tem uma função diferente nas sociedades. Jornais informam e opinam, romances e filmes contam histórias seguindo determinadas técnicas, catálogos registram objetos (os de pássaros registram pássaros, os de flores, flores). Mapas registram dados geográficos, coletâneas de piadas registram piadas, e as de provérbios, provérbios. Algumas não deveriam existir? Pode ser. Mas não faz sentido deixar de registrar ‘fatos’ em decorrência de uma avaliação negativa deles (como deixar de registrar o <em>impeachment</em> de Collor em uma exposição das atividades no Senado?!).</p>
<p>Dicionários são catálogos de palavras. Registram sua grafia ou grafias, sua história e seus sentidos. Quase todas as palavras têm diversos sentidos ou usos (o <em>Houaiss</em> registra 57 acepções de “ponto” e 15 de “doce”, por exemplo). Se o dicionário é bem feito, se resulta de boa pesquisa, incluirá as acepções das palavras e assinalará também o efeito ou a origem de certos usos: se as palavras ou os sentidos e usos são populares ou eruditos, se são técnicos, se conotam preconceitos etc.</p>
<p>Existem dicionários de gíria, de palavrões, de regionalismos, de economia, de psicanálise, de arte, de sociologia, de sonhos... O que se espera de um bom dicionário de cada uma dessas especialidades é que registre o máximo de palavras e de seus usos e sentidos em cada campo, exatamente como de um catálogo de animais ou de plantas se espera o melhor e mais minucioso registro da fauna e da flora. <br /><br /></p>
<h3>Ato ou efeito de registrar</h3>
<p>Diversas manifestações bastante óbvias na mídia tentaram fazer com que o representante do MP entendesse que o dicionário é apenas um registro mais ou menos completo. Dicionário não inventa palavras, não inventa os sentidos das palavras, não incentiva uso de palavras em sentidos desabonadores. Mas também não condena palavras nem sentidos.</p>
<div class="pullquote">Dicionário não inventa palavras, não inventa os sentidos das palavras, 
não incentiva uso de palavras em sentidos desabonadores</div>
<p>Dicionário não ensina. Não manda falar. Não sugere que se ofenda algum grupo. O que não quer dizer que seja ‘neutro’, elaborado por marcianos ou anjos sem interesse ideológico. Tomará decisões, como outras publicações nas áreas da economia, da política, da história, da ecologia, da religião. O melhor combate a um dicionário que tenha problemas é outro dicionário que não os tenha, assim como o remédio para um livro ‘inclinado’ de história é outro livro de história que não seja inclinado ou que seja inclinado para outro lado.</p>
<p>Para ficar num exemplo mais neutro: bons dicionários registram diversas acepções de “namorar” e fornecem também uma informação gramatical, baseada no uso: que sua regência é direta e indireta (namorar <strong>o</strong> filho do vizinho, namorar <strong>com </strong>a filha do prefeito). Os exemplos aduzidos mostram também que a regência é sempre direta quando “namorar” tem o sentido de ‘demonstrar interesse episódico’ (namorar <strong>a</strong> bolsa, o carro, nunca <strong>com</strong> um carro ou <strong>com</strong> uma bolsa).</p>
<p>Há dicionários de ‘ajuda’, como os analógicos (bons para quem quer incrementar o léxico em seus textos), assim como há catálogos de plantas medicinais (espera-se que saibam o que dizem!). <br /><br /></p>
<h3>Liberdade de expressão? Ah?</h3>
<p>A ação do MP baseou-se em decisão judicial segundo a qual "o direito à liberdade de expressão não pode <strong>albergar</strong> posturas preconceituosas e discriminatórias, sobretudo quando caracterizadas como infração penal" (fui ao dicionário para ver os sentidos registrados de “albergar”...).</p>
<p>Mas não ocorre a nenhum dicionarista imaginar que o registro de palavras ou sentidos seja uma atividade relacionada à questão da liberdade de expressão ou com “albergar” posições preconceituosas. Recorro de novo às comparações: registrar um animal nocivo não implica apoiar que ele mate; registrar uma planta carnívora não implica combatê-la em tempos de defesa da alimentação vegetariana; estudar cânceres não implica ser favorável ao aumento do número de casos dessas doenças.</p>
<p>Assim, a censura a um dicionário não é medida adequada para combater preconceitos. Dicionaristas não enunciam, não proferem, não assumem, não se comprometem com o que registram. Registram que determinado objeto existe e que tem certas origens e conotações. Foi a sociedade, durante sua história, que produziu e manteve vivas as palavras e seus sentidos.</p>
<div class="pullquote">Foi a sociedade, durante sua história, que produziu e manteve vivas as palavras e seus sentidos</div>
<p>Eventualmente, o combate ao uso de certas palavras, especialmente em contextos que implicam agressão, injúria, preconceito etc. é defensável e até elogiável. Mas combater empregos efetivos em contextos específicos é completamente diferente de combater o registro desses comportamentos.</p>
<p>Pedir que a edição seja recolhida ou modificada é equivalente a pedir a retirada de animais de catálogos da fauna, ou que livros de anatomia suprimam órgãos ou partes do corpo que pareçam ofensivos (intestino grosso, pênis, cordas vocais etc., conforme o gosto do leitor). A atitude lembra estranhas regras: denunciado um crime, pune-se o repórter ou o jornal. É tirar o sofá da sala...&nbsp;</p>
<p>Se o MP acha que deve agir em questões de ofensa à honra e em casos semelhantes, que processe, por exemplo, quem chama de cigano aos velhacos. Aliás, para fundamentar sua ação, o MP vai precisar de um dicionário em que a acepção injuriosa esteja registrada e avaliada como negativa. Sem ela, vai se basear em quê? <br /><br /><strong>Sírio Possenti<br /></strong>Departamento de Linguística<br />Universidade Estadual de Campinas</p>
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  </content:encoded>
aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Sírio Possenti</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Cultura</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Linguística</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-03-23T18:16:35Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/geoengenharia-delirio-ou-salvacao">
  <title>Geoengenharia: delírio ou salvação?</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/geoengenharia-delirio-ou-salvacao</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>Problemas globais exigem soluções globais. Enquanto as previsões climáticas para o futuro próximo vão ficando cada vez mais pessimistas e as temperaturas vão rompendo sucessivos recordes – tanto para cima como para baixo –, mas com temperatura média em alta, a possibilidade de algum acordo internacional para a redução das emissões de gases de efeito estufa parece cada vez mais remota. Afinal, mudar cadeias produtivas requer imaginação, tecnologia e recursos para investimento.</p>
<p>Os recursos andam ariscos em tempos de crise econômica global. Há tecnologia, mas não o bastante: acordamos tarde do sonho do planeta sem limites e ainda estamos engatinhando na busca por alternativas energéticas menos suicidas e fedorentas do que as atuais.</p>
<div class="pullquote">Acordamos tarde do sonho do planeta sem limites e ainda estamos 
engatinhando na busca por alternativas energéticas menos suicidas</div>
<p>Diante de tal quadro, resta a imaginação. Em <em>A verdade inconveniente</em>, documentário norte-americano de 2006 sobre a campanha do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore para alertar a população sobre o aquecimento global, há uma animação feita pela equipe da série <em>Futurama</em> (do mesmo criador de <em>Os Simpsons</em>) em que um tecnocrata sugere usar helicópteros para jogar grandes blocos de gelo no mar e, assim, resfriá-lo. Obviamente, seria uma sandice, já que a produção e o transporte do gelo gerariam muito mais calor do que o gelo seria capaz de remover do oceano. A termodinâmica é mesmo impiedosa.</p>
<p>Mas não devemos subestimar a imaginação e a capacidade da espécie que inventou a linguagem, a cultura, a religião e o dinheiro, sem esquecer a agricultura, o zíper, os antibióticos, o automóvel e... o desperdício. Afinal, se conseguimos fazer o canal do Panamá e criar e controlar doenças, não é um aquecimentozinho global que vai nos intimidar, certo?</p>
<p>E assim surgem propostas de engenharia a serem aplicadas em escala comparável à do problema: é a geoengenharia. São propostas no mínimo surpreendentes, como a colocação em órbita de megaespelhos refletores para reduzir a incidência de raios solares na superfície terrestre. Ou a instalação de espelhos do gênero em áreas desérticas e em oceanos: isso geraria menos carbono do que colocar megabarracas de praia em órbita.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/terra-em-transe/imagens/geoengenharia02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/imagens/geoengenharia02.jpg/image_preview" alt="Sol e Terra" title="Sol e Terra" height="355" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Uma das propostas para conter o aquecimento global é a colocação em órbita de megaespelhos refletores para reduzir a incidência de raios solares na superfície terrestre. (foto: Nasa)</dd>
</dl>

<p>Também se cogita o uso de aviões, balões e barcos para semear na atmosfera substâncias que favoreçam a formação de nuvens. E a aspersão dos oceanos com ferro para estimular o crescimento do fitoplâncton, fixando assim muitas gigatoneladas de carbono. E aguardem novos lançamentos em breve.<br /><br /><strong>Alto custo, eficiência duvidosa</strong></p>
<p>As propostas têm em comum elevados custos financeiros, sociais e ambientais, além de eficiência para lá de duvidosa. Mais do que isso, são joias do mesmo pensamento linear e da arrogância que nos trouxeram à beira do atual precipício. O problema é o Sol? Façamos sombra. É o carbono? Domemos os oceanos, colocando-os a nosso serviço, e assim por diante.</p>
<div class="pullquote">As propostas têm em comum elevados custos financeiros, sociais e ambientais, além de eficiência para lá de duvidosa</div>
<p>Se conseguimos alterar o clima da Terra (sem falar de sua paisagem) e colocar em xeque o sistema que inventamos foi porque resolvemos manipular o planeta antes de entender minimamente seu funcionamento. Nesse sentido, essas propostas de geoengenharia são emblemáticas, já que não temos a menor ideia do que acontecerá se as colocarmos em prática, a não ser o gasto líquido e certo de grande quantidade de recursos cada vez mais escassos, além da geração de mais carbono.</p>
<p>Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), investimentos não desprezíveis têm sido feitos em pesquisas sobre o tema, para reduzir as incertezas que rondam essas ambiciosas soluções. O governo inglês, por exemplo, destinava até 2009 cerca de 30 milhões de reais por ano para pesquisas na área. A Royal Society (instituição inglesa dedicada à promoção do conhecimento científico) achou que se deveria gastar 10 vezes mais.</p>
<p>Recentemente, Bill Gates, fundador da Microsoft, doou 10 milhões de dólares a um fundo para pesquisa e inovação em clima e energia. Nos dois últimos anos, os pedidos de financiamento ao governo dos Estados Unidos para pesquisas sobre o tema somaram 3,4 bilhões de dólares, dos quais se aprovou um vigésimo apenas.</p>
<p>Ora, direis, em comparação com os chutados 30 bilhões de reais da represa de Belo Monte ou de nosso ainda hipotético trem-bala: tudo isso junto ainda é merreca. E é mesmo. Mas a situação pode mudar, e muito. Não se empolgue, pois as citadas obras não ficarão mais baratas, o montante dos investimentos em geoengenharia é que pode aumentar bastante.<br /><br /><strong>Captação de CO<sub>2</sub></strong><sub></sub><strong>: opção viável?</strong></p>
<p>No entanto, há uma solução para a redução das emissões de carbono que, além de menos mirabolante do que as supracitadas, já é operacional. Trata-se da captação de CO<sub>2</sub> na fonte. Em uma termoelétrica a gás ou carvão, por exemplo, isso implica primeiro remover compostos de enxofre, nitrogênio e outras impurezas dos gases de combustão. Em seguida, os gases já mais asseadinhos são resfriados para diminuírem de volume e injetados em um reator onde o CO<sub>2</sub> se combina com amônia também resfriada. Os gases agora livres de CO<sub>2</sub> são então lavados e expelidos por uma chaminé.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/terra-em-transe/imagens/geoengenharia03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/imagens/geoengenharia03.jpg/image_preview" alt="Central Termoelétrica do Pego" title="Central Termoelétrica do Pego" height="267" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Central Termoelétrica do Pego, em Portugal. Uma solução operacional para a redução das emissões de carbono é a captação de gás carbônico na fonte, por exemplo, em termoelétricas a gás ou carvão. (foto: Flickr/ ChromaticOrb – CC BY-NC-ND 2.0)</dd>
</dl>

<p>Aquecendo-se a solução de amônia, esta libera o CO<sub>2</sub> e, após resfriamento, pode ser reutilizada. Por sua vez, o CO<sub>2</sub> liberado é comprimido até se tornar líquido. Mas onde guardaremos tantos botijões? E quando haverá uma opção compacta dessa parafernália para carros flex 1.0?</p>
<p>De novo não se empolgue: a solução por enquanto só serve para grandes fontes fixas de emissão. Fico curioso em relação ao consumo de água, energia e emissão de carbono associados a essa forma tão laboriosa de... captar carbono, mas essa aritmética fica para outra vez. Por enquanto, vamos à questão dos botijões.</p>
<p>Botijões, que botijões? Não haverá, tivemos ideia melhor: megabotijões naturais – e, portanto, gratuitos –, ou seja, estocagem geológica em rochas do subsolo, ou melhor ainda, injeção em poços de petróleo desativados. Não é genial? Do poço viestes, ao poço voltarás. Aleluia! Estamos salvos.</p>
<p>Mas.... Um momento. Se eu entendi direito, a mesma cadeia produtiva do petróleo que inferniza sua concorrente nuclear há décadas, brandindo sob o nariz desta a suposta insegurança da estocagem geológica de rejeitos <strong>sólidos</strong>, insolúveis, vitrificados, cimentados, encapsulados e cuja toxicidade tem prazo determinado, quer agora nos convencer que é seguro fazer o mesmo com um <strong>gás</strong> que é um poluente eterno, quando não consegue nem mesmo evitar o vazamento de um <strong>líquido</strong>? E tudo isso para evitar mudar hábitos perdulários?</p>
<p>Depois de <em>Futurama</em>, resta-nos lembrar de Hardy, a hiena do desenho da Hanna-Barbera: Ó Deus, ó vida, ó lugar, isso não vai dar certo.<br /><strong><br />Jean Remy Davée Guimarães</strong><br />Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho<br />Universidade Federal do Rio de Janeiro</p>
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  </content:encoded>
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  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Jean Remy Davée Guimarães</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Energia</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Engenharia</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Meio ambiente</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>Mudança climática</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-03-16T20:51:21Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
 </item>


 <item rdf:about="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/a-construcao-do-conhecimento-fisico">
  <title>A construção do conhecimento físico</title>
  <link>http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/a-construcao-do-conhecimento-fisico</link>

  


  <content:encoded>
    <![CDATA[
<p>A ciência é uma maneira de entender o mundo a nossa volta. Contudo, não é a única. As religiões, as artes, a filosofia, entre outras, são alternativas que também constroem uma visão específica sobre a natureza e de como o ser humano está inserido nela. Mas elas são muito diferentes da ciência.</p>
<p>A característica principal do pensamento científico é que as suas afirmativas, proposições e teorias não são absolutas, mas sempre relativas. Os modelos científicos devem sempre ser confirmados, seja por experimentos ou observações que deem sustentação aos postulados e às ideias dos cientistas.</p>
<div class="pullquote">A característica principal do pensamento científico é que as suas 
afirmativas, proposições e teorias não são absolutas, mas sempre 
relativas</div>
<p>Dentre os diversos ramos da ciência, a física, com a sua visão peculiar, é a que entende os fenômenos físicos na sua forma mais fundamental. As suas teorias são capazes de explicar situações que vão da escala atômica até o universo como um todo.</p>
<p>Além disso, as teorias físicas são válidas também ao longo do tempo. Ao observar as galáxias que estão muito distantes, há milhões de anos-luz (um ano-luz corresponde à distância que um raio de luz percorre durante um ano e equivale aproximadamente a 10 trilhões de quilômetros), não as vemos como elas estão nesse exato momento, mas sim como eram quando a luz partiu delas e viajou por milhões de anos, até chegar a nós.</p>
<p>Quando observamos o céu, estamos olhando para o passado. Ao analisar o espectro eletromagnético das estrelas de uma galáxia, identificamos os elementos químicos da mesma maneira que o fazemos aqui na Terra. Os resultados mostram que as leis físicas funcionam da mesma forma aqui e lá. De fato, os modelos físicos, até agora, funcionam da mesma maneira em qualquer lugar no espaço e no tempo. <br /><br /></p>
<h3>Grandes rupturas</h3>
<p>Os avanços das ideias ocorrem continuamente na física. A cada semana, milhares de artigos são publicados nas revistas científicas, apresentando novos resultados experimentais e modelos teóricos para explicar fenômenos físicos ou ainda propondo novos que não foram descobertos ou observados. Cabe aos físicos, muitas vezes, imaginar uma forma de comprovar ou refutar as teorias propostas.</p>
<p>Entretanto, em determinados momentos, surgem descobertas ou aparecem novas ideias que podem revolucionar a física. Segundo o filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996), uma revolução científica acontece quando existe uma mudança de paradigma, ou seja, um determinado modelo ou conjunto de teorias se mostra esgotado para explicar novos resultados.</p>
<dl class="image-inline captioned image-inline">
<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/conhecimentonafisica02.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/conhecimentonafisica02.jpg/image_preview" alt="pato-coelho" title="pato-coelho" height="267" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Thomas Kuhn usou a ilusão de ótica do pato-coelho para demonstrar a maneira pela qual uma mudança de paradigma pode fazer uma pessoa ver a mesma informação de uma forma totalmente diferente. (imagem: Wikimedia Commons)</dd>
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<p>Uma dessas revoluções aconteceu no começo do século passado, quando o físico Albert Einstein (1879-1955) apresentou a sua teoria da relatividade. Essa teoria, já discutida em outras ocasiões nesta coluna, apresentou uma maneira diferente de entender os fenômenos físicos.</p>
<p>Na época, Einstein estava preocupado com a incompatibilidade que existia entre a chamada mecânica clássica, que foi desenvolvida primeiramente por Isaac Newton (1642-1727), e a teoria eletromagnética, consolidada pelo físico escocês James Clerk Maxwell (1831-1879).</p>
<p>A primeira descreve os movimentos dos corpos. A segunda explica o comportamento dos campos elétricos e magnéticos, mostrando que a luz é uma manifestação desses campos. Contudo, a abordagem das duas teorias simultaneamente se mostrava incompatível, embora os resultados experimentais da época confirmavam as previsões de ambas.</p>
<p>Einstein propôs, então, uma mudança de modelo, ou seja, introduziu novas ideias que permitiram remover as incompatibilidades existentes entre as duas teorias. Ele propôs que as leis físicas são válidas para todos os referenciais inerciais (referenciais que estão em repouso ou se movimentando com velocidade constante) e que a velocidade da luz é constante, independente do referencial do observador.</p>
<div class="pullquote">A teoria da relatividade foi tão bem-sucedida que milhares de experimentos verificaram as suas previsões</div>
<p>Em consequência desses dois postulados, os conceitos de espaço e tempo tiveram que ser alterados e estabeleceu-se uma velocidade limite para o universo: a velocidade da luz.</p>
<p>A teoria da relatividade foi tão bem-sucedida que milhares de experimentos verificaram as suas previsões. Mesmo os resultados recentes do experimento Opera (<a title="Quem está correto, Dr. Einstein?" class="internal-link" href="/colunas/fisica-sem-misterio/quem-esta-correto-dr.-einstein">comentando em outra coluna</a>), que supostamente detectaram neutrinos viajando mais rápido que a luz, foram contestados devido a possíveis falhas nos equipamentos.</p>
<p>No entanto, mesmo se os resultados forem de fato confirmados, os postulados de Einstein não serão completamente descartados, mas deverão, sim, ser modificados, da mesma forma que o físico modificou os postulados da mecânica clássica.<br /><br /></p>
<h3>Entre validações e refutações</h3>
<p>Atualmente, muitos estudos estão sendo realizados para testar os limites das teorias correntes. Entre eles destacam-se os experimentos que vêm ocorrendo no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), construído com o objetivo de encontrar partículas fundamentais da matéria que somente podem ser observadas em condições muito extremas – de altas densidades de energia.</p>
<p>O grande objetivo do LHC é encontrar o famoso bóson de Higgs. Essa partícula, prevista teoricamente na década de 1960 pelo físico britânico Peter Higgs, ainda não tem confirmação experimental. A sua descoberta validaria por completo o chamado Modelo Padrão, que explica o comportamento das partículas subatômicas.</p>
<p>A detecção do bóson de Higgs comprovaria a existência de um campo invisível que, de acordo com o Modelo Padrão, estaria presente em todo o espaço. O campo de Higgs explicaria a forma como a matéria obteve massa após o Big Bang. Explicando de onde vem a massa de todas as partículas, poderemos finalmente compreender o porquê da existência das estruturas do nosso universo, das estrelas, dos planetas e dos seres vivos.</p>
<p>Mais recentemente, cientistas do FermiLab, o laboratório de física de altas energias mais importante dos Estados Unidos, relataram a observação de resultados que seriam indicação da presença da misteriosa partícula, mas eles ainda não são definitivos e necessitam de confirmação.&nbsp;</p>
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<dt><a rel="lightbox" href="/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/conhecimentonafisica03.jpg"><img src="http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/fisica-sem-misterio/imagens/conhecimentonafisica03.jpg/image_preview" alt="Fermilab, EUA" title="Fermilab, EUA" height="260" width="400" /></a></dt>
 <dd class="image-caption" style="width:400px">Anéis aceleradores do Fermilab, laboratório de física de altas energias dos EUA. Recentemente, pesquisadores da instituição detectaram indícios da presença do bóson de Higgs, uma das partículas mais procuradas. (foto: Reidar Hahn/ Fermilab)</dd>
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<p>Por mais atraente e charmosa que essa ideia possa ser, se os experimentos mostrarem que tal partícula não existe, o Modelo Padrão deverá ser reformulado. Uma nova teoria terá que surgir. E essa nova teoria deverá abranger todos os resultados que o atual Modelo Padrão explica, como as interações fundamentais entre as partículas elementares.</p>
<p>Esse processo de validação e refutação de teorias é que garante que a física, e a ciência em geral, avance. Diferentemente de outras formas de conhecimento, como a religião, em ciência, nenhuma verdade é absoluta ou definitiva; todas são relativas e podem sempre ser revistas.</p>
<p>Einstein, que é o aniversariante da semana, ficaria certamente feliz com os resultados que ainda confirmam e validam suas ideias. Mas também, muito provavelmente, ficaria excitado com um novo desafio a enfrentar. <br />&nbsp;<br /><strong>Adilson de Oliveira<br /></strong>Departamento de Física<br />Universidade Federal de São Carlos</p>
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aa
  <dc:publisher>No publisher</dc:publisher>
  <dc:creator>Adilson de Oliveira</dc:creator>
  <dc:rights></dc:rights>
  
   <dc:subject>Física</dc:subject>
  
  
   <dc:subject>História da Ciência</dc:subject>
  
  <dc:date>2012-03-16T17:11:14Z</dc:date>
  <dc:type>Notícia</dc:type>
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