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Colunas / Caçadores de fósseis

Os morcegos e suas asas

Associação de informações moleculares e de fósseis traz novas conclusões sobre evolução do grupo

Por: Alexander Kellner

Publicado em 02/06/2006 | Atualizado em 18/12/2009

O desenho mostra o braço de um ser humano e a asa de um morcego, com os ossos dos dígitos em escuro (KELLNER, A.W.A. 2006. Pterossauros - os senhores do céu do Brasil. Vieira&Lent;, Rio de Janeiro, 176p. ISBN 858878228-6).
.

Poucos sabem, mas os morcegos (Chiroptera) são um dos grupos mais diversificados de mamíferos presentes nos dias de hoje, com aproximadamente 900 formas distintas. Para se ter uma idéia, em termos de diversidade, eles perdem apenas para os roedores: de cada cinco espécies de ‘animais com pêlos e mamas’, uma é de morcego. Mesmo assim, quando se trata da origem e do desenvolvimento do grupo, existem muitas perguntas sem resposta. Uma delas é como se desenvolveu a asa desses vertebrados voadores, uma adaptação fundamental para o seu sucesso.

Em linhas gerais, a asa do morcego é formada principalmente por três dígitos ou dedos (o terceiro, o quarto e o quinto), que dão suporte a um tecido – a membrana alar –, empregada no vôo. Tentando solucionar o problema da evolução das asas dos morcegos, pesquisadores norte-americanos liderados por Karen Sears, da Universidade do Colorado em Denver (EUA), realizaram estudo multidisciplinar inédito, associando dados anatômicos e morfométricos a dados moleculares. Eles chegaram a alguns resultados interessantes, publicados na revista PNAS  do mês passado.

O estudo comparou medidas dos ossos das asas de morcegos recentes com as de Icaronycteris index (acima), espécie mais antiga que se conhece, com cerca de 50 milhões de anos. (Foto: American Museum of Natural History )

Sears e colaboradores usaram em seu estudo o morcego mais antigo que se conhece, Icaronycteris index , que foi encontrado em depósitos com aproximadamente 50 milhões de anos (Paleoceno Superior) em Wyoming, nos Estados Unidos. Os pesquisadores mediram todos os ossos das asas, particularmente dos três dígitos que suportam a membrana alar. A partir de uma análise morfométrica, em que esses dados foram comparados com medidas de espécies recentes, os pesquisadores chegaram à conclusão de que não houve mudança significativa no tamanho dos ossos da asa de Icaronycteris em relação ao tamanho de seu corpo. Resumindo: de 50 milhões de anos até hoje, o tamanho relativo dos ossos da asa dos morcegos não se alterou. Um tanto inesperado, esse resultado indica que não existem formas intermediárias – ou elos perdidos – preservados no registro fóssil que mostrem as mudanças anatômicas que levaram ao desenvolvimento das asas dos morcegos.

Devido a essa falta de um ‘proto-morcego’, os pesquisadores procuraram entender um pouco mais o que acontece no desenvolvimento embrionário dos mamíferos voadores. Para isso, eles fizeram comparações do desenvolvimento embrionário da mão da espécie Mus musculus , um roedor, e de Carollia perspicillata , um morcego frugívoro (que se alimenta de frutos) bastante comum. O resultado dessa comparação indicou que os dígitos do morcego e do roedor são muito parecidos nos estágios iniciais do desenvolvimento embriológico. No entanto, em um certo momento, os dígitos do morcego começam a crescer rapidamente. Ao que tudo indica, uma determinada proteína (Bmp2) seria responsável por esse fato.

Os resultados apresentados sugerem que o desenvolvimento das asas dos morcegos, que acontece com o alongamento dos dedos que sustentam a membrana alar, ocorreu em poucos milhões de anos – o que, do ponto de vista do tempo geológico, pode ser considerado bem rápido.

Esse tipo de estudo é bastante interessante, uma vez que procura conciliar dados distintos, como embriologia e anatomia, fósseis e animais recentes. Aliás, há um grande aumento de interesse pela pesquisa de morcegos fósseis, que se refletiu na realização em 2005 de um workshop exclusivamente dedicado a esses mamíferos voadores durante o II Congresso Latino-americano de Paleontologia de Vertebrados. O maior problema dessa área passa pela falta de material fóssil: geralmente o que se encontra são pedaços e dentes isolados desses animais voadores.

Trabalho de campo realizado por pesquisadores brasileiros e argentinos a cerca de 50 km da cidade Paso del Sapo,em Chubut, Patagônia (Foto: Leonardo Avilla).

Falando em fósseis de morcegos, o mais rico depósito está em Messel, na Alemanha. Situado entre as cidades de Frankfurt e Darmstadt, Messel foi salvo de virar um aterro de lixo graças a um movimento da comunidade científica alemã. Suas rochas de aproximadamente 49-48 milhões de anos possuem grande quantidade de organismos muito bem preservados, incluindo centenas de exemplares de morcegos. Até agora foram reconhecidas seis espécies distintas, como Archaeonycteris trigonodon e Hassianycteris messelensis

. E o mais surpreendente é que alguns exemplares apresentam parte da membrana da asa e o conteúdo estomacal preservados.

 

Na América do Sul, assim como no restante do mundo, existem poucas localidades com morcegos fósseis. O registro mais antigo do continente foi encontrado há poucos anos, em uma região chamada Laguna Fría, a aproximadamente 50 quilômetros da cidade Paso del Sapo, no estado de Chubut, na Argentina. A idade das rochas é de cerca de 58,6 a 52 milhões de anos, o que faz deste um dos registros mais antigos do mundo. Infelizmente os restos são bem fragmentados e se limitam a dentes e partes incompletas de ossos obtidos quando os sedimentos são peneirados .

 

O Brasil também possui morcegos fósseis. A grande maioria foi encontrada em grutas e cavernas e pertence a espécies relacionadas a formas recentes. A única exceção é Mormopterus faustoi , encontrado em rochas (folhelhos) formadas em um lago há 28-24 milhões de anos, onde hoje fica a região de Tremembé, interior de São Paulo. O exemplar é formado por esqueleto quase completo, que, apesar de não ser vistoso, possui grande importância científica pelo seu ineditismo. Infelizmente apenas um único exemplar de Mormopterus faustoi

foi encontrado nessa região, que é muito rica em peixes. Possivelmente esse animal se alimentava de insetos caçados sobre a copa das árvores.

 

O morcego fóssil mais antigo do Brasil (à esquerda), com cerca de 28-24 milhões de anos, é Mormopterus faustoi , encontrado na Bacia de Tremembé, em São Paulo. À direita, forma recente de morcego ( Molossus rufus ) do grupo Molossidae, o mesmo de  M. faustoi.

 

Voltando ao estudo da evolução dos morcegos – que passa pelo desenvolvimento de suas asas –, vamos aguardar a descoberta de novos restos de fósseis desses mamíferos voadores para aprendermos um pouco mais sobre este fascinante grupo que hoje desperta, ao mesmo tempo, fascínio e medo nas pessoas. 

 

Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
02/06/2006

 

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Paleontólogos europeus acabam de publicar um estudo na Historical Biology  sobre dentes de tubarões encontrados em rochas do Cretáceo Inferior da Formação Sao Khua, na Tailândia. O material foi descoberto em uma rodovia próxima à cidade de Phu Phan Thong, em uma área coberta por vegetação, onde fósseis são encontrados com maior dificuldade. Os dentes isolados estudados pela equipe liderada por Gilles Cuny, do Museu Geológico de Copenhagen, pertencem a cinco espécies de tubarões hibodontídeos (de água doce), duas das quais novas para a ciência.
Pesquisadores encontraram uma região muito rica em mamíferos fósseis no Tchade, país da África Central. Formada por rochas com cerca de 12 milhões de anos (Mioceno), a localidade Toros-Ménalla forneceu dezenas de exemplares, com destaque para uma forma chamada Libycosaurus , mamífero de um grupo extinto (Anthracotheriidae). Esse gênero engloba animais de hábitos semi-aquáticos que têm cinco dentes molares superiores, uma feição muito rara. O estudo, publicado na revista PNAS , demonstra que existia uma afinidade muito grande entre as faunas do Tchade e da Líbia durante o final do Mioceno.



Novos fósseis de peixes primitivos trazem informações sobre a evolução das guelras. Encontrados em rochas com 370 milhões de anos (Devoniano) na localidade chamada Miguasha, em Quebec, no Canadá, os exemplares do peixe Endeiolepis aneri permitiram observar a posição das mais antigas estruturas associadas a guelras conhecidas até o presente momento. O estudo foi publicado na Nature  por Philippe Janvier e colaboradores.

A segunda edição do International Palaeontological Congress  será realizada entre 17 e 21 de junho deste ano em Beijing, na China. No evento, pesquisadores de todo o mundo irão apresentar os resultados de estudos de fósseis. Cabe destacar o Simpósio T13, sobre o depósito da fauna Jehol, em Liaoning (China) e arredores, que forneceu grande quantidade de organismos fósseis bem preservados, desde plantas até dinossauros com penas.



O pesquisador norte-americano Joshua Smith estudou em detalhe a variação dentária do famoso Tyrannosaurus rex . Examinando todos os dentes de diferentes arcadas de T. rex – como este grande dinossauro carnívoro é conhecido –, o pesquisador encontrou diversas categorias dentárias (dentes com formas semelhantes) e concluiu que existem importantes informações que podem ser retiradas dos dentes para estudos sistemáticos dos dinossauros terópodes – mais do que se supunha originalmente. O estudo foi publicado no final do ano passado no Journal of Vertebrate Paleontology .

Um novo mamífero fóssil foi encontrado na famosa Formação Yixian, na China. A espécie, que recebeu o nome  Akidolestes cifellii , tem algumas afinidades anatômicas na região da bacia e das pernas com os monotrématos (mamíferos que põem ovos e atualmente são representados por apenas duas espécies, entre elas, o ornitorrinco). Além do esqueleto, a nova espécie também exibe a preservação parcial de sua pelagem. O estudo, realizado por Gang Li e Zhe-Xi Luo, foi publicado na Nature no início deste ano.

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Alexander Kelnner

A coluna Caçadores de fósseis é publicada na segunda sexta-feira do mês. Ela é mantida desde dezembro de 2004 pelo paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus textos discutem novidades da pesquisa de fósseis. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação do colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para alexander.kellner@gmail.com


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