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Um dinossauro de 230 milhões de anos

Estudo de uma nova espécie primitiva encontrada na Argentina demonstra que a evolução e o sucesso desses répteis na dominação do planeta não estão ligados à extinção de outros vertebrados, como se supunha até então. A descoberta é tema da coluna de Alexander Kellner.

Por: Alexander Kellner

Publicado em 14/01/2011 | Atualizado em 14/01/2011

Um dinossauro de 230 milhões de anos

Reconstrução da cabeça de ‘Eodromaeus murphy’ em vida. O animal exibe características dos estágios evolutivos mais primitivos do grupo dos terópodes, que inclui os dinossauros carnívoros. (foto: Mike Hettwer)

Uma nova página sobre a evolução dos dinossauros acaba de ser aberta com a descrição de uma espécie que viveu em uma época próxima à origem do grupo. A fera, descrita na revista Science, foi batizada de Eodromaeus murphy, que, em tradução livre, significa “o corredor do alvorecer”. O nome é uma referência ao fato de esse dinossauro ser primitivo e é também uma homenagem a J. Murphy, militante do grupo Earthwatch e descobridor do fóssil mais completo dessa espécie, que reúne, inclusive, seu crânio.

A nova espécie

Segundo Ricardo Martinez, do Instituto e Museu de Ciências Naturais da Universidade de San Juan (Argentina), e colaboradores, Eodromaeus murphy é conhecido a partir de meia dúzia de exemplares, todos incompletos, encontrados em diferentes camadas formadas entre 232 e 229 milhões de anos atrás.

O local é o famoso Valle de la Luna, na incrivelmente bela área do parque de Ischigualasto, situado na região norte de San Juan, na Argentina. Há mais de 50 anos, pesquisas e coletas sistemáticas são realizadas nesse parque, revelando como era o ambiente e a fauna quando os primeiros dinossauros surgiram na face do planeta.

Valle de la Luna
Cordilheiras e desfiladeiros se estendem ao longo do ‘Valle de la Luna’, no parque de Ischigualasto (Argentina), onde foram encontrados os exemplares do novo dinossauro. (foto: Ricardo Martinez)

Eodromaeus murphy era um animal pequeno, com menos de dois metros de comprimento desde a ponta do focinho ao final da cauda. Seu crânio era relativamente baixo e tinha amplas aberturas entre os ossos, o que o tornava bastante leve. O número de dentes era reduzido: em torno de 30 na arcada superior – bem menos do que outros dinossauros primitivos. Os dentes eram compridos, curvados para traz e tinham serrilhas – características típicas dos dinossauros carnívoros.

Além disso, o novo dinossauro era um animal bípede, ou seja, caminhava nas patas traseiras, podendo utilizar as patas dianteiras para agarrar ou derrubar presas. Sim, tudo indica que o Eodromaeus murphy, apesar do seu tamanho relativamente pequeno, teria sido um predador eficiente.

Reconstrução do esqueleto de Eodromaeus murphy
Reconstrução do esqueleto quase completo de ‘Eodromaeus murphy’, que, segundo os pesquisadores, era um predador eficiente de pequenos animais. (foto: Mike Hettwer)

Mas isso não é tudo o que o estudo dos colegas liderados por Ricardo Martinez revelou...

Outros dinossauros primitivos

Para que se consiga estabelecer se um achado representa ou não uma espécie nova e, sobretudo, para tentar entender o grau de parentesco entre as espécies – não apenas no caso dos dinossauros –, os pesquisadores obrigatoriamente realizam comparações detalhadas com formas já conhecidas.

Muitas vezes, durante esse trabalho, novas e importantes descobertas são realizadas. Foi exatamente isso o que ocorreu nesse caso.

Ao comparar Eodromaeus murphy com Eoraptor lunensis – outro importante dinossauro que havia sido descoberto em 1993 na mesma região de Ischigualasto –, os cientistas identificaram muitas diferenças, sobretudo no formato da cabeça e nos dentes.

Réplica do crânio de ‘Eodromaeus murphy’
Réplica do crânio de ‘Eodromaeus murphy’, em que é possível observar os dentes compridos e curvados para traz – características típicas dos dinossauros carnívoros. (foto: Mike Hettwer)

Eoraptor tem um crânio bem mais alto e uma narina bem maior. Essas feições são típicas de outro grupo de dinossauros: os sauropodomorfos, que são formas predominantemente herbívoras. Ou seja, o Eoraptor, originalmente considerado um representante dos dinossauros carnívoros no grupo dos terópodes, acaba de ser reclassificado para um grupo de herbívoros (Sauropodomorpha).

Mas isso não é tudo sobre esse estudo. O melhor ainda estava por vir...

Evolução dos dinossauros: oportunismo?

Dentre as discussões que cercam os dinossauros, um dos pontos mais polêmicos está vinculado à explicação para o sucesso do grupo. Por que os dinossauros, quando surgiram em algum momento do Triássico, há mais de 230 milhões de anos, passaram a dominar a superfície do nosso planeta?

A explicação mais aceita era o oportunismo – ou sorte, como querem alguns. A ideia é baseada na percepção de que os dinossauros somente se estabeleceram de forma dominante depois que outros répteis foram extintos.

Ou seja: mudanças no planeta (clima etc.) levaram à extinção de formas como os rincossauros (répteis herbívoros) e os dicinodontes (parentes distantes dos mamíferos que lembravam hipopótamos) e de grandes predadores como o Prestosuchus, deixando o caminho livre para os dinossauros. Esses “répteis terríveis” teriam, então, ocupado os nichos deixados vazios e, assim, se expandido para todo o planeta.

Para surpresa geral, os cientistas descobriram que os dinossauros eram relativamente mais comuns há 230 milhões de anos do que se supunha

Ricardo Martinez e colegas puderam estabelecer uma melhor definição da idade das diferentes camadas encontradas em Ischigualasto. Assim, eles conseguiram determinar, com precisão maior, quais espécies diferentes viviam juntamente com os dinossauros – incluindo o Eodromaeus.

Para surpresa geral, os cientistas descobriram que os dinossauros eram relativamente mais comuns há 230 milhões de anos do que se supunha. E mais: a diversidade desse grupo de répteis naquele tempo era igual à encontrada mais tarde, em torno de 215 a 220 milhões de anos, quando esses animais passaram a dominar o planeta.

Durante esses 10 a 15 milhões de anos, outros grupos de répteis se extinguiram sem que isso aumentasse a diversidade de dinossauros. Logo, pelo que se pode observar em Ischigualasto, não houve uma substituição de imediato das formas que iam se extinguindo (como os rincossauros, por exemplo) pelos dinos...

Pesquisas futuras

Muitas vezes a pesquisa pode ser frustrante, já que nem sempre uma hipótese inicial é confirmada por estudos posteriores. Isso ocorre em todas as áreas, não apenas na paleontologia.

Avanços como esses alcançados pela equipe de Ricardo Martinez nos fazem pensar e reanalisar dados antigos

Mas, devido à natureza do registro fóssil – bem mais raro do que gostariam os pesquisadores –, avanços como esses alcançados pela equipe de Ricardo Martinez nos fazem pensar e reanalisar dados antigos, para melhor explicar as observações que podemos fazer.

Estudos no nosso próprio país, por exemplo, no Rio Grande do Sul, poderiam ajudar a entender esse momento tão fascinante da história do nosso planeta, quando ocorreu o surgimento dos dinossauros.

Por isso, mãos à obra!

Assista a um vídeo que mostra o processo de reconstrução do novo dinossauro em vida

(vídeo: Sereno Fossil Lab)


Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências


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Alexander Kelnner

A coluna Caçadores de fósseis é publicada na segunda sexta-feira do mês. Ela é mantida desde dezembro de 2004 pelo paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus textos discutem novidades da pesquisa de fósseis. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação do colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para alexander.kellner@gmail.com


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