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O portão de Plutão?


Arqueólogos italianos podem ter encontrado uma porta para o ‘mundo inferior’, descrita em históricos textos gregos e romanos.

O portão de Plutão?

Uma simulação digital de como seria a recém-descoberta 'Porta do Inferno' nos tempos do Império Romano. O local era rota de peregrinação naquela época. (imagem: Francesco D'Andria)

Cientistas italianos descobriram a porta para o ‘inferno’. Calma, não se trata de um sinal do apocalipse. Na verdade, um grupo de arqueólogos italianos encontrou ruínas de um antigo templo que a tradição romana diz abrigar um portal para o mundo inferior, o hades. 

Segundo registros históricos, qualquer animal que entrasse no local, cheio de um vapor nebuloso e denso, encontrava a morte instantânea 

Segundo escritos de cerca de dois mil anos, esse templo estaria localizado próximo à antiga cidade romana de Hierápolis (perto da atual Pamukkale, na Turquia). Dedicado a Hades (Plutão) e Perséfone (Core), ele abrigaria uma espécie de caverna com vapores altamente mortais, a tal ‘porta do inferno’ – descrita pelo historiador grego Strabo como um local "cheio de um vapor tão nebuloso e denso que dificilmente era possível ver o chão" e no qual "qualquer animal que entre encontra a morte instantânea". 

Lugar bacana, não é? Pois bem, naqueles tempos a cidade estava na rota de muitos peregrinos que circulavam pela região. Conforme o arqueólogo Francesco D'Andria, da Universidade de Salento (Itália), declarou ao Discovery News, a maioria dos visitantes do templo vinha em busca da água da fonte existente no local, capaz de produzir profecias e visões em sonhos – e ainda aproveitava as fontes termais das proximidades

A descoberta do complexo foi feita a partir da reconstrução das rotas para essas fontes. Em meio às muitas ruínas do local, os italianos identificaram um templo dedicado às deidades do hades e evidências arquitetônicas que batem com as descrições históricas. 

Portão de Plutão
O sítio encontrado pelos arqueólogos apresenta características muito semelhantes ao local descrito nos textos históricos. As inscrições indicam um templo dedicado a Hades (Plutão) e Perséfone (Core), senhores do mundo inferior. (foto: Francesco D'Andria)

Fora seu aspecto místico, a letalidade da caverna era quase ‘turística’: os pesquisadores explicam que, apesar de serem proibidos de se aproximar da entrada, os peregrinos assistiam aos ritos dos degraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais. 

Os peregrinos assistiam aos ritos dos degraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais 

Os sacerdotes também bebiam da água alucinógena e sacrificavam touros em honra a Plutão. Os próprios arqueólogos comprovaram os efeitos dos vapores durante as escavações: diversos pássaros que se aproximaram da abertura quente morriam imediatamente com o vapor tóxico. 

Segundo D'Andria, a descoberta é excepcional por confirmar informações que só existiam em fontes históricas muito antigas. Ele explica que o templo era popular até o século 4 e foi visitado até o século 6. Com o crescimento do catolicismo, no entanto, acabou abandonado – e, posteriormente, destruído por terremotos e intempéries. 

Os pesquisadores trabalham, agora, na reconstrução digital do local. Essa não foi a primeira descoberta polêmica e mística do grupo: dois anos atrás, eles anunciaram ter encontrado, na mesma região, um túmulo que pode ter pertencido ao apóstolo Felipe, um dos doze discípulos de Jesus Cristo, segundo a Bíblia. 

Porta dos fundos?

Saindo um pouco da mitologia e da antiguidade, o nosso mundo já possui outra ‘porta para o inferno’, essa bem mais moderna. Localizada não muito longe dali, na região de Derweze  (ou Darvaza), no Turcomenistão, ela arde em labaredas incandescentes desde a década de 1970. No entanto, muito longe de ser obra de algum deus da antiguidade, esse portão em pleno deserto de Karakum é fruto da ação humana.

Derweze
No deserto do Turcomenistão, uma outra 'porta para o inferno', que nada tem a ver com deuses antigos, mas com a economia moderna. (foto: Wikimedia commons)

No início da década de 1970, a então União Soviética pretendia explorar os ricos depósitos de gás natural da região. Quando o chão abaixo da plataforma de perfuração cedeu, criou um buraco de cerca de 70 metros de diâmetro que liberava gás natural na atmosfera. Para prevenir seus efeitos tóxicos, os geólogos decidiram que a melhor opção seria ‘tacar fogo em tudo’, na esperança de que, em algumas semanas, o reservatório se esgotasse. Resultado: o regime comunista acabou, a União Soviética se esfacelou e o nosso ‘inferno moderno’ continua a arder e a espalhar um forte odor pela região. 

Apesar de nenhum templo ter sido construído e de ninguém sacrificar touros por lá, Darvaza se tornou também uma atração turística – até a tribo que habitava a região foi expulsa de lá em 2004, para não ‘incomodar’ os visitantes. Desde 2010 o governo do país vem buscando formas de fechar a porta ou ao menos limitar a sua influência no desenvolvimento de outros campos de extração de gás natural na região. 


Marcelo Garcia 
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 08/04/2013 17:34

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Uma triste história de fogo e gelo


O naufrágio do Titanic – o senhor dos mares – e a explosão do Hindenburg – o rei dos céus – completam datas históricas em 2012 e lembram ao mundo como tragédias podem mudar a evolução da tecnologia.

Uma triste história de fogo e gelo

O desastre parece estar na natureza dos Titanics: no mar, acabou nas geladas águas do Atlântico; no ar, explodiu em chamas. Os episódios mudaram a história do transporte mundial. (imagem: foto da Marinha dos Estados Unidos / gravura de Willy Stöwer, 1912)

Conforme o conhecimento do homem progride, o mundo parece tornar-se 'menor', em grande parte devido a novos e mais rápidos meios de transporte. O ano de 2012 é marcante para duas tragédias que ajudaram a redefinir os rumos dessa história: em 1912, Jack, Rose e mais 2.238 pessoas naufragavam com o Titanic nas águas geladas do Atlântico. Um quarto de século depois, em 6 de maio de 1937, as chamas consumiram o gigantesco zepelim alemão LZ 129 Hindenburg, o Titanic do céu, pouco antes de seu pouso, nos Estados Unidos.

Uma exposição promovida pelo National Postal Museum, nos Estados Unidos, relembra os detalhes das duas tragédias. No acervo, um mapa inédito, encontrado recentemente, mostra a rota traçada pelo dirigível, orgulho da Alemanha nazista. Além do mapa, a mostra apresenta cartas trazidas pelo zepelim – a atividade de correio pagava grande parte da despesa das viagens.

Confira o vídeo que apresenta detalhes sobre a descoberta do novo mapa e sobre a tragédia do Hindenburg


Numa época em que os aviões ainda não tinham autonomia para cruzar o oceano, os dirigíveis eram os reis dos céus. No Brasil, inclusive, foi construída a primeira base da América Latina capaz de receber as aeronaves, no Recife. Porém, a tragédia do Hindenburg, que matou 36 pessoas, acabou com esse prestígio – já abalado após as inúmeras mortes relacionadas com o uso de dirigíveis na primeira grande guerra. Depois dela, rapidamente os gigantes voadores deixariam de dominar os ares. 

O episódio é tão famoso que chegou a ilustrar a capa do álbum de estreia da banda Led Zeppelin. O nome do grupo tem tudo a ver com dirigíveis: é uma corruptela criada após Keith Moon, baterista do The Who, afirmar que a banda afundaria como um balão de chumbo (lead zeppelin, em inglês). Apesar de tão 'explosivo' como as máquinas voadoras, o Led Zeppelin acabou tendo uma vida bem mais longa que o Hindenburg. 

Capa Led Zeppelin
A capa do primeiro disco da banda inglesa Led Zeppelin exibe a clássica foto do Hindenburg em chamas. O acidente enterrou de vez o prestígio dos dirigíveis.

 

A patrulha do norte

Um quarto de século antes, no dia 15 de abril de 1912, foi o Titanic, senhor dos mares, que conheceu seu fim. Com o centésimo aniversário da tragédia, os destroços submersos passaram a ser protegidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo é impedir a pilhagem e a dispersão dos restos do transatlântico.

Porém, um estudo divulgado recentemente mostra que, em pouco tempo, pode não haver muito o que proteger: bactérias estão devorando as 50 mil toneladas de metal submerso, inclusive uma espécie inédita, Halomonas titanicae

Titanic submerso
Após completar um século submerso nas águas geladas do Atlântico Norte, os destroços do Titanic estão agora sob a proteção da Unesco. (foto: NOAA/Institute for Exploration/University of Rhode Island)

Ao contrário do Hindenburg, a tragédia com o Titanic não acabou com os transatlânticos, apesar de ter deixado 1.514 mortos, bem mais do que o dirigível. Ao invés disso, ajudou a redefinir seus padrões de segurança. Em 1914, entrou em vigor a Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida no Mar (Solas), que estipulava normas de segurança obrigatórias para as embarcações. Logo após o naufrágio, também foi criada a Patrulha Internacional do Gelo (IIP) para vigiar o Atlântico Norte contra icebergs.

A iniciativa já se propôs a pintar os gigantes blocos de gelo, fixar neles radioemissores e até bombardeá-los, sem muito sucesso. Hoje, atua na prevenção e no alerta, compilando dados de satélites, aviões radares e navios que cruzam a área. O perigo ainda existe, mas segundo o IIP desde janeiro de 1959 não é registrado nenhum acidente mortal envolvendo um iceberg.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 07/05/2012 17:55

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Duas vozes, um só cotidiano


Peculiares e complementares, Chico Buarque e Caetano Veloso são vistos há cerca de 40 anos como paralelos da música popular brasileira, da política e da cultura.

Duas vozes, um só cotidiano

Os compositores cantam ‘Você não entende nada’ e ‘Cotidiano’ em 1986, no programa da TV Globo ‘Chico & Caetano’. A primeira interpretação das canções, um momento emblemático da interação entre os dois, aconteceu em 1972, em Salvador. (foto: reprodução)

“Você gosta mais de Chico ou de Caetano?” A pergunta, recorrente nos círculos sociais brasileiros, reflete a imagem dicotômica construída em torno dessas personalidades da música, algo que acontece em proporção bem menor com outros músicos contemporâneos – quantas vezes você já foi perguntado sobre gostar mais de Maria Bethânia ou Gal Costa?

Embora representantes da música popular brasileira, os dois compositores tinham projetos artísticos próprios

Embora representantes da música popular brasileira, os dois compositores tinham projetos artísticos próprios. De um lado, o baiano, com sua música ‘de vanguarda’, roupas extravagantes e empréstimos sonoros de ruídos e guitarras, expressava a necessidade de revolucionar o corpo e o comportamento. Tudo muito sintonizado com a modernidade internacional e os avanços tecnológicos.

De outro, o carioca – com ‘Construção’, ‘Essa moça tá diferente’ e ‘Apesar de você’ – cantava o homem simples do subúrbio, o samba e a política do país. Resistente ao tropicalismo, à cultura do ‘espetáculo’ e à indústria cultural. Defensor das raízes da cultura popular, da bossa nova e de Mário de Andrade.

Mas, então, o que está por trás de tão persistente comparação? A historiadora da Universidade de São Paulo Priscila Gomes Correa decidiu analisar a questão em sua tese de doutorado. Ela partiu das canções de Caetano Veloso e Chico Buarque que falavam sobre o cotidiano para tentar compreender melhor a imagem que opinião pública, imprensa e crítica construíram e reforçaram ao longo dos anos.

“Busquei entender o que esses dois artistas representaram e como influenciaram nossa sociedade e cultura ao longo de suas trajetórias”, explica Correa. Um detalhe: essa relação entre Caetano e Chico, observa a pesquisadora, é própria do Brasil – de nossas mídia e cultura. Na Europa, onde eles também são reconhecidos, compará-los ou mesmo associá-los está longe de ser uma tendência.

Cálice
Caetano (à esquerda) interpreta ‘A volta da Asa Branca’ no Phono 73, festival de música marcado pela crítica à censura. Chico Buarque e Gilberto Gil (à direita) tiveram seus microfones desligados enquanto cantavam ‘Cálice’. (fotograma: reprodução)

Da cultura à política

Para compreender essa tendência no Brasil, Correa não analisou só as letras das canções, mas empreendeu um trabalho minucioso de escuta para observar também voz, musicalidade, figurino e postura em palco. Além disso, resgatou centenas de entrevistas, nas quais os artistas deixaram registrados alguns de seus traços – muitas vezes banais, mas imediatamente associados a suas figuras públicas.

Numa delas, de 1977, Chico reclama da exploração política de sua imagem, em oposição à de Caetano: “Eu permito isto nas épocas de eleição. Agora, não posso permitir que se faça uma exploração política do meu nome para atacar o Caetano Veloso [...] Algumas músicas dele, inclusive neste último disco, têm, nitidamente, preocupações sociais”.

Construção e Araçá-Azul
Discos ‘Construção’, de Chico Buarque, e ‘Araçá-Azul’, de Caetano Veloso. Nos anos 1970, com projetos mais amadurecidos, o primeiro consolida sua imagem de artista ‘resistente à ditadura’ e o segundo, a radicalização do seu tropicalismo. (imagens: reprodução)

Esse tipo de confronto – como Correa chama essa comparação eterna entre as duas figuras – mostra que seus nomes carregam consigo um conjunto de valores já assimilado pelo público. Outro episódio ilustrativo: depois de ser criticado por Caetano, em 2009, o ex-presidente Lula declarou: “Minha resposta a Caetano eu dei ontem à noite, quando ouvi o CD do Chico Buarque”.

Os próprios artistas já se manifestaram sobre essa relação. A historiadora lembra que suas declarações na imprensa eram bastante sugestivas – e iam além da ‘questão’ tropicalista, considerada o cerne da divergência entre os dois. Certa vez, Caetano comentou: “Às vezes penso que minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque, mas é uma perseguição amorosa. E tem dado bons resultados já faz muito tempo”.

 

Eu quero que você venha comigo... todo dia

Exemplo desse bom resultado é o diálogo recorrente entre suas obras. Um dos momentos mais emblemáticos dessa interação se passou em 1972, no palco do teatro Castro Alves, em Salvador, onde os dois fizeram uma interpretação conjunta das canções ‘Você não entende nada’ (de Caetano) e ‘Cotidiano’ (de Chico). 

No palco, ambos cantavam a rotina, a repetição, de certo modo a opressão – mas também o desejo de transformá-las

No palco, ambos cantavam a rotina, a repetição, de certo modo a opressão – mas também o desejo de transformá-las. E fundiam seus estilos e letras no trecho que une as duas músicas: ‘eu quero que você venha comigo... todo dia’.

Por outro lado, a realidade apresentada por Caetano em ‘Você não entende nada’ – embora semelhante à de Chico em ‘Cotidiano’ – é cantada sob uma ótica mais crítica, por um personagem mais arredio. Faz referências a produtos industriais (“você traz a coca-cola/ eu tomo”), gestos cotidianos e um desejo (“eu quero que você venha comigo”) que não chega a se concretizar, marcado pela repetição insistente e que se transforma em espera.

É essa espera – como a de ‘Pedro Pedreiro’ – que indica a transição para ‘Cotidiano’. “A longa introdução é na verdade um processo de adaptação do tom”, explica Correa. “Chico subiu o tom para poder acompanhar Caetano.” Na canção de Chico, ainda mais pessimista, a rotina (“todo dia ela faz tudo sempre igual”) oprime o personagem. Ao mesmo tempo, “me calo com a boca de feijão” é a ditadura militar censurando o artista.

Para a historiadora, essa fase artística de ambos é caracterizada por um certo desespero. E o momento de transição das músicas é também, metaforicamente, o ponto de junção entre suas críticas sociais. 

Após percorrer 40 anos de produção artística dos dois músicos, Correa se arrisca a sintetizar: “Se fôssemos esquematizar os percursos artísticos dos dois, encontraríamos predominantemente um indivíduo que percorre as instâncias da cultura rumo à cotidianidade, em Caetano; e outro que percorre os espaços da cotidianidade rumo à cultura, em Chico”. 

Falando ou não a mesma língua, não importa. Mas construindo, juntos, uma representação do Brasil.

No documentário 'Uma noite em 67', Caetano Veloso fala da sensação de "organizar o movimento". Assista.

 


Carolina Drago
Ciência Hoje On-line

Publicado por Carolina Drago - 03/01/2012 17:20

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Lições de gente imprescindível


Em depoimento emocionante, a pesquisadora Patricia Sampaio compartilha lembranças da historiadora Maria Yêdda Linhares, falecida no último dia 29.

Lições de gente imprescindível

Maria Yêdda Leite Linhares, 1921-2011. (foto: Marco Fernandes - SGCOMS/ UFRJ)

Era 1988. Eu havia lhe trazido três delicados lenços bordados de presente. Esperava que ela gostasse porque vinham de Fortaleza, sua cidade. Animada, ela abriu a caixa, mas, quando viu o conteúdo, ficou séria e saiu em busca de algo.

Colocou três moedas na minha mão. Diante do meu espanto, perguntou: “Você não sabe que, quando ganhamos lenços, devemos retribuir com o mesmo número de moedas? Se isso não acontecer, nós vamos brigar!” Não sabia. Era mais uma das lições da elegante professora.

Tinha eu 23 anos e estava no Rio fazendo mestrado. Ela? Era Maria Yêdda Leite Linhares. Uma verdadeira lenda que dispensava apresentação e estava prestes a se aposentar.

Talvez o sortilégio dos lencinhos não possa ser alçado à condição de ‘relevante’, mas era ela quem dizia e, só por isso, já valia muito a pena prestar atenção. Não importava que você discordasse depois.

Em texto emocionado, Francisco Carlos Teixeira da Silva a definiu como uma “formadora de gente”. Tenho a honra de dizer que também fui formada por ela

A lista é interminável. As modulações das memórias dos tempos duríssimos vividos na ditadura, o gosto pelo café adoçado com rapadura de um restaurante próximo à sua casa, a crítica precisa a um comentário fora de compasso, o apreço pelos eletrodomésticos vermelhos, a extraordinária capacidade de extrair o melhor de seus alunos, sua energia inacreditável, a aguda compreensão do lugar do historiador nas lutas de seu tempo, mas, sobretudo para mim, a capacidade de ser uma professora que não cabe em qualquer adjetivo. A Yêdda que conheci ensinava assim.

Em texto emocionado, Francisco Carlos Teixeira da Silva a definiu como uma “formadora de gente”. Tenho a honra de dizer que também fui formada por ela.

O mergulho nas fontes

Meu interesse pela história da agricultura de alimentos no Amazonas ia ao encontro do projeto que D. Yêdda se dedicava a consolidar desde 1977, após seu retorno ao Brasil. Era a busca do “lado escuro da lua” que tanto rendeu à historiografia brasileira.

Àquela altura, era trabalho muito bem-sucedido e forte motivo para que se escolhesse a Universidade Federal Fluminense (UFF) para pós-graduação. Era meu caso e é quase certo que o fato de ter vindo do Amazonas estudar história agrária tenha sido decisivo para que aceitasse me orientar às vésperas da aposentadoria. 

Anos de pós-graduação podem ser marcados pela aflição de jovens historiadores. Levei, junto com outros colegas, muitos ‘puxões de orelha’ por conta desses “desesperos injustificados”, como ela chamava. Impaciente, não cansava de repetir: “Não tenham medo de meter a mão na massa. Mergulhem em suas fontes. Se as fontes falam, o trabalho cresce e aparece!”. Hoje, como um mantra, repito D. Yêdda. Desta vez, para acalmar meus orientandos aflitos.

Linhares: “Não tenham medo de meter a mão na massa. Mergulhem em suas fontes. Se as fontes falam, o trabalho cresce e aparece!”

O conselho para ir fundo na documentação evidenciava suas vinculações à história agrária tal como praticada na França, e todos nós, do Porto da Folha ao Amazonas, do Rio Grande ao Pará, em todas as direções do país, éramos estimulados a explorar fontes diversificadas.

Nesse processo, invariavelmente, nos enredávamos na riqueza analítica das séries maciças embalados pelo entusiasmo da Yêdda a cada resultado.

Afinal, ela não participou da minha qualificação, marcada para 14 de julho de 1989, por uma razão simples: era convidada de honra do governo francês para as celebrações do Bicentenário da Revolução Francesa. Ciro Cardoso a substituiu na sessão de arguição.

Em 1989, o Botafogo conquistou o campeonato carioca. No dia seguinte, ostentava meu broche do time porque nasci botafoguense, pela graça de meu pai. Tínhamos um encontro marcado. Ela viu a estrela e disse: “Vamos almoçar para celebrar o Botafogo e depois trabalhamos!” Outra vez, fiquei espantada. No almoço, entre tantas histórias, falou dos “rapazes do Botafogo” e, em especial, de João Saldanha.

Botafogo
Yêdda Linhares, assim como sua ex-orientanda Patricia Sampaio, era botafoguense. Em 1989, as duas almoçaram juntas para celebrar a conquista do time no campeonato carioca. (foto: Wikimedia Commons)

Eu a veria muitas vezes até que terminasse a dissertação, que tratou dos processos de acumulação mercantil em Manaus no século 19 com base em inventários. Na véspera da defesa, um susto: ela não havia gostado do título que dera ao trabalho. Era um mal-entendido, mas não pude esclarecê-lo. Não consegui dormir de ansiedade.

No dia seguinte, ela chegou sorridente acompanhada dos outros membros da banca, João Luis Ribeiro Fragoso e Francisco Carlos Teixeira da Silva. A sessão foi longa como era de praxe, mas transcorreu sem problemas. Yêdda estava satisfeita com a arguição e com os resultados. Eu? Orgulhosa, sem dúvida, e aliviada, com certeza!

As dimensões do que ficou

Anos depois, já no doutorado, vieram outros encontros. Defendi a tese, sob orientação de Hebe Mattos, no último dia do 21º Simpósio Nacional de História, promovido pela Associação Nacional de História (Anpuh). Quando a defesa terminou, nos dirigimos para o auditório da UFF. D. Yêdda faria a conferência de encerramento e seria homenageada. Foi emocionante estar ali.

Auditório repleto, dei-me conta de que, parafraseando samba famoso, era parte do enorme batalhão que aquela extraordinária figura havia formado. Ao abraçá-la, contei-lhe da defesa. Ela respondeu: “Sua responsabilidade no Amazonas aumentou. Agora é sua vez e o trabalho está só começando!” Já se vão 10 anos e o trabalho continua, D. Yêdda.

Soube que, além das flores e da bandeira do Botafogo, nada mais foi com ela. E eu aqui, de novo espantada, tentando definir as dimensões do que ficou depois que D. Yêdda passou por nossas vidas. Neste momento, só me vem à memória a voz da Mercedes e o verso do Brecht: “Pero hay los que luchan toda la vida. Estos són los imprescindibles”.


Patricia Melo Sampaio
Departamento de História
Universidade Federal do Amazonas

Publicado por Patricia Melo Sampaio - 08/12/2011 15:10
Tags: História

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‘Guerra e Paz’ e o 11 de Setembro


Obra de Cândido Portinari ilustra capa e contracapa de edição da revista científica ‘The Lancet’ sobre os impactos dos atentados terroristas às torres gêmeas, nos Estados Unidos.

‘Guerra e Paz’ e o 11 de Setembro

Capa e contracapa da edição desta semana da revista ‘The Lancet’.

A revista The Lancet desta semana traz artigos sobre os impactos do 11 de Setembro. Até aí nada demais – boa parte das publicações vai refletir sobre os dez anos dos atentados terroristas que mudaram o mundo.

Mas a revista britânica dedicada a questões de saúde caprichou na ‘embalagem’: preencheu capa e contracapa com os dois painéis de Guerra e Paz, obra monumental do pintor brasileiro Cândido Portinari que embeleza a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque (Estados Unidos).

No editorial, a equipe lembra o teor simbólico da obra no que diz respeito a saúde e bem-estar. E faz um paralelo com as intenções da ONU, que muitas vezes tem sido ignorada ou marginalizada por países em guerra.

“No aniversário do 11 de Setembro, as nações devem pensar sobre como fortalecer uma organização indispensável que deve sua existência à guerra e seu futuro à paz – talvez a mais pungente mensagem de Portinari”, conclui o texto.

Helena Aragão

Ciência Hoje On-line

Publicado por Helena Aragão - 02/09/2011 08:38
Tags: História Arte

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Continente revisitado


Coleção inédita lançada pela Unesco apresenta visão local e contemporânea sobre mais de 3 milhões de anos de história da África.

Continente revisitado

Mapa da África publicado na Europa em 1771. A história do continente sempre foi contada a partir da perspectiva do colonizador branco. Na coleção 'História geral da África', os próprios africanos relatam sua visão dos fatos. (foto: UFL/ Arquivo de mapas)

Verdadeiras 'bíblias' sobre o assunto, os oito volumes que compõem a coleção História geral da África foram lançados e disponibilizados em português na internet, com download gratuito. Para quem deseja compreender melhor a rica e complexa história do continente africano, os livros são um 'prato cheio'.

O sociólogo Válter Silvério, responsável pela versão brasileira da coleção, contou à CH On-line que as obras em português são fruto de uma parceria entre a representação da Unesco no Brasil, o Ministério da Educação e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde é professor.

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Capa de um dos volumes da coleção.

"Por romper com o estigma da parcialidade, do culto ao exotismo e da racialização sistemática, que ainda contaminam os estudos sobre a África, a coleção é considerada um divisor de águas na historiografia do continente", explica Silvério.

As obras foram escritas por cerca de 350 especialistas africanos, que tomaram a palavra para contar uma nova história de sua terra. Eles abandonaram a perspectiva eurocêntrica (baseada na visão europeia) e, a partir de um ponto de vista local, inauguraram novas interpretações.

Não faltam divergências entre alguns autores sobre detalhes dos temas focalizados. Mas isso, segundo Silvério, acaba por enriquecer ainda mais a coleção.

O sociólogo da UFSCar também celebra o fato de o site brasileiro da Unesco ter batido recorde mundial de downloads de arquivos da organização logo que as obras foram disponibilizadas na internet. Em um mês, houve mais de 80 mil acessos.

Os volumes – cada qual com aproximadamente 800 páginas de texto e ilustrações – levaram 30 anos para ficar prontos e foram originalmente publicados em francês em meados da década de 1980.

A ideia de organizar a coleção nasceu na década de 1960, movida pelo desejo dos recém-independentes estados africanos de contar sua própria história. A Unesco tomou então para si o desafio de produzir uma obra de referência, com o objetivo de ajudar o leitor a compreender melhor a África.

Zimbábue

O caso do Zimbábue é emblemático. Em 2009, o país foi acusado pela comunidade internacional de não seguir as regras do Processo de Kimberley, que certifica a origem de diamantes para evitar a compra de pedras originárias de áreas em conflito. Mas, mesmo havendo muitas provas contra ele, o país africano não foi excluído do processo.

Continente revisitado
Robert Mugabe, líder do Zimbábue há mais de 30 anos. Embora muitos o considerem mero ditador, uma passagem da coleção 'História geral da África' revela que ele ajudou a construir um novo país. (foto: Jeremy Lock/ USAF)

"Por quê?", pode (com razão) indagar o leitor. A maioria das nações africanas se recusou a excluir o país em respeito ao líder Robert Mugabe, que fundou o Zimbábue (antes denominado Rodésia) e apoiou outros processos de independência na África. As regras do Processo de Kimberley preveem exclusão de um membro apenas por decisão unânime.

Embora hoje o presidente do Zimbábue seja visto como um ditador por muitas nações, o apoio que ele recebeu de outros países africanos só pode ser compreendido em um contexto histórico e político específico do continente.

Mugabe conquistou a presidência há 31 anos como herói de guerra e transformou a então branca Rodésia em um Zimbábue negro. Em pouco tempo fez do país a economia mais diversificada e de crescimento mais rápido ao sul do Saara.

Entre tantas outras, questões complexas como a interpretação do papel político de Robert Mugabe podem ser mais bem compreendidas pelo leitor a partir da leitura de textos da coleção História geral da África.

Luan Galani
Especial para a CH On-line/ PR

Publicado por Luan Galani - 23/05/2011 18:14

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Português: uma língua que não fala com o pai


Lusófonos em geral desconhecem origem galega do próprio idioma. Situação diferente da que ocorre entre ‘galegófonos’, que consideram o português mera variação de sua forma de falar.

Português: uma língua que não fala com o pai

Letreiro de uma ‘casa de jantar’ de Santiago da Compostela escrito em galego. (foto: Luis Miguel Bugallo Sánchez/ CC BY 3.0)

Que a língua portuguesa descende do latim, ninguém questiona. O que não se aprende na escola – e muita gente desconhece – é que o português, falado por cerca de 200 milhões de pessoas, é filho também do galego, idioma atualmente restrito a uma população cem vezes menor. Filho mal-agradecido, diga-se de passagem, já que não dá o devido valor ao pai.

Quem explica é o linguista Carlos Alberto Faraco, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Paraná, especialista em linguística histórica e filologia românica.

Durante o VII Congresso Brasileiro de Linguística, realizado em Curitiba, ele contou que o galego foi introduzido na região que viria a ser Portugal entre os séculos 9 e 13, antes da consolidação do Reino de Portugal. O galego é a língua nativa da Galícia, região autônoma da Espanha localizada ao norte do país.

Catedral de Santiago da Compostela
Catedral de Santiago da Compostela, capital da comunidade autônoma da Galícia, na Espanha. (foto: Luis Miguel Bugallo Sánchez/ CC BY-SA 3.0)

Com a criação de uma identidade nacional portuguesa a partir do século 13, a língua falada nas terras de Portugal passou a ser considerada própria do país. Ao longo do tempo, passou a receber influência de outros idiomas e a se diferenciar do galego.

Entre os séculos 15 e 16, com a conquista portuguesa de territórios principalmente na América e África, a língua se expandiu mundialmente e hoje é uma das dez mais faladas do mundo.

O galego, por sua vez, ficou restrito à região da Galícia e a algumas colônias de emigrantes espalhadas pela América do Sul, em países como Argentina e Brasil. Os falantes da língua reconhecem o português como uma derivação de seu idioma. Tanto que há uma corrente, chamada reintegracionista, que considera o galego e o português uma coisa só e defende uma norma ortográfica única.

Trecho da obra ‘Cantigas de amigo’
Trecho da obra ‘Cantigas de amigo’, escrito em galego por Martim Codax, jogral que viveu entre a segunda metade do século 13 e começo do século 14 na região da Galícia. (foto: Pierpont Morgan Library, New York)

Na academia, a noção de que a língua de Camões tem parentes na Galícia também é consenso. Então por que entre os falantes de português em geral esse conhecimento é tão pouco difundido?

“Porque a história é sempre contada pelo lado dominante”, responde Faraco. Reflexo dessa herança é o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, onde o galego é ignorado em um dos quadros que ilustra as origens do português.

Faraco defende que a lusofonia, em termos políticos, deve compreender muito mais do que a defesa da língua portuguesa propriamente dita, mas também de idiomas como o galego e o crioulo cabo-verdiano (que tem base lexical portuguesa).

Depois de tanto tempo, será que não está na hora de o filho fazer as pazes com o pai?

Célio Yano

Ciência Hoje On-line/ PR

Publicado por Célio Yano - 25/02/2011 00:00

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Bússola é o blogue da CH On-line, atualizado por jornalistas, pesquisadores e colaboradores do Instituto Ciência Hoje. Ele traz textos sobre a atualidade científica no Brasil e no mundo, comentários de cientistas sobre resultados de pesquisas, um apanhado do que há de melhor sobre ciência na internet e novidades dos bastidores da redação. Leia nosso post inaugural para saber mais sobre o que você vai encontrar por aqui.

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