Ferramentas Pessoais
a a a
Colunas / Caçadores de fósseis

Qual a cor do réptil marinho?

Com auxílio de técnicas sofisticadas, pesquisadores determinaram a cor predominante de três espécies de répteis marinhos fósseis. Esse trabalho, tema da coluna de Alexander Kellner, abre perspectivas para a definição das cores de organismos extintos.

Por: Alexander Kellner

Publicado em 10/01/2014 | Atualizado em 10/01/2014

Qual a cor do réptil marinho?

Pigmentos fósseis revelam a coloração de répteis marinhos extintos. A tartaruga-de-couro (alto) e o mosassauro (abaixo) apresentam uma parte escura e outra clara, enquanto o ictiossauro (centro) é uniformemente escuro. (imagens: Stefan Sølberg)

“Como você sabe qual era a cor de um animal extinto?” Eis uma pergunta corriqueira feita a todo paleontólogo em palestras sobre fósseis. A resposta, embora algo frustrante, está na ponta da língua: “Não sabemos ao certo.” Mas, talvez muito em breve, essa indagação poderá ser respondida de forma bem diferente.

Um grupo de pesquisadores liderados por Johan Lindgren, da Universidade de Lund, na Suécia, acaba de encontrar evidências da coloração de três espécies de répteis marinhos extintos: uma tartaruga-de-couro, um ictiossauro e um mosassauro. Todos tinham cor predominantemente escura ou até mesmo negra. O estudo, que acaba de ser destaque na revista Nature, apresenta diversas novas possibilidades de se estabelecer a coloração em fósseis.

Importância das cores

Quando perguntamos sobre as possíveis tonalidades de organismos extintos, não demonstramos apenas simples curiosidade. Como mostram muitos estudos, nas espécies atuais as cores têm grande variedade de funções e implicações evolutivas. As mais óbvias estão relacionadas ao acasalamento, quando a coloração pode chamar atenção do sexo oposto, ou a questões relativas à camuflagem, quando o conjunto de cores faz com que o animal não se destaque de seu meio, tornando-se de certo modo invisível a seus predadores ou suas presas. Funções mais complexas vão da proteção contra raios solares à regulação da temperatura corporal.

Na maioria das vezes, a coloração de um organismo extinto permanece no campo da especulação

Embora relativamente raros, há relatos de casos em que a preservação de fósseis dá uma noção de sua cor original. Um bom exemplo são as penas encontradas em depósitos mundo afora, até mesmo no Brasil, que exibem alternância de áreas claras e escuras. A única explicação plausível para esses casos é que estamos diante da variação da cor original do animal quando vivo. Mas, na maioria das vezes, a coloração de um organismo extinto permanece no campo da especulação.

Algo comum em três fósseis distintos

Johan Lindgren e sua equipe decidiram estudar o assunto mais a fundo e analisaram três espécimes de répteis marinhos nos quais havia preservação do tecido mole que revestia o corpo do animal.

Fósseis de répteis extintos
Pele de uma tartaruga-de-couro (à esquerda), escamas de um mosassauro (centro) e extremidade da nadadeira de um ictiossauro (à direita), encontrados em camadas do solo de 55, 85 e 196-190 milhões de anos, respectivamente. (imagens: Bo Pagh Schultz, Johan Lindgren e Johan A. Gren, respectivamente)

O mais antigo dos exemplares é parte de um ictiossauro encontrado em rochas cuja idade varia de 196 a 190 milhões de anos. Esses répteis marinhos lembram, de forma superficial, os golfinhos (mamíferos) e são tidos como animais que podiam nadar em águas profundas. À primeira vista, o exemplar não parecia grande coisa, mas na região da cauda foi encontrada uma substância escura, algo que já havia sido reportado em outros ictiossauros.

Bem mais impressionante era o segundo exemplar, um mosassauro, grupo de lagartos extintos bem adaptados à vida no mar. Além de estar relativamente completo, representando um animal com cerca de 11 m, esse fóssil, procedente de depósitos formados há aproximadamente 86 milhões de anos, possui um conjunto de escamas muito bem preservado com uma superfície escura, algo pouco comum para os restos desses lagartos marinhos.

Apesar do consenso de que a substância escura encontrada nos três exemplares deveria indicar a presença de tecido mole, havia dúvidas quanto à sua composição

O exemplar da tartaruga-de-couro, encontrado em camadas de 55 milhões de anos, também é completo e inclui porções da coluna vertebral e do crânio. Como os demais, ele também exibia uma substância escura entre os ossos.

Apesar do consenso de que a substância escura encontrada nos três exemplares deveria indicar a presença de tecido mole – que, ao contrário do que ocorre, não foi totalmente decomposto durante o processo de fossilização –, havia dúvidas a respeito de sua composição.

Duas interpretações

Vale salientar que alguns outros fósseis também exibem esse mesmo tipo de substância, identificada muitas vezes como uma camada fina (‘filme’) carbonizada relacionada com o revestimento externo do corpo do animal. Vista ao microscópio eletrônico de varredura, a substância revela a presença de estruturas alongadas ou esféricas, que foram interpretadas de duas maneiras bem distintas.

Alguns pesquisadores acreditavam que se tratava de resquícios de bactérias, enquanto outros a viam como restos de melanossomas. Os melanossomas são organelas presentes no melanócito, célula produtora do pigmento (melanina) responsável pela coloração escura da pele. Elucidar qual dessas interpretações discrepantes estaria correta era um grande desafio para os cientistas.

Lindgren e colaboradores removeram pequenas partes da substância escura dos três exemplares estudados e as analisaram ao microscópio eletrônico de varredura. Paralelamente, conseguiram, empregando técnicas avançadas de espectrometria de massa, estabelecer sua composição, que era muito parecida com a dos melanossomas encontrados no couro de uma espécie viva da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) e bem distinta da de bactérias.

Fóssil de tartaruga-de-couro extinta
Fóssil de uma tartaruga-de-couro extinta. A ponta da seta indica estruturas de amostras da pele. (imagem: Lindgren et. al., 2014/ Nature)

Os cientistas concluíram então que as estruturas presentes nos fósseis estudados eram melanossomas ou algo equivalente. Como os melanossomas estão relacionados com a produção de melanina, que confere cor escura à pele ou ao couro de animais recentes, inferiram que os três répteis marinhos estudados tinham uma coloração predominantemente escura, possivelmente até mesmo negra.

Vantagens

Uma vez que essas espécies de répteis representam grupos totalmente distintos do ponto de vista evolutivo (mosassauros, tartarugas e ictiossauros não são parentes próximos), conclui-se obrigatoriamente que a coloração escura se desenvolveu de forma independente nos três. Como se trata de formas descendentes de animais que viveram em terra firme e secundariamente desenvolveram hábitos aquáticos, a presença de um corpo totalmente escuro deveria ter-lhes proporcionado alguma vantagem.

Os cientistas inferiram que os três répteis marinhos estudados tinham uma coloração predominantemente escura, possivelmente até mesmo negra

Mesmo diante da dificuldade de comprovar essa tese, um possível benefício poderia estar relacionado à maior absorção de calor, o que conferiria ao animal capacidade de se aquecer mais rapidamente e controlar melhor a temperatura de seu corpo. A vantagem imediata seria ficar mais independente da temperatura ambiente do que possíveis competidores e poder locomover-se por áreas mais extensas. As tartarugas-de-couro atuais corroboram essa hipótese, uma vez que se distribuem por uma ampla área, chegando mesmo a ser vistas paradas rente à superfície do mar, como se estivessem ‘pegando sol’ para aquecer o corpo.

Embora as reais vantagens da coloração escura do corpo desses répteis ainda não sejam bem compreendidas, o estudo de Lindgren e colaboradores abre, com o emprego de tecnologia sofisticada na pesquisa dos fósseis, novas perspectivas para o estabelecimento da cor de organismos extintos. Encaixa-se assim mais uma importante peça no complexo quebra-cabeça que é evolução e a diversificação da vida em nosso planeta.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

Paleocurtas

As últimas do mundo da paleontologia
(clique nos links sublinhados para mais detalhes)

Ações do documento
blog comments powered by Disqus
novobannerch.jpg  

pchael
Conheça o colunista

Alexander Kelnner

A coluna Caçadores de fósseis é publicada na segunda sexta-feira do mês. Ela é mantida desde dezembro de 2004 pelo paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus textos discutem novidades da pesquisa de fósseis. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação do colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para alexander.kellner@gmail.com


RSS

RSS gif

Seja notificado sempre que for publicada uma nova coluna de Alexander Kellner. Saiba mais sobre RSS.