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Cicatrizes da resistência: passado e presente


Grupo Tortura Nunca Mais concede a 13 pessoas a Medalha Chico Mendes de Resistência. A homenagem, que acontece desde 1988, foi feita no dia 1º de abril, cinquentenário do golpe militar de 1964.

Cicatrizes da resistência: passado e presente

Manifestação popular no Rio de Janeiro, em junho de 2013. A Medalha Chico Mendes homenageia pessoas e instituições engajadas na defesa da liberdade e dos direitos humanos. (foto: Luiz Baltar)

Abril foi um mês agitado – pelo menos para a memória daqueles que desafiaram o terrorismo de Estado que se instaurou no país com o golpe militar de 1964. O cinquentenário do tempestuoso episódio reaviva um passado sombrio de opressão. “Mas para nós, na verdade, a injustiça não é apenas passado; é ainda o presente”, diz à CH On-line a psicóloga da Universidade Federal Fluminense Cecília Coimbra, única fundadora ainda viva do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM).

No início do mês, o GTNM divulgou a relação dos homenageados com a Medalha Chico Mendes de Resistência. A láurea, em sua 26ª edição, reconhece os esforços de pessoas e instituições engajadas na defesa da liberdade e dos direitos humanos.

Foram 13 nomes agraciados. A lista inclui desde Julian Assange, manda-chuva do Wikileaks, até o morador de rua Rafael Braga, que, durante os protestos de junho do ano passado, no Rio de Janeiro (RJ), fora preso porque portava ‘material explosivo’. Era Pinho Sol. Braga está ainda detido – e quem recebeu a medalha em seu nome foi sua mãe.

Mãe do morador de rua Rafael Braga
Mãe do morador de rua Rafael Braga, durante a cerimônia de entrega da Medalha Chico Mendes de Resistência. (foto: ICH)

 

 

A cerimônia aconteceu na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A escolha do local foi simbólica. Pois no mesmo lugar, há 50 anos, estudantes que protestavam contra o regime militar recém-instaurado estavam encurralados pelas forças do Comando de Caça aos Comunistas – com direito a rajadas de metralhadora e bombas de gás lacrimogêneo.

Os acontecimentos daquele dia fatídico foram relembrados por Cecília Coimbra em um relato vivaz e detalhado.

Não são dos mais confortáveis os lembretes que a Medalha Chico Mendes de Resistência dá à sociedade. “Essa medalha mostra que os efeitos da ditadura ainda perduram”, explica Coimbra. “Na favela, a ditadura ainda não acabou”, disse a mãe de Rafael Braga durante a cerimônia de premiação.

Coimbra: “Desaparecimentos, extermínios, torturas; neste exato momento, provavelmente alguém está sendo torturado em alguma cidade de nosso país”

Apesar de polêmica, a afirmação tem sua razão de ser. Para Coimbra, a triste história do pedreiro Amarildo – desaparecido após sua prisão por policiais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ), no ano passado – foi emblemática nesse sentido. Segundo reportagem da Carta Capital, o caso de Amarildo foi o único a ganhar visibilidade entre os 6.034 desaparecimentos contabilizados entre novembro de 2012 e outubro de 2013 pelo Instituto de Segurança Pública (ISP).

“É muito mais comum do que você pensa: uma pessoa é enquadrada pela polícia, torturada e executada; e, nos relatórios e investigações, policiais simplesmente declaram que a pessoa foi morta porque reagiu à voz de prisão”, acusa Coimbra.

“Desaparecimentos, extermínios, torturas; neste exato momento, provavelmente alguém está sendo torturado em alguma cidade de nosso país”, lamenta a psicóloga da UFF. “São os crimes da chamada democracia brasileira.”

Veja abaixo a lista dos homenageados em 2014 com a Medalha Chico Mendes de Resistência:
- Julian Assange (ativista e jornalista, fundador do Wikileaks)
- Amir Haddad (teatrólogo do grupo Tá na Rua)
- Ládio Veron (cacique da etnia Guarani-Kaiowá)
- Manoel Martins (advogado e ex-preso político)
- Rafael Braga (morador de rua condenado à prisão sob a acusação de portar material explosivo durante uma das manifestações de junho de 2013)
- Raquel Dodge e Sérgio Suiama (membros do Ministério Público Federal)
- Luiz Cláudio Cunha (jornalista e autor do livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios)

Homenagens póstumas:
- João Goulart (ex-presidente deposto pelo golpe de 1964)
- Amarildo Dias de Souza (pedreiro desaparecido desde julho do ano passado depois de detido por policiais militares que diziam pretender conduzi-lo à Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha, no Rio de Janeiro)
- Luiz Maranhão (ex-deputado do Comitê Central do Partido Comunista, preso pelo regime militar em 1974 e depois desaparecido)
- Adriano Fonseca Filho (guerrilheiro do então clandestino Partido Comunista do Brasil desaparecido em 1973 no Araguaia)
- Marcos Antônio da Silva Lima (ex-marinheiro que aderiu à luta armada e foi morto por integrantes do Exército em 1970)

 

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Publicado por Henrique Kugler - 30/04/2014 15:15

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Quem tem internet vai a Roma


Projeto pioneiro de ciberarqueologia desenvolvido no Brasil cria versão 3D interativa da capital do império romano e simulação de uma mansão da Antiguidade.

Quem tem internet vai a Roma

Vista externa do Coliseu, um dos pontos centrais da cidade de Roma. A capital do império que dominou boa parte do mundo há 2 mil anos pode agora ser visitada on-line. (foto: Marcelo Garcia)

O que acontece quando misturamos arqueologia e modernas técnicas de realidade virtual? Um mergulho no passado de nossa civilização, é claro! É isso que propõem alguns projetos do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial da Universidade de São Paulo (Larp/USP), pioneiro no Brasil na área da ciberarqueologia. As iniciativas, que permitem uma visita virtual à Roma do século 4 e um passeio interativo pela mansão de um senador romano do século 1, podem servir como ferramenta didática e representar um primeiro passo para novos projetos interativos na arqueologia brasileira.

Visitar Roma é um exercício de atenção: cada esquina dobrada pode esconder ruínas de milhares de anos. A aura da cidade pulsa história e tradição, nos lembra a todo momento que estamos num dos berços milenares da civilização ocidental. Por isso, é muito interessante o exercício proposto por Roma 360, um simulador que permite navegar pela capital mais ou menos como era nessa data.

Numa perspectiva panorâmica, o visitante pode observar o Coliseu, os grandes templos da cidade e a cúria, onde o destino de boa parte do mundo era decidido – cada área marcada com uma cor diferente: vermelho para construções públicas de lazer, azul para religiosas e verde para políticas. “Roma é bem mais antiga do que isso, mas optamos por essa época porque há mais registros arqueológicos de sua arquitetura”, explica Alex Martire, arqueólogo coordenador do projeto. “O número 360 também remete a 360º, pois é possível percorrer o cenário livremente.”

Roma 360
No aplicativo Roma 360, é possível observar as construções romanas numa perspectiva panorâmica. (imagem: Larp/ USP)

O modelo digital foi criado com base num levantamento bibliográfico, em especial num atlas histórico de 1923 que retrata a arquitetura romana no século 4, além de estudos e imagens da cidade dos 14 pesquisadores do Larp, que trabalharam em conjunto na criação do modelo. Uma das curiosidades é o desenho caótico da capital: ao contrário de muitas povoações romanas em outras partes do mundo, organizadas em linhas retas, como um tabuleiro, Roma cresceu sem planejamento. “Bem parecido com muitas cidades brasileiras, que também não têm planejamento”, diz Martire.

Ao contrário de muitas povoações romanas em outras partes do mundo, organizadas em linhas retas, Roma cresceu sem planejamento

Outro projeto, Domus, nos leva mais fundo à intimidade de Roma – ao interior de uma mansão romana, um modelo cujos cômodos são decorados com objetos e afrescos de diferentes épocas desse império. Textos de apoio explicam detalhes da construção e do modo de vida dos romanos e o programa conta ainda com imagens atuais dos locais e dicas de leituras adicionais.

“Utilizamos como modelo mansões de Pompeia, destruída pela erupção do vulcão Vesúvio, mas cujas construções foram preservadas pela lava”, conta o arqueólogo. “Um ponto interessante é ver que nossas casas são bem diferentes daquelas, mas herdaram certas características; é muito elucidativo fazer essa ligação entre passado e presente.”

Ciberarqueologia: passado e futuro

Os modelos, é claro, não são perfeitos. Apesar da competente reconstrução urbana, para alguns Roma 360 pode parecer mais com uma maquete da Roma imperial do que com a cidade real, uma vez que opta por representá-la sem cores, em preto e branco, e com detalhes apenas dos prédios principais. “A ideia era dar um estilo ao aplicativo, remeter a esboços de lápis”, conta Martire. “Dessa forma, também fica mais fácil para o usuário encontrar os edifícios que se destacam.” A opção, no entanto, torna difícil admirar a imponência de estruturas como o Coliseu e desfaz a aura de drama e vivacidade que poderia caracterizar estruturas que hoje são apenas colunas e ruínas.

Martire, responsável por tirar os modelos digitais do papel, utilizou programas empregados em modernas animações e jogos digitais para modelar e criar as texturas dos objetos e construções e para dar mobilidade aos cenários. “Tecnicamente, é impossível competir com a sofisticação dos jogos, mas são experiências que se complementam; adoro jogar em especial aqueles que têm um cuidado maior com a reconstrução histórica”, pondera o arqueólogo. “Diferente dos games, a ideia dos nossos projetos é proporcionar uma experiência livre, não há um roteiro ou missões.”

Tecnologia de animação
A tecnologia utilizada na construção dos modelos é a mesma aplicada em animações e jogos de computador modernos. (imagem: Larp/ USP)

As iniciativas pretendem ser acessíveis a um público amplo, de estudantes a professores universitários. Para o segundo semestre deste ano, o laboratório está desenvolvendo um projeto educativo em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP voltado para alunos dos ensinos médio e fundamental. “Os modelos podem ser usados como recurso didático em aulas de história ou geografia, por exemplo”, avalia Martire. “Precisamos despertar o interesse dos jovens por esse período, pois herdamos muitos conhecimentos dos romanos, na arquitetura, na engenharia, no direito e em muitas outras áreas.”

Martire: “Os modelos podem ser usados como recurso didático em aulas de história ou geografia, por exemplo”

Domus e Roma 360 estão entre as primeiras iniciativas brasileiras na fronteira da ciberarqueologia, que vem crescendo na última década no mundo e utiliza tecnologias digitais para reconstrução e simulação interativa na arqueologia. “Em geral, estudos desse tipo escaneiam sítios arqueológicos e remontam a região virtualmente”, explica Martire. “Há duas grandes vantagens no processo: o registro preciso de cada passo da escavação e as possibilidades de divulgação, com a criação de espaços de realidade virtual imersiva, como o da Universidade Duke, nos Estados Unidos, por exemplo.”

O futuro a Júpiter pertence

No caso brasileiro, os aplicativos foram desenvolvidos a partir da expertise dos pesquisadores do Larp. “Em meu doutorado, desenvolvo o que talvez seja realmente o primeiro estudo nacional na área: pesquiso os sítios de mineração do império romano do século 2 em Portugal, para reconstruí-los digitalmente no futuro.” Anteriormente, o arqueólogo também desenvolveu um modelo digital genérico de um banho romano.

Ainda para este ano, uma das propostas do laboratório é adaptar o Domus para outros suportes, que ampliem a experiência, como o uso de recursos de realidade aumentada. “A partir de um cartão com a planta da mansão, o usuário poderá utilizar seu smartphone para vê-la ‘sair do papel’, inclusive com personagens em movimento”, promete Martire. “É um recurso portátil e que permite uma experiência mais coletiva.”

Projeto Domus
A visita à mansão de um senador de Roma disponibilizada no projeto Domus permite conhecer mais a cultura e os hábitos romanos. (foto: Larp/ USP)

O Roma 360 também deverá ser ampliado para outras províncias romanas estudadas pelo laboratório, como a Hispânia, área onde hoje fica Portugal e Espanha.

O arqueólogo cogita ainda a utilização de tecnologias como óculos Rift, uma das maiores promessas no campo da realidade virtual, e a realização de parcerias com instituições como a Escola Politécnica da USP, para o uso de equipamentos como sua Caverna Digital. “Trata-se de um enorme cubo de realidade virtual, com telas em todos os lados, que permite uma experiência muito intensa”, avalia. “Já o uso de óculos Rift, cuja compatibilidade com o sistema do Domus já testamos, poderia oferecer a experiência de realidade virtual em museus por um custo mais acessível, utilizando nossos cenários ou outros que venham a ser construídos, inclusive do Brasil.”

Para experimentar Roma 360 e Domus, basta acessar o site do laboratório. Quem sabe num futuro não muito distante ‘viajar no tempo’ e percorrer livremente nossos cenários históricos favoritos seja uma possibilidade ao alcance de todos nós?

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 22/04/2014 17:34

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A saga do homem do campo


Caminhão-museu que percorre o Brasil com exposição itinerante sobre a história da luta pela terra no nosso país chega ao Rio de Janeiro.

A saga do homem do campo

A valorização do homem do campo é um dos temas da exposição itinerante Sentimentos da terra, que ficará aberta ao público até sexta-feira (21/03) na Fundação Oswaldo Cruz. (foto: Bruno Figueiredo)

Há um Brasil que muitos não veem: é o país dos conflitos agrários; das mortes violentas no campo; do sangue derramado em nome do direito à terra. Soa como o datado papo esquerdista dos anos 1980, é verdade. O problema é que a questão agrária – um dos mais profundos dramas históricos de nosso país – continua mal resolvida.

Abordagens as mais variadas fornecem ao visitante uma visão crítica da complexa realidade fundiária brasileira

A velha discussão ganha novo fôlego. Um museu itinerante – montado na carroceria de um caminhão – percorre o Brasil há um ano e leva consigo a história dos conflitos de terra em nosso país. É a exposição Sentimentos da terra.

Abordagens as mais variadas, que vão das artes à geografia, fornecem ao visitante uma visão crítica da complexa realidade fundiária brasileira – do século 16 aos dias de hoje.

O espaço tem um monitor interativo, seis computadores com acesso à internet e uma biblioteca especializada – além de duas salas de cinema, onde são exibidos 11 vídeo-documentários, cuja narração fica por conta dos artistas Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caio Blat, Dira Paes, José Wilker, Letícia Sabatella, Marcos Palmeira, Regina Casé, Vera Holtz e Wagner Moura.

Sala de exibição de documentários
Duas salas de exibição mostram 11 documentários sobre a história dos conflitos de terra no Brasil. (foto: Bruno Figueiredo)

Vale lembrar: a questão agrária, no Brasil, foi tomada por um estigma. Pois a luta pela terra – a despeito de fazer parte de nossa história há tantos séculos – é comumente reduzida e simplificada à militância de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Via Campesina. “Um dos objetivos da exposição é ressignificar a discussão sobre a reforma agrária e desvinculá-la desses preconceitos”, diz a historiadora Pauliane Braga, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ela é uma das coordenadoras do projeto, e ressalta que a exposição Sentimentos da terra não é militância; é pura pesquisa histórica. “Não temos nenhum caráter ideológico ou partidário.”

Na estrada

Nesta semana, o caminhão-museu está no Rio de Janeiro (RJ). Entre hoje (18/03) e sexta-feira (21/03), a exposição – que é gratuita – fica aberta à visitação na Fundação Oswaldo Cruz, ao lado do Museu da Vida.

A próxima parada é incerta. “Mas, ainda no primeiro semestre, pretendemos levar a exposição para o Norte e para o Nordeste do Brasil”, diz Braga. A cidade de Brasília (DF) também é parte do itinerário.

Exposição Sentimentos da terra
Biblioteca, monitor interativo e computadores com acesso à internet foram instalados no caminhão-museu Sentimentos da terra. (foto: Bruno Figueiredo)

Desde que começou sua jornada, em 2013, a exposição itinerante Sentimentos da terra já percorreu boa parte do sudeste brasileiro: Belo Horizonte (MG), Jequitibá (MG), Pouso Alegre (MG), Diamantina (MG), Poços de Caldas (MG), Goiânia (GO), São Paulo (SP), Limeira (SP) e Araçoiaba da Serra (SP).

A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Projeto República, da UFMG.

Na sua cidade
A rota do caminhão-museu Sentimentos da terra pode ser acompanhada pela internet. Interessados em solicitar uma visita a sua cidade podem entrar em contato pelo endereço eletrônico: sentimentosdaterra@gmail.com ou pelo telefone (31) 3409-6498.

 

História de luta

Os infindáveis conflitos de terra do Brasil contemporâneo têm sua gênese no modelo de ocupação territorial adotado no século 16 pela Coroa portuguesa. Foi o marco inicial da concentração fundiária.

Hoje, o termo ‘conflitos territoriais’ adquiriu um significado muito mais amplo. Ele se refere não apenas aos tradicionais embates, por vezes deveras violentos, entre campesinos e latifundiários, ou entre militantes sem-terra e forças repressoras do Estado. O conceito engloba desde impasses demarcatórios de terras indígenas até deslocamentos populacionais em função de megaprojetos governamentais, como, por exemplo, construções de grandes usinas hidrelétricas.

Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – órgão que monitora anualmente a evolução dos conflitos territoriais no Brasil – mostram uma realidade violenta ainda longe do que se poderia considerar aceitável em um país cuja economia está entre as dez mais pujantes da cena internacional.

Confira, no gráfico interativo abaixo, a evolução dos conflitos por terra no Brasil ao longo da última década



Em números absolutos, o número de conflitos tem-se mantido em patamares altos. E o número de assassinatos em nome da terra permanece pouco alterado ao longo da década.

Por trás desses dados, há um cenário crítico: a concentração de terras no Brasil ainda é uma das maiores do mundo. E, segundo muitos estudiosos, nossa realidade fundiária faz vista grossa à própria Constituição Federal – que, no artigo 186, define o princípio da função social da terra. De acordo com a carta magna, uma propriedade rural deve, entre outras coisas, zelar pela preservação do meio ambiente e dos recursos naturais; e promover justas relações de trabalho.

Confira abaixo vídeo sobre a exposição itinerante Sentimentos da terra


Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Publicado por Henrique Kugler - 18/03/2014 18:25

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Raça/cor no Lattes: fomentando o debate


Pesquisadoras da USP defendem iniciativa do CNPq de incluir tal critério na definição do perfil do acadêmico brasileiro. Para elas, os dados colhidos podem contribuir para a conscientização, o estudo e a melhor compreensão de nossa sociedade.

Raça/cor no Lattes: fomentando o debate

Pesquisadoras concordam com a invalidade científica do conceito de raça, mas argumentam que tal constatação não elimina a realidade de uma sociedade altamente radicalizada em suas práticas cotidianas. (imagem: Sxc.hu/ BSK)

Tem causado polêmica a novidade da inserção no Currículo Lattes da pergunta relativa à raça ou cor do/a pesquisador/a. Nosso objetivo aqui é, mais uma vez, incentivar o debate em nossa comunidade e tentar avançar algumas questões envolvidas tanto na introdução do quesito, como na reação que ele vem causando.

Em primeiro lugar, cabe considerar que as opções constante deste item estão perfeitamente de acordo com os parâmetros da auto atribuição que vêm norteando a adoção das políticas públicas de inclusão racial no Brasil dos últimos anos. Além disso, queremos destacar que, embora a resposta ao quesito seja obrigatória, há opção para o pesquisador que não queira assim se caracterizar, bastando-lhe escolher a última alternativa, “não desejo declarar”. Dessa forma, resguarda-se a liberdade daqueles que não concordam com a implementação de uma política de delimitação do perfil sócio-racial do pesquisador brasileiro.

Mas vamos à questão de fundo. Muitos estudiosos têm destacado, acertadamente, o fato de raça não ser um conceito cientificamente válido. Em nosso entender não há dúvidas a esse respeito. No entanto, tal constatação não pode eliminar a realidade de uma sociedade brasileira altamente racializada em suas práticas cotidianas e inclusive no que tange ao acesso ao ensino superior e à pesquisa científica. 

“Se, cientificamente falando, não existem raças, no nosso dia a dia raça surge como um potente marcador social de diferença, delimitando hierarquias sociais, culturais e econômicas”

Julgamos, assim, que, ao lado das investigações que revelam as falácias de um modelo que usou raça de maneira essencial e ontológica (e por isso gerou a prática de determinismos e racismos políticos de toda ordem), é hora de avaliarmos como o desacreditado conceito, baseado em assertivas biológicas há muito ultrapassadas, continua sendo reatualizado e opera socialmente. Se, cientificamente falando, não existem raças – apenas uma, a humana –, no nosso dia a dia raça surge como um potente marcador social de diferença, delimitando hierarquias sociais, culturais e econômicas.

Vale, pois, perguntar se devemos exclusivamente criticar o uso canônico do termo ou se seria importante, igualmente, analisarmos as implicações cotidianas e recorrentes da utilização da categoria raça na prática social, considerando, principalmente, a maneira como esta se inscreve em nossa realidade e, em particular, no contexto universitário brasileiro. Entendido dessa maneira, o termo continua válido e seria preciso avaliar as decorrências da “raça após o racismo”. Falar de raça não significa, em nosso entender, instaurar o racismo ou racializar o cotidiano, o qual, aliás, já se encontra racializado. Falar de raça implica enfrentar o problema sem eufemismos, desvelando as práticas discursivas que pretendem não dizer, dizendo.

O conjunto crítico de livros, ensaios, artigos que faz tempo vêm mostrando o lado perverso do conceito biológico de raça cumpriu e cumpre um papel fundamental no sentido de trazer de volta valores básicos como o universalismo e o humanismo. É por isso que, contando com esses ganhos – com os quais concordamos e nos associamos –, talvez seja o momento de descer também à lógica do particular, das negociações políticas, dos discursos do senso comum que se convertem em práticas socialmente influentes como aquelas desmontadas pelas pesquisas que desnudaram, sem pejas, os perigos do racismo científico. Hoje falamos de novas formas de racismo: o social, o político, aquele que se inscreve nas formas de discriminação mais cotidianas.

Mas voltemos ao documento em pauta. Segundo o CNPq, a adoção do quesito cor/raça encontra-se embasado na Lei 12.228, de 20 de julho de 2010, que instituiu o 'Estatuto da Igualdade Racial', cujo objetivo é combater todas as formas de exclusão e discriminação racial ainda vigentes em nosso país. Tal estatuto vem corroborando outros esforços e ações públicas, especificamente voltadas para a inclusão universitária, na forma do sistema de cotas adotado pelas universidades federais, entre outras políticas de inclusão. A iniciativa do CNPq vem, pois, na esteira dessas políticas e pretende utilizar tais dados como base para a elaboração futura de políticas científicas de inclusão sócio-racial.

É de interesse da comunidade tomar a ‘novidade’ não como resultado, mas como parte de um processo, cabendo a nós o papel de interpelar a instituição sobre os usos desses dados

Na página da instituição consta também que a informação sobre raça será para “uso interno” do CNPq.  Por um lado, fica subentendido que tal dado não será exibido no currículo acessado publicamente, o que significa que não se pretende misturar, na esfera pública, a produção docente com esse tipo de caracterização. Aliás, de maneira coerente, o CNPq também não divulga dados pessoais, como endereço e CPF. Por outro lado, é preciso indagar como esse tipo de informação será efetivamente aproveitado. Enfim, é de interesse da comunidade tomar a 'novidade' não como resultado, mas como parte de um processo, cabendo a nós, pesquisadores, o papel de interpelar a instituição sobre os usos desses dados.

De toda maneira, e em nossa compreensão, não nos parece que o objetivo do CNPq seja incentivar a radicalização do debate, mas antes iluminar uma cena e evidenciar processos de discriminação facilmente observados por todos aqueles que adentram nossos campi universitários. Não é segredo para ninguém que o pesquisador/a brasileiro/a é majoritariamente branco e, por conseguinte, que os quadros de docentes de nossas universidades estão compostos igualmente, e também majoritariamente, por homens e mulheres brancos. É passível de mérito, portanto, que esse tipo de evidência seja veiculado de maneira aberta e debatido no contexto de nossas políticas públicas, para que a comunidade acadêmica brasileira possa refletir acerca das demandas de uma sociedade cidadã, atenta às desigualdades e cada vez mais avessa aos preconceitos.

Diploma
‘Cientistas que somos, é nosso mister produzir pesquisas e dados que possam deixar mais transparentes o perfil econômico, social e por que não racial de nossa comunidade estendida’, defendem pesquisadoras da USP. (foto: Mary Gobe/ Sxc.hu)

Cientistas que somos, é nosso mister produzir pesquisas e dados que possam deixar mais transparentes o perfil econômico, social e por que não racial de nossa comunidade estendida. Não se atropelam iniciativas que visam a melhor conscientização, estudo e compreensão de nossa sociedade antes que elas possam minimamente mostrar suas potencialidades. Desautorizar pesquisas é, à sua maneira, um gesto de obscurantismo. Abertas como são, as investigações, aí sim, poderão se transformar em matéria de análise, escrutínio e avaliação crítica. 

Não se atropelam iniciativas que visam a melhor conscientização, estudo e compreensão de nossa sociedade antes que possam minimamente mostrar suas potencialidades

Tendo em vista tais argumentos, nos colocamos a favor da iniciativa do CNPq que incluiu o critério racial/cor na definição do perfil do pesquisador/a brasileiro/a. Esperamos que a oportunidade retorne à comunidade acadêmica sob a forma de novos desafios pautados em informações e dados eticamente comprometidos com a pesquisa científica sobre o perfil do/a pesquisador/a, da comunidade acadêmica e sobre políticas públicas de inclusão social.


Lilia Schwarcz
Departamento de Antropologia/ Universidade de São Paulo
Global Scholar (Princeton)

Maria Helena P. T. Machado
Departamento de História/ Universidade de São Paulo

Publicado por Lilia Schwarcz e Maria Helena P. T. Machado - 12/06/2013 14:06

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O portão de Plutão?


Arqueólogos italianos podem ter encontrado uma porta para o ‘mundo inferior’, descrita em históricos textos gregos e romanos.

O portão de Plutão?

Uma simulação digital de como seria a recém-descoberta 'Porta do Inferno' nos tempos do Império Romano. O local era rota de peregrinação naquela época. (imagem: Francesco D'Andria)

Cientistas italianos descobriram a porta para o ‘inferno’. Calma, não se trata de um sinal do apocalipse. Na verdade, um grupo de arqueólogos italianos encontrou ruínas de um antigo templo que a tradição romana diz abrigar um portal para o mundo inferior, o hades. 

Segundo registros históricos, qualquer animal que entrasse no local, cheio de um vapor nebuloso e denso, encontrava a morte instantânea 

Segundo escritos de cerca de dois mil anos, esse templo estaria localizado próximo à antiga cidade romana de Hierápolis (perto da atual Pamukkale, na Turquia). Dedicado a Hades (Plutão) e Perséfone (Core), ele abrigaria uma espécie de caverna com vapores altamente mortais, a tal ‘porta do inferno’ – descrita pelo historiador grego Strabo como um local "cheio de um vapor tão nebuloso e denso que dificilmente era possível ver o chão" e no qual "qualquer animal que entre encontra a morte instantânea". 

Lugar bacana, não é? Pois bem, naqueles tempos a cidade estava na rota de muitos peregrinos que circulavam pela região. Conforme o arqueólogo Francesco D'Andria, da Universidade de Salento (Itália), declarou ao Discovery News, a maioria dos visitantes do templo vinha em busca da água da fonte existente no local, capaz de produzir profecias e visões em sonhos – e ainda aproveitava as fontes termais das proximidades

A descoberta do complexo foi feita a partir da reconstrução das rotas para essas fontes. Em meio às muitas ruínas do local, os italianos identificaram um templo dedicado às deidades do hades e evidências arquitetônicas que batem com as descrições históricas. 

Portão de Plutão
O sítio encontrado pelos arqueólogos apresenta características muito semelhantes ao local descrito nos textos históricos. As inscrições indicam um templo dedicado a Hades (Plutão) e Perséfone (Core), senhores do mundo inferior. (foto: Francesco D'Andria)

Fora seu aspecto místico, a letalidade da caverna era quase ‘turística’: os pesquisadores explicam que, apesar de serem proibidos de se aproximar da entrada, os peregrinos assistiam aos ritos dos degraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais. 

Os peregrinos assistiam aos ritos dos degraus e recebiam pequenas aves para serem levadas até a abertura e comprovar os efeitos fatais 

Os sacerdotes também bebiam da água alucinógena e sacrificavam touros em honra a Plutão. Os próprios arqueólogos comprovaram os efeitos dos vapores durante as escavações: diversos pássaros que se aproximaram da abertura quente morriam imediatamente com o vapor tóxico. 

Segundo D'Andria, a descoberta é excepcional por confirmar informações que só existiam em fontes históricas muito antigas. Ele explica que o templo era popular até o século 4 e foi visitado até o século 6. Com o crescimento do catolicismo, no entanto, acabou abandonado – e, posteriormente, destruído por terremotos e intempéries. 

Os pesquisadores trabalham, agora, na reconstrução digital do local. Essa não foi a primeira descoberta polêmica e mística do grupo: dois anos atrás, eles anunciaram ter encontrado, na mesma região, um túmulo que pode ter pertencido ao apóstolo Felipe, um dos doze discípulos de Jesus Cristo, segundo a Bíblia. 

Porta dos fundos?

Saindo um pouco da mitologia e da antiguidade, o nosso mundo já possui outra ‘porta para o inferno’, essa bem mais moderna. Localizada não muito longe dali, na região de Derweze  (ou Darvaza), no Turcomenistão, ela arde em labaredas incandescentes desde a década de 1970. No entanto, muito longe de ser obra de algum deus da antiguidade, esse portão em pleno deserto de Karakum é fruto da ação humana.

Derweze
No deserto do Turcomenistão, uma outra 'porta para o inferno', que nada tem a ver com deuses antigos, mas com a economia moderna. (foto: Wikimedia commons)

No início da década de 1970, a então União Soviética pretendia explorar os ricos depósitos de gás natural da região. Quando o chão abaixo da plataforma de perfuração cedeu, criou um buraco de cerca de 70 metros de diâmetro que liberava gás natural na atmosfera. Para prevenir seus efeitos tóxicos, os geólogos decidiram que a melhor opção seria ‘tacar fogo em tudo’, na esperança de que, em algumas semanas, o reservatório se esgotasse. Resultado: o regime comunista acabou, a União Soviética se esfacelou e o nosso ‘inferno moderno’ continua a arder e a espalhar um forte odor pela região. 

Apesar de nenhum templo ter sido construído e de ninguém sacrificar touros por lá, Darvaza se tornou também uma atração turística – até a tribo que habitava a região foi expulsa de lá em 2004, para não ‘incomodar’ os visitantes. Desde 2010 o governo do país vem buscando formas de fechar a porta ou ao menos limitar a sua influência no desenvolvimento de outros campos de extração de gás natural na região. 


Marcelo Garcia 
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 08/04/2013 17:34

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Uma triste história de fogo e gelo


O naufrágio do Titanic – o senhor dos mares – e a explosão do Hindenburg – o rei dos céus – completam datas históricas em 2012 e lembram ao mundo como tragédias podem mudar a evolução da tecnologia.

Uma triste história de fogo e gelo

O desastre parece estar na natureza dos Titanics: no mar, acabou nas geladas águas do Atlântico; no ar, explodiu em chamas. Os episódios mudaram a história do transporte mundial. (imagem: foto da Marinha dos Estados Unidos / gravura de Willy Stöwer, 1912)

Conforme o conhecimento do homem progride, o mundo parece tornar-se 'menor', em grande parte devido a novos e mais rápidos meios de transporte. O ano de 2012 é marcante para duas tragédias que ajudaram a redefinir os rumos dessa história: em 1912, Jack, Rose e mais 2.238 pessoas naufragavam com o Titanic nas águas geladas do Atlântico. Um quarto de século depois, em 6 de maio de 1937, as chamas consumiram o gigantesco zepelim alemão LZ 129 Hindenburg, o Titanic do céu, pouco antes de seu pouso, nos Estados Unidos.

Uma exposição promovida pelo National Postal Museum, nos Estados Unidos, relembra os detalhes das duas tragédias. No acervo, um mapa inédito, encontrado recentemente, mostra a rota traçada pelo dirigível, orgulho da Alemanha nazista. Além do mapa, a mostra apresenta cartas trazidas pelo zepelim – a atividade de correio pagava grande parte da despesa das viagens.

Confira o vídeo que apresenta detalhes sobre a descoberta do novo mapa e sobre a tragédia do Hindenburg


Numa época em que os aviões ainda não tinham autonomia para cruzar o oceano, os dirigíveis eram os reis dos céus. No Brasil, inclusive, foi construída a primeira base da América Latina capaz de receber as aeronaves, no Recife. Porém, a tragédia do Hindenburg, que matou 36 pessoas, acabou com esse prestígio – já abalado após as inúmeras mortes relacionadas com o uso de dirigíveis na primeira grande guerra. Depois dela, rapidamente os gigantes voadores deixariam de dominar os ares. 

O episódio é tão famoso que chegou a ilustrar a capa do álbum de estreia da banda Led Zeppelin. O nome do grupo tem tudo a ver com dirigíveis: é uma corruptela criada após Keith Moon, baterista do The Who, afirmar que a banda afundaria como um balão de chumbo (lead zeppelin, em inglês). Apesar de tão 'explosivo' como as máquinas voadoras, o Led Zeppelin acabou tendo uma vida bem mais longa que o Hindenburg. 

Capa Led Zeppelin
A capa do primeiro disco da banda inglesa Led Zeppelin exibe a clássica foto do Hindenburg em chamas. O acidente enterrou de vez o prestígio dos dirigíveis.

 

A patrulha do norte

Um quarto de século antes, no dia 15 de abril de 1912, foi o Titanic, senhor dos mares, que conheceu seu fim. Com o centésimo aniversário da tragédia, os destroços submersos passaram a ser protegidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo é impedir a pilhagem e a dispersão dos restos do transatlântico.

Porém, um estudo divulgado recentemente mostra que, em pouco tempo, pode não haver muito o que proteger: bactérias estão devorando as 50 mil toneladas de metal submerso, inclusive uma espécie inédita, Halomonas titanicae

Titanic submerso
Após completar um século submerso nas águas geladas do Atlântico Norte, os destroços do Titanic estão agora sob a proteção da Unesco. (foto: NOAA/Institute for Exploration/University of Rhode Island)

Ao contrário do Hindenburg, a tragédia com o Titanic não acabou com os transatlânticos, apesar de ter deixado 1.514 mortos, bem mais do que o dirigível. Ao invés disso, ajudou a redefinir seus padrões de segurança. Em 1914, entrou em vigor a Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida no Mar (Solas), que estipulava normas de segurança obrigatórias para as embarcações. Logo após o naufrágio, também foi criada a Patrulha Internacional do Gelo (IIP) para vigiar o Atlântico Norte contra icebergs.

A iniciativa já se propôs a pintar os gigantes blocos de gelo, fixar neles radioemissores e até bombardeá-los, sem muito sucesso. Hoje, atua na prevenção e no alerta, compilando dados de satélites, aviões radares e navios que cruzam a área. O perigo ainda existe, mas segundo o IIP desde janeiro de 1959 não é registrado nenhum acidente mortal envolvendo um iceberg.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 07/05/2012 17:55

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Duas vozes, um só cotidiano


Peculiares e complementares, Chico Buarque e Caetano Veloso são vistos há cerca de 40 anos como paralelos da música popular brasileira, da política e da cultura.

Duas vozes, um só cotidiano

Os compositores cantam ‘Você não entende nada’ e ‘Cotidiano’ em 1986, no programa da TV Globo ‘Chico & Caetano’. A primeira interpretação das canções, um momento emblemático da interação entre os dois, aconteceu em 1972, em Salvador. (foto: reprodução)

“Você gosta mais de Chico ou de Caetano?” A pergunta, recorrente nos círculos sociais brasileiros, reflete a imagem dicotômica construída em torno dessas personalidades da música, algo que acontece em proporção bem menor com outros músicos contemporâneos – quantas vezes você já foi perguntado sobre gostar mais de Maria Bethânia ou Gal Costa?

Embora representantes da música popular brasileira, os dois compositores tinham projetos artísticos próprios

Embora representantes da música popular brasileira, os dois compositores tinham projetos artísticos próprios. De um lado, o baiano, com sua música ‘de vanguarda’, roupas extravagantes e empréstimos sonoros de ruídos e guitarras, expressava a necessidade de revolucionar o corpo e o comportamento. Tudo muito sintonizado com a modernidade internacional e os avanços tecnológicos.

De outro, o carioca – com ‘Construção’, ‘Essa moça tá diferente’ e ‘Apesar de você’ – cantava o homem simples do subúrbio, o samba e a política do país. Resistente ao tropicalismo, à cultura do ‘espetáculo’ e à indústria cultural. Defensor das raízes da cultura popular, da bossa nova e de Mário de Andrade.

Mas, então, o que está por trás de tão persistente comparação? A historiadora da Universidade de São Paulo Priscila Gomes Correa decidiu analisar a questão em sua tese de doutorado. Ela partiu das canções de Caetano Veloso e Chico Buarque que falavam sobre o cotidiano para tentar compreender melhor a imagem que opinião pública, imprensa e crítica construíram e reforçaram ao longo dos anos.

“Busquei entender o que esses dois artistas representaram e como influenciaram nossa sociedade e cultura ao longo de suas trajetórias”, explica Correa. Um detalhe: essa relação entre Caetano e Chico, observa a pesquisadora, é própria do Brasil – de nossas mídia e cultura. Na Europa, onde eles também são reconhecidos, compará-los ou mesmo associá-los está longe de ser uma tendência.

Cálice
Caetano (à esquerda) interpreta ‘A volta da Asa Branca’ no Phono 73, festival de música marcado pela crítica à censura. Chico Buarque e Gilberto Gil (à direita) tiveram seus microfones desligados enquanto cantavam ‘Cálice’. (fotograma: reprodução)

Da cultura à política

Para compreender essa tendência no Brasil, Correa não analisou só as letras das canções, mas empreendeu um trabalho minucioso de escuta para observar também voz, musicalidade, figurino e postura em palco. Além disso, resgatou centenas de entrevistas, nas quais os artistas deixaram registrados alguns de seus traços – muitas vezes banais, mas imediatamente associados a suas figuras públicas.

Numa delas, de 1977, Chico reclama da exploração política de sua imagem, em oposição à de Caetano: “Eu permito isto nas épocas de eleição. Agora, não posso permitir que se faça uma exploração política do meu nome para atacar o Caetano Veloso [...] Algumas músicas dele, inclusive neste último disco, têm, nitidamente, preocupações sociais”.

Construção e Araçá-Azul
Discos ‘Construção’, de Chico Buarque, e ‘Araçá-Azul’, de Caetano Veloso. Nos anos 1970, com projetos mais amadurecidos, o primeiro consolida sua imagem de artista ‘resistente à ditadura’ e o segundo, a radicalização do seu tropicalismo. (imagens: reprodução)

Esse tipo de confronto – como Correa chama essa comparação eterna entre as duas figuras – mostra que seus nomes carregam consigo um conjunto de valores já assimilado pelo público. Outro episódio ilustrativo: depois de ser criticado por Caetano, em 2009, o ex-presidente Lula declarou: “Minha resposta a Caetano eu dei ontem à noite, quando ouvi o CD do Chico Buarque”.

Os próprios artistas já se manifestaram sobre essa relação. A historiadora lembra que suas declarações na imprensa eram bastante sugestivas – e iam além da ‘questão’ tropicalista, considerada o cerne da divergência entre os dois. Certa vez, Caetano comentou: “Às vezes penso que minha profissão tem sido perseguir Chico Buarque, mas é uma perseguição amorosa. E tem dado bons resultados já faz muito tempo”.

 

Eu quero que você venha comigo... todo dia

Exemplo desse bom resultado é o diálogo recorrente entre suas obras. Um dos momentos mais emblemáticos dessa interação se passou em 1972, no palco do teatro Castro Alves, em Salvador, onde os dois fizeram uma interpretação conjunta das canções ‘Você não entende nada’ (de Caetano) e ‘Cotidiano’ (de Chico). 

No palco, ambos cantavam a rotina, a repetição, de certo modo a opressão – mas também o desejo de transformá-las

No palco, ambos cantavam a rotina, a repetição, de certo modo a opressão – mas também o desejo de transformá-las. E fundiam seus estilos e letras no trecho que une as duas músicas: ‘eu quero que você venha comigo... todo dia’.

Por outro lado, a realidade apresentada por Caetano em ‘Você não entende nada’ – embora semelhante à de Chico em ‘Cotidiano’ – é cantada sob uma ótica mais crítica, por um personagem mais arredio. Faz referências a produtos industriais (“você traz a coca-cola/ eu tomo”), gestos cotidianos e um desejo (“eu quero que você venha comigo”) que não chega a se concretizar, marcado pela repetição insistente e que se transforma em espera.

É essa espera – como a de ‘Pedro Pedreiro’ – que indica a transição para ‘Cotidiano’. “A longa introdução é na verdade um processo de adaptação do tom”, explica Correa. “Chico subiu o tom para poder acompanhar Caetano.” Na canção de Chico, ainda mais pessimista, a rotina (“todo dia ela faz tudo sempre igual”) oprime o personagem. Ao mesmo tempo, “me calo com a boca de feijão” é a ditadura militar censurando o artista.

Para a historiadora, essa fase artística de ambos é caracterizada por um certo desespero. E o momento de transição das músicas é também, metaforicamente, o ponto de junção entre suas críticas sociais. 

Após percorrer 40 anos de produção artística dos dois músicos, Correa se arrisca a sintetizar: “Se fôssemos esquematizar os percursos artísticos dos dois, encontraríamos predominantemente um indivíduo que percorre as instâncias da cultura rumo à cotidianidade, em Caetano; e outro que percorre os espaços da cotidianidade rumo à cultura, em Chico”. 

Falando ou não a mesma língua, não importa. Mas construindo, juntos, uma representação do Brasil.

No documentário 'Uma noite em 67', Caetano Veloso fala da sensação de "organizar o movimento". Assista.

 


Carolina Drago
Ciência Hoje On-line

Publicado por Carolina Drago - 03/01/2012 17:20

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