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A nova fera do Rio Grande do Sul

Alexander Kellner antecipa sua coluna deste mês para apresentar a fantástica descoberta de uma espécie de carnívoro primitivo com 220 milhões de anos feita por pesquisadores gaúchos.

Por: Alexander Kellner

Publicado em 02/03/2010 | Atualizado em 03/03/2010

A nova fera do Rio Grande do Sul

Reconstrução da musculatura da fera ‘Trucidocynodon riograndensis’, considerada um grande predador do período Triássico (imagem: Adolfo Bittencourt).

Poucas vezes fico tão entusiasmado com uma descoberta na paleontologia. Mas essa realizada por Téo Veiga de Oliveira, juntamente com Marina Soares e Cesar Schultz, todos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e publicada na última edição da revista Zootaxa é absolutamente sensacional. A começar pelo nome da nova espécie encontrada – Trucidocynodon riograndensis –, que em tradução livre já diz tudo: o cinodonte do Rio Grande do Sul que trucidava!

Trata-se de um animal carnívoro que certamente estava no topo da cadeia alimentar

Olhando para a dentição da fera, que viveu há 220 milhões de anos, não existe muita dúvida: trata-se de um animal carnívoro que certamente estava no topo da cadeia alimentar e disputava suas presas com répteis primitivos, incluindo os primeiros dinossauros – que acabavam de fazer o seu début no planeta.

Além disso, o Trucidocynodon riograndensis foi descrito a partir de um esqueleto quase inteiro e outros quatro exemplares incompletos, o que forneceu informações inéditas sobre o restante de seu corpo e permitiu aos pesquisadores, inclusive, inferir como o animal se locomovia.

Fósseis do Trucidocynodon riograndensis
Esqueleto quase completo do 'Trucidocynodon riograndensis' encontrado em depósitos do Rio Grande do Sul (foto: Téo Veiga de Oliveira).

Todos esses dados nos dão uma noção mais concreta do aspecto assumido pelas formas basais dos cinodontes – grupo de animais carnívoros que engloba os mamíferos.

Depósitos triássicos gaúchos

Como já comentamos recentemente, a pesquisa de cinodontes primitivos no Rio Grande do Sul tem trazido um importante aporte ao conhecimento desse grupo, com informações preciosas sobre os passos evolutivos dados na direção da origem dos mamíferos.

De uma forma geral, para os estudos sobre cinodontes do Brasil, podemos destacar três importantes pacotes sedimentares formados durante o período Triássico. Eles são classificados em duas formações distintas: Santa Maria e Caturrita.

A parte inferior da Formação Santa Maria tem 230 milhões de anos e era dominada pelos dicinodontes – espécies herbívoras de grande porte que chegavam a passar dos 3 metros de comprimento e, em sua grande maioria, não tinham dentes, exceto por duas presas bem desenvolvidas. Alguns cinodontes também estão representados nesses depósitos, com destaque para a forma carnívora Chiniquodon theotonicus, descrita pelo famoso paleontólogo alemão Friedrich von Huene (1875-1969), que muito atuou no Rio Grande do Sul.

Até então, os cinodontes encontrados que viveram naquela época eram de pequeno porte

Na parte superior da Formação Santa Maria, formada há cerca de 225 milhões de anos, predominam os rincossauros – grupo de répteis primitivos herbívoros bem típicos de depósitos triássicos. Até então, os cinodontes encontrados que viveram naquela época eram de pequeno porte e considerados animais que se alimentavam de insetos ou de carniça.

Já na Formação Caturrita, que tem em torno de 220 milhões de anos, foram registrados vários cinodontes, todos comparativamente pequenos, com menos de um metro de comprimento.

Descoberta inédita

O Trucidocynodon riograndensis foi descoberto na parte superior da Formação Santa Maria, mais precisamente no município de Agudo, localizado 200 quilômetros a leste de Porto Alegre. Essa espécie tinha mais de um metro de comprimento e seu peso estimado variava de 15 a 20 kg.

Esqueleto do 'Trucidocynodon riograndensis'
Reconstrução do esqueleto completo do 'Trucidocynodon riograndensis', que chegava a ter 1,20 metros de comprimento da ponta do focinho até a cauda.

Entre suas características mais interessantes estão os dentes incisivos com serrilhas em sua margem posterior. O dente canino – o mais desenvolvido de todos – também tem as margens finamente serrilhadas. Vale destacar que esse tipo de dentição serrilhada é uma feição bem típica de dinossauros carnívoros como o Tyrannosaurus rex e o Pycnonemosaurus e comprova que o Trucidocynodon também era um animal carnívoro.

O pescoço e a região lombar da nova espécie eram compostos por 32 vértebras – um número elevado quando comparado às de outros cinodontes. Além disso, os pesquisadores concluíram que as feições presentes nos membros anteriores do Trucidocynodon indicam que o animal caminhava apoiado nos dedos das patas anteriores, traço bem típico dos mamíferos (e ausente em cinodontes mais basais). Essa característica sugere que a nova fera era bastante ágil e possivelmente veloz.

Tomando por base as características dos dentes (além de outras feições do crânio) e do corpo do Trucidocynodon, os cientistas estabeleceram que ele foi um predador feroz. Qual teria sido o seu alimento? Possivelmente outros cinodontes menores, mas também rincossauros (abundantes naquele depósito) e, quem sabe, até filhotes de dinossauros.

Crânio e mandíbula de Trucidocynodon riograndensis
Crânio e mandíbula da nova espécie de cinodonte encontrada no Brasil. A dentição revela um animal carnívoro (foto: Téo Veiga de Oliveira).

Parente próximo na Argentina

Téo e colaboradores também procuraram estabelecer as relações de parentesco do Trucidocynodon e concluíram que a forma brasileira está relacionada à espécie Ecteninion lunensis, de menor porte, encontrada na Formação Ischigualasto, da Argentina. Os dois animais têm dentição similar, entre outros traços em comum, e podem representar um novo grupo de cinodontes carnívoros.

A forma brasileira está relacionada à espécie Ecteninion lunensis, de menor porte, encontrada na Argentina

Os estudos desses e de outros fósseis encontrados nos depósitos triássicos do Brasil e da Argentina indicam uma acentuada mudança ambiental ocorrida no início do Triássico Superior. Mais especificamente, entre 227 e 220 milhões de anos atrás, as condições mais áridas deram lugar a um ambiente mais úmido.

Nesse cenário, partindo do princípio de que essas mudanças ambientais afetaram o Brasil e a Argentina ao mesmo tempo, o Trucidocynodon teria se desenvolvido em um ambiente mais úmido do que seu parente mais próximo, o Ectininion. Levando em conta que a Formação Ischigualasto tem cerca de 230 milhões de anos, não há como deixar de especular se as formas argentinas em algum momento teriam dispersado para o Brasil, incluindo os ancestrais do Trucidocynodon riograndensis.

Apesar de ser um trabalho complicado e que envolve um grande grau de incerteza, é a comparação de faunas (e floras) que permite aos pesquisadores tentar detalhar com um pouco mais de precisão as mudanças ocorridas no nosso planeta durante o período Triássico. Assim como as que ocorrem atualmente, essas mudanças afetaram os ecossistemas terrestres e influenciaram a evolução das espécies animais e vegetais.

 

Alexander Kellner
Museu Nacional/ UFRJ
Academia Brasileira de Ciências

 

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Alexander Kelnner

A coluna Caçadores de fósseis é publicada na segunda sexta-feira do mês. Ela é mantida desde dezembro de 2004 pelo paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus textos discutem novidades da pesquisa de fósseis. Visite o arquivo para ler as colunas anteriores e leia a apresentação do colunista. Envie críticas, comentários e sugestões para alexander.kellner@gmail.com


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