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Liberdade às cutias


Vídeo-reportagem da CH On-line acompanha a maior soltura de cutias já feita na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Liberdade às cutias

Estima-se que existam hoje aproximadamente 43 cutias vivendo na floresta da Tijuca. (foto: Sofia Moutinho)

Até 2010, as cutias (Dasyprocta leporina), habitantes naturais da mata atlântica brasileira, estavam extintas numa das maiores florestas urbanas do mundo, o Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. De lá para cá, o cenário mudou graças à atuação de pesquisadores do projeto Refauna, que vêm esporadicamente reintroduzindo esses animais na mata. Atualmente, estima-se que aproximadamente 43 cutias vivam na área do parque.

No final de junho, biólogos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Fundação Parques e Jardins, a Fundação RioZoo e a Fundação Oswaldo Cruz, realizaram a maior soltura de cutias já promovida no parque, libertando 13 animais que viviam em cativeiro. A Ciência Hoje On-line acompanhou esse momento, que, além de instigante, é decisivo para manter a biodiversidade da floresta.

Assista ao vídeo e saiba mais!



Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

 

Assista também ao vídeo da CHC On-line sobre esse assunto.

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Entre a preservação e a loucura


Série fotográfica retrata zoológicos e aviva discussão: eles são peças centrais na conservação da fauna ou ambientes ultrapassados de degradação para os animais?

Entre a preservação e a loucura

A série fotográfica Captive pretende chamar a atenção para a baixa qualidade de vida dos animais nos zoológicos. Os pequenos macacos, como o sagui-da-cara-branca, estão entre os que costumam ficar em pequenas jaulas. (foto: Gastón Lacombe)

Qual a sua sensação quando vai a um zoológico? Essa resposta deve variar bastante de acordo com a instituição visitada, mas em geral os zoológicos despertam sentimentos fortes e até paradoxais – o frisson da proximidade dos animais selvagens muitas vezes contrasta com o estranhamento de observá-los em ambientes artificiais e apresentando comportamentos pouco naturais. Em pleno século 21, o papel dessas instituições é discutido por muitos: os zoológicos são fundamentais para a pesquisa e preservação das espécies? Ou seriam relíquias de tempos passados que deveriam ser aposentadas de vez?

Propositalmente, Captive não inclui ‘bons exemplos’: o objetivo é questionar o lugar dos zoológicos em nossa sociedade e incentivar a reavaliação dessas instituições

É exatamente essa a discussão despertada pela série Captive (Cativos, em tradução livre), que reúne imagens do fotógrafo Gastón Lacombe. O trabalho apresenta registros melancólicos – apesar de belos – das péssimas condições a que animais são submetidos em muitos zoológicos. As fotos foram feitas ao longo dos últimos quatro anos em dezenas de zoos de nove países (Estados Unidos, Canadá, Letônia, Brasil, Argentina, África do Sul, Itália, Sri Lanka e Filipinas). O fotógrafo não identifica as instituições que visitou, pois acredita que o debate deve independer de preconceitos políticos, econômicos ou sociais. 

Propositalmente, Captive não inclui ‘bons exemplos’: o objetivo é questionar o lugar dos zoológicos em nossa sociedade e incentivar a reavaliação dessas instituições. A questão é relevante, em especial pelo fato de denúncias sobre maus-tratos nessas instituições ainda serem, infelizmente, frequentes. Nos últimos anos, por exemplo, podemos citar os casos do ‘Zoo da morte’, na cidade de Surabaya, na Indonésia, do urso polar argentino maltratado Arturo, do zoológico chinês que tentou fazer cachorros se passarem por leões, da instituição na Malásia onde macacos foram encontrados fumando, do parque britânico que vendeu raros filhotes de leão para circos japoneses e do fechamento do centro croata considerado o pior zoo do mundo – entre muitos outros.

Costume antigo, discussão moderna

Os ‘ancestrais’ mais antigos dos zoológicos são as coleções de animais já reunidas há milhares de anos no Egito, na Mesopotâmia, na China e em outras regiões, então símbolos de status de reis e nobres.

“Os zoológicos modernos, acessíveis ao público, nasceram no século 18, mas o bem-estar dos animais é uma preocupação bem mais recente, do início do século 20”, conta o biólogo Cristiano Schetini de Azevedo, da Fundação Zoo-Botânica de Belo Horizonte (MG). “Hoje, os zoológicos são importantes centros de conservação, educação ambiental e lazer, realizam pesquisas em educação, biologia e veterinária e devem seguir normas que garantam a qualidade de vida dos bichos.”

Urso polar
Lacombe não costuma identificar as suas fotos, mas essa do urso polar Arturo, da Argentina, se destacou pela campanha popular em prol da transferência do animal para instalações mais adequadas no Canadá. (foto: Gastón Lacombe)

Em especial no que se refere à conservação, a zoóloga Yara de Melo Barros, presidente da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil (SZB), destaca que os zoos já foram fundamentais para salvar da extinção dezenas de espécies, como o cavalo-de-Przewalski, o condor-da-Califórnia, o bisão-americano, o furão-do-pé-preto e o mico-leão-dourado. “O suporte técnico e logístico dos zoológicos tem contribuído ainda para melhorar o status de conservação de muitos outros animais”, avalia. 

Barros também destaca o poder transformador que enxerga nessas instituições. “Para muitas pessoas, elas são o único meio de acesso à natureza e, portanto, sua maior propaganda, além de ferramenta educacional mais efetiva para falar sobre conservação”, defende. “A ‘mágica’ proporcionada pela visita a um bom zoo pode mudar atitudes, gerar empatia e estimular uma conexão mais sustentável e menos predatória com nosso planeta.”

Barros: “Para muitas pessoas, elas são o único meio de acesso à natureza e, portanto, sua maior propaganda, além de ferramenta educacional mais efetiva para falar sobre conservação”

Muitos, no entanto, pensam de forma diferente. Para a coordenadora da divisão latina da organização não governamental People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), Renée Saldana, os zoológicos ensinam que animais podem passar a vida toda presos em nome do entretenimento. “Os visitantes vagam por lojas e lanchonetes e se detêm apenas alguns instantes numa jaula ou outra – mas, para os animais, esse é o dia a dia”, lembra. “Mesmo no caso de bichos que não podem viver em liberdade, a alternativa mais saudável seriam os santuários de animais sem fins lucrativos, não os zoos.”

Saldana cita o polêmico caso do zoológico de Copenhagen (Dinamarca), que sacrificou uma girafa e quatro leões em saúde perfeita, para falar de falta de respeito à vida dos animais. O zoo dinamarquês não é o único a adotar a eutanásia, em especial no caso de bichos idosos. “Sob o pretexto da preservação, os zoos mantêm espécies que não estão ameaçadas e criam animais para vender mais ingressos”, argumenta. “Não há nada mais atrativo do que filhotinhos, mas animais velhos gastam muito.” 

Recentemente, a Costa Rica anunciou a decisão de fechar todos os zoos públicos do país, libertando ou enviando os animais para santuários – um exemplo louvável, na opinião da ativista. “Se queremos proteger a natureza, deveríamos investir os recursos dos zoológicos na proteção das populações selvagens, combatendo ameaças como a destruição de hábitats, a caça e a introdução de espécies exóticas”, defende. “Não queremos jaulas maiores, mas sim jaulas vazias.”

Tigre
A falta de espaço e de ambientes adequados aumenta o estresse dos animais, baixa sua imunidade e pode levá-los a desenvolver comportamentos neuróticos. (foto: Gastón Lacombe)

Para a presidente da SZB, no entanto, nem sempre há alternativas. “Se considerarmos o ritmo de perda e degradação dos hábitats, a criação de reservas naturais é cada vez menos possível, e não se aplica a qualquer animal, especialmente aos que requerem cuidado intensivo”, observa. “A questão central é fazer com que essas instituições sigam padrões éticos no tratamento dos animais, fundamentais à conservação da natureza.”
 

Mínimo necessário

O ponto é polêmico, mas pelo menos há consenso sobre o fato de que os animais não podem ser vistos como objetos para o entretenimento. “No mundo conectado em que vivemos, será que precisamos expor os animais para diversão?”, indaga-se o fotógrafo Lacombe. “Idealmente, creio que não existiriam mais zoológicos, porém eles não deixarão de existir; então precisamos debater como garantir que propiciem melhor qualidade de vida aos animais e promovam a preservação de nossa fauna.”

Lacombe: “No mundo conectado em que vivemos, será que precisamos expor os animais para diversão?”

A tarefa, no entanto, não é tão simples. Para Cristiano Azevedo, o trabalho de Lacombe evidencia uma precária realidade ainda comum em muitas instituições. Ele elenca características necessárias para um zoológico de qualidade, que passam pela existência de recintos espaçosos e naturalísticos, de equipes qualificadas de biólogos e veterinários e de um programa permanente de enriquecimento ambiental para diminuir efeitos do cativeiro, além da presença de pares reprodutivos, da manutenção de registros dos animais para a criação de planos de manejo e da promoção de programas de educação ambiental.

Apesar de dizer não acreditar na felicidade de animais cativos, Renée Saldana destaca outras condições mínimas que precisam ser atendidas: a ideia principal é simular a natureza e garantir o espaço necessário para cada espécie. “Todos devem ter um ambiente diverso – com vegetação, areia e áreas longe das vistas do público – e que possibilite relações sociais apropriadas”, elenca. “Os animais também não devem sofrer mutilações, ter garras ou dentes arrancados, nem ter contato direto com visitantes ou realizar truques e apresentações.”

O problema, no entanto, é que muitos zoológicos e aquários não seguem essa ‘cartilha’. Nesses casos, a avaliação do bem-estar dos animais, feita com base em parâmetros comportamentais e fisiológicos, como índices de doenças, de sucesso reprodutivo e comparação com indivíduos na natureza, mostra padrões pouco naturais e neuróticos.

Abutre
Grandes aves, como o abutre, precisam de áreas espaçosas, em que possam voar e desempenhar seus comportamentos naturais – mas espaço é um item caro para os zoológicos. (foto: Gastón Lacombe)

“O estresse elevado baixa a imunidade, provoca doenças e comportamentos anormais e até automutilação, algo bastante degradante para os bichos e para o público”, avalia Azevedo. Saldana completa: “Elefantes são isolados por toda a vida, felinos perambulam inquietos, aves mal podem abrir as asas; estamos levando esses animais à loucura.”

Exemplos como o do zoo de Lujan (Argentina), acusado de sedar bichos para que interajam com os visitantes, são apontados como inaceitáveis. O documentário Black Fish, de 2013, também mostrou o efeito de cativeiro, maus-tratos e adestramento em baleias orca. No Brasil, também não faltam exemplos de problemas em zoológicos, como em Niterói, no Rio de Janeiro, onde a instituição foi  fechada e acusada de tráfico de animais.

Barros: “Julgar todos os zoológicos com base em exemplos ruins é uma forma tendenciosa e simplista de ver o problema”

A zoóloga Yara Barros admite a existência de muitos problemas nos zoológicos brasileiros, que ela credita a questões que vão da má administração à falta de recursos, passando pela pouca valorização por parte do poder público. “Uma pesquisa da SZB identificou 106 zoos e 10 aquários no país, mas muitos não constam nas listagens oficiais e não têm registro do número de animais que abrigam”, lamenta a zoóloga. “Das instituições mapeadas, mais da metade é municipal e 81% dessas têm entrada gratuita, são completamente dependentes das prefeituras.”

Barros ainda lembra, por outro lado, que existem exemplos positivos no país, como os zoos de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, e que a discussão deveria se focar nas alternativas para criar mais centros de excelência. Para isso, ela defende a construção de estratégias que envolvam não só os zoos, mas também as entidades ligadas ao repasse de recursos, à normatização e à fiscalização da atividade.

“Julgar todos os zoológicos com base em exemplos ruins é uma forma tendenciosa e simplista de ver o problema”, pondera. “A qualificação dos zoos brasileiros passa pela criação de políticas que auxiliem as mudanças estruturais e a capacitação das equipes, deem mais eficiência às agências de normatização e fiscalização e promovam o comprometimento de cada zoo com o respeito pelas vidas que estão sob sua guarda”, completa.

 

Confira outras fotos da série Captive numa galeria de imagens especial.

 

Marcelo Garcia

Ciência Hoje On-line

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.

 

Publicado por Marcelo Garcia - 25/06/2014 15:15

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Campeões da conservação


Pesquisadores propõem que, para cada gol marcado na Copa do Mundo do Brasil, sejam preservados mil hectares de caatinga, hábitat da mascote da competição.

Campeões da conservação

Durante a Copa do Mundo de 2014, Fuleco ficará internacionalmente conhecido. Cientistas esperam que tamanha exposição ajude a preservar seu hábitat, a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. (foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil – CC BY-SA 3.0)

Você já deve ter ouvido falar do Fuleco. É a mascote da Copa do Mundo de 2014, que está prestes a começar. Ele é um simpático tatu-bola – e seu nome vem da mistura entre as palavras ‘futebol’ e ‘ecologia’.

O personagem foi inspirado em um curioso representante de nossa fauna: o tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus). Trata-se de uma espécie endêmica brasileira que está ameaçada de extinção. E seu ambiente natural, a caatinga, também passa por uma situação que, definitivamente, não é das melhores. Esse bioma, segundo a comunidade científica, está em péssimo estado de conservação.

“Escolheram um animal que está ameaçado para ser símbolo da Copa. Mas por que não usar essa divulgação toda para promover ações de conservação dessa espécie?”, provoca o biólogo Enrico Bernard, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Até agora, o retorno que o tatu-bola-da-caatinga recebeu foi praticamente zero.”

Tatu-bola-da-caatinga
O tatu-bola-da-caatinga (‘Tolypeutes tricinctus’) é uma espécie ameaçada de extinção. (imagem: Wikimedia Commons/ ChrisStubbs – CC BY-SA 3.0)

O pesquisador, em parceria com colegas das universidades federais do Vale do São Francisco (Univasf) e da Paraíba (UFPB), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Universidade Autônoma do México, publicou um recente artigo criticando a falta de ações concretas de conservação da mascote da Copa.

“É uma provocação à Federação Internacional de Futebol (Fifa) e ao governo brasileiro”, diz Bernard. A equipe sugere que a Fifa e o Ministério do Meio Ambiente aproveitem melhor a alta exposição do bicho para ajudar em sua conservação.

Além da crítica

No artigo, os pesquisadores propõem algumas ideias bem práticas. A primeira delas é expandir o sistema de parques e reservas na caatinga. Eles também esperam que o governo acelere a publicação de um plano de conservação para o tatu-bola.

No dia 22 de maio, foi aprovado o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tatu-bola, que prevê a criação de dois parques para proteção da espécie

Outra sugestão, que, segundo os cientistas, não está sendo levada muito a sério, é que fossem honrados os investimentos prometidos para os chamados Parques da Copa. Eram projetos que pretendiam criar unidades de conservação voltadas a atividades turísticas. Seriam parques e reservas naturais – onde se poderiam promover ações turísticas de visitação de modo a atrair tanto brasileiros quanto estrangeiros para conhecer as belezas naturais da caatinga. E não só durante o período da Copa. Futuramente, o turismo nacional poderia se beneficiar dessas novas áreas.

Mas, de fato, a mais audaciosa das propostas dos pesquisadores é a seguinte: para cada gol marcado nos jogos da Copa, seriam protegidos mil hectares de áreas naturais de caatinga. Ou seja: gols resultariam diretamente em novos territórios a auxiliar na proteção do tatu-bola e seu hábitat.

As ideias têm sido amplamente divulgadas e foram enviadas ao Ministério do Meio Ambiente e à Fifa. No dia 22 de maio, como parte de um pacote de ações pelo Dia Mundial da Biodiversidade, foi aprovado o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tatu-bola, que, entre outras medidas, prevê a criação de dois parques para proteção da espécie. “Agora é aguardar para ver se vão honrar mais esse compromisso”, finaliza Bernard.

Gabriel Toscano
Ciência Hoje On-line

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.

 

Publicado por Gabriel Toscano - 12/06/2014 13:41

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Sobrevivente sortuda


No Dia Mundial das Tartarugas, conheça a história de Hofesh, tartaruga marinha que recuperou sua capacidade de nadar graças a equipamento inspirado em avião de guerra.

Sobrevivente sortuda

Encontrada numa praia de Israel com duas patas condenadas, a tartaruga Hofesh agora recuperou sua capacidade de nado graças a nadadeiras artificiais especificamente desenhadas para ela. (foto: Israel's Sea Turtle Rescue and Rehabilitation Center)

Você sabia que 23 de maio é o Dia Mundial das Tartarugas? A data é celebrada pela American Tortoise Rescue para chamar a atenção do mundo para a necessidade de proteger esses répteis tão simpáticos – e, em muitos casos, tão ameaçados. Para marcar a efeméride, vamos contar a história de Hofesh, a tartaruga verde que escapou da morte certa pela ação do Centro de Resgate e Reabilitação de Tartarugas Marinhas de Israel e recebeu implantes tecnológicos especialmente desenhados que devolveram sua mobilidade.

Hofesh foi encontrada jogada numa praia mediterrânea em Israel, em péssimas condições: estava presa numa rede de pesca e suas duas patas esquerdas apresentaram necrose, pela falta de circulação e pela infecção dos ferimentos. “Depois de perder o controle de suas nadadeiras, ela provavelmente sobreviveu apenas flutuando no oceano, pois estava incapacitada de nadar e, ao mesmo tempo, precisava pegar ar na superfície”, conta Orit Friehmann Elad, do centro israelense. “Isso a deixou muito vulnerável aos predadores e provavelmente a teria matado de qualquer forma em pouco tempo.”

Equipamento improvisado
Os pesquisadores chegaram a experimentar alternativas para recuperar a habilidade de nado de Hofesh, mas as soluções improvisadas não funcionaram. (foto: Yaniv Levy/ Israel's Sea Turtle Rescue and Rehabilitation Center)

A única solução encontrada pelos cientistas foi recolher o animal ao seu centro de reabilitação e tratamento, onde ele teve os dois membros amputados, para salvar sua vida. Os pesquisadores chegaram a improvisar um sistema para tentar devolver sua capacidade de nado usando equipamentos de mergulho, mas a solução pecava pela falta de estabilidade e não resolveu o problema. 

Esperança, liberdade e amor

Por quatro anos, Hofesh permaneceu nessa situação, limitando-se basicamente a boiar e, quando ficava nervoso ou assustado por qualquer motivo, acabava afundando numa perigosa espiral e correndo sério risco de se afogar. A história, no entanto, começou a mudar quando Shlomi Gez, um estudante de desenho industrial da Hadassah Academic College, de Jerusalém, ficou sabendo do problema da tartaruga verde e decidiu ajudar: a partir de um projeto que havia elaborado para peixes, ele criou uma barbatana de polipropileno (um plástico durável, flexível e resistente à água) especificamente para Hofesh, desenhada com base no design do caça supersônico F-22 Raptor. 

Amarrada no casco da tartaruga, ela devolveu o equilíbrio ao animal, que pôde enfim nadar mais livremente. “Hofesh ficou muito mais confortável e calmo com o equipamento, já é possível perceber um grande avanço na sua capacidade de locomoção, mesmo tendo recebido a barbatana faz pouco tempo”, conta Elad. 

Tartaruga reabilitada
Já equipado com suas nadadeiras artificiais, Hofesh divide seu tanque agora com Tzurit, fêmea cega de sua espécie. Embora nenhum dos dois possa retornar ao mar, seus possíveis filhotes ganharão a liberdade. (foto: Israel's Sea Turtle Rescue and Rehabilitation Center)

O mais irônico é que, apesar de seu nome em hebraico significar ‘liberdade’, Hofesh jamais poderá retornar à vida selvagem, pois ainda seria presa fácil no oceano. No entanto, ele não viverá sozinho: a tartaruga macho divide seu tanque com uma fêmea da mesma espécie, Tzurit, que ficou cega após um acidente com um barco e também não pode ser devolvida à natureza. Os pesquisadores acreditam que eles podem formar um belo casal – ambos têm cerca de 25 anos, idade aproximada em que a espécie atinge a maturidade sexual. 

“Hofesh e Tzurit já vivem juntos no mesmo tanque e interagem bastante”, conta Elad. “Poderíamos até chamar esse comportamento de um flerte brincalhão, conforme eles se aproximam da sua maturidade sexual”, comemora. Quem sabe um dia seus filhos possam, enfim, retornar ao mar, não é mesmo? Elad conta, ainda, que as duas tartarugas poderão ter a companhia de outros espécimes também preservados pelo grupo, quando as novas instalações do centro forem construídas.

No Brasil
Em nosso país, o projeto Tamar se destaca como um importante programa de conservação das tartarugas marinhas em território nacional. Com bases espalhadas por toda a costa brasileira, o projeto tem sido fundamental na proteção das cinco espécies do animal que vivem em nosso litoral. Suas atividades incluem pesquisa, mapeamento e Projeto Tamarproteção de ninhos, marcação dos répteis, trabalho junto a populações locais e pescadores para auxiliar na preservação, atividades de educação ambiental e divulgação científica em mais de 10 centros de visitação pública em diversas praias do Brasil, entre outras. 

Saindo um pouco dos oceanos, vamos falar sobre as tartarugas terrestres – afinal, hoje também é um dia dedicado à proteção delas! No seco, talvez o maior destaque sejam as tartarugas gigantes de Galápagos. Sobre elas, vale relembrar a morte de George, o solitário, que marcou a provável extinção de uma de suas subespécies, a tartaruga-das-galápagos-de-pinta, e também um estudo que encontrou indicações de que outra espécie do animal, dada como extinta desde o século 19, pode ainda existir escondida nas ilhas do arquipélago equatoriano.
Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.


Marcelo Garcia

Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 23/05/2014 14:27

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Ciência a um toque de distância


Conheça alguns aplicativos para ‘tablets’ e celulares voltados a quem se interessa por temas científicos.

Ciência a um toque de distância

O aplicativo Stelarium permite visualizar o céu noturno e identifica a posição, o nome e a distância de cada astro. (imagem: reprodução)

A moda dos aplicativos para tablets e celulares já atingiu o público que gosta de ciência. Há programas para todos os gostos, da astronomia à biologia, passando pela matemática. Além disponibilizar informações científicas para os aficionados de plantão, os aplicativos podem ser úteis no aprendizado de crianças e até auxiliar na coleta de dados para pesquisas. Confira abaixo uma pequena seleção:

O céu na palma da mão

Você passa muito tempo de cabeça baixa olhando para a telinha do celular? Então esses aplicativos vão te ajudar a erguer a cabeça. Voltados para quem gosta de astronomia e quer passar mais tempo observando o céu, esses programas trazem informações e curiosidades, além de terem um visual muito bonito. Dá pra passar horas só admirando os gráficos.

O programa mostra o céu noturno e possibilita a visualização dos planetas e da posição de estrelas e constelações dos hemisférios Sul e Norte

O Stelarium é um dos mais famosos e mais clássicos dentre os aplicativos de astronomia. Apesar de a versão para celular ser paga, é possível baixar gratuitamente o aplicativo para computador diretamente do site. O programa mostra o céu noturno e possibilita a visualização dos planetas e da posição de estrelas e constelações dos hemisférios Sul e Norte, com informações como o nome e a distância a que está cada estrela.

O 100.000 stars, que, apesar do nome, exibe a representação de 119.617 estrelas, é um guia interativo que permite navegar entre esses corpos celestes usando o mouse e dando zoom na tela. Para visualizar as informações das estrelas, basta clicar em cada uma delas. O programa usa dados e imagens das agências espaciais norte-americana (Nasa) e europeia (ESA) e seu visual, assim como o da maioria dos aplicativos do gênero, é de encher os olhos. Embora tenha sido desenvolvido para o Google Chrome, também é possível acessá-lo em outros navegadores.

Aplicativo 100.000 stars
O aplicativo 100.000 stars permite navegar em meio a 119.617 estrelas representadas na tela, inclusive com ‘zoom’. (imagem: reprodução)

Já o Planetary fica aqui como curiosidade. O aplicativo não traz informações sobre o cosmos, mas organiza a sua lista de músicas do iTunes como se fosse um pequeno universo. Cada estrela é um artista, cada planeta que orbita a estrela é um álbum e cada lua dos planetas é uma música da lista. O visual é bacana e divertido para quem curte astronomia. O aplicativo está disponível gratuitamente para o sistema operacional IOS 4, disponível em aparelhos da Apple, como iPhone e iPad.

Ferramenta educacional

Com o uso cada vez maior das ferramentas tecnológicas na educação, não é de se espantar que se criem aplicativos para ajudar no aprendizado escolar. Esses programas podem ser uma forma divertida de aprender ou relembrar o que nos ensinam na escola.

Um deles é o The Human Body, disponível para o sistema operacional IOS. Seu objetivo é mostrar o funcionamento do corpo humano. Voltado para crianças, o aplicativo tem um visual simples e fácil de entender. Na tela, aparecem o coração, as córneas, o estômago, o intestino grosso e outros órgãos do corpo, que a criança pode ver em ação com as funções do aplicativo e até fazer o boneco soltar pum.

Aplicativo The Human Body
O aplicativo The Human Body mostra o funcionamento do corpo humano. Voltado para crianças, ele pode ajudar no aprendizado escolar. (imagem: reprodução)

Já o aplicativo brasileiro MathYou pretende auxiliar crianças no aprendizado de matemática. Desenvolvido por um menino de 13 anos para uso gratuito em Iphone e Ipad, o aplicativo disponibiliza exercícios voltados para alunos do ensino fundamental. Ele gera diversas equações, desde as mais básicas, como adição, multiplicação, soma e subtração, até as que incluem exponenciação, radiciação, frações ou números negativos. Uma mão na roda para quem precisa de ajuda com matemática.

Da natureza para o celular

Aqueles que se preocupam com a proteção da fauna e querem contribuir com estudos desenvolvidos na área podem baixar o aplicativo brasileiro Urubu Mobile.

Criado para ser um banco de dados sobre animais atropelados em estradas brasileiras, o aplicativo segue uma lógica colaborativa

Criado para ser um banco de dados sobre animais atropelados em estradas brasileiras, o aplicativo segue uma lógica colaborativa: junta informações tanto de pesquisadores quanto de pessoas não especializadas no assunto. Para ajudar, é simples: basta fotografar o animal atropelado usando o aplicativo. Por meio do GPS, o local do atropelamento fica registrado.

Idealizado pelos grupos de pesquisa dos departamentos de ciência da computação, ciências florestais e biologia da Universidade Federal de Lavras (MG), o aplicativo contribui para acrescentar informações às pesquisas e aos registros de animais atropelados, dados ainda escassos no Brasil.

E você, tem alguma dica?

Fernanda Távora
Especial para CH On-line

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Contribuição esquecida


Exposição lembra vida e obra de Fritz Müller, cientista alemão naturalizado brasileiro que ajudou a comprovar a teoria evolucionista de Charles Darwin.

Contribuição esquecida

O cientista alemão naturalizado brasileiro Fritz Müller ajudou a comprovar a teoria da evolução ao coletar provas materiais da seleção natural. (foto: Wikimedia Commons/ Museu de Ecologia Fritz Müller)

A importância da teoria da evolução de Charles Darwin não cansa de ser lembrada, mas alguns detalhes dessa história acabaram ficando esquecidos com o passar do tempo. Foi o que aconteceu com a participação do naturalista alemão Fritz Müller e do Brasil na sua confirmação, fato raramente mencionado até em nosso país.

Para tentar mudar isso, a exposição itinerante Fritz Müller: Príncipe dos observadores está em cartaz no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) até o dia 21 de abril. A mostra, organizada e lançada em 2010 pelo Instituto Martius-Staden, lembra a história e o trabalho deste importante naturalista do século 19 por meio de painéis e de seus objetos de trabalho, como um microscópio e alguns espécimes coletados aqui no Brasil.

No vídeo abaixo, você vai conhecer um pouco mais sobre a história de Fritz Müller e descobrir como ele foi de grande ajuda para confirmar a teoria de Charles Darwin.




Fritz Müller: Príncipe dos observadores
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Quinta da Boa Vista, s/nº
Até 21 de abril; de terça a domingo, das 10h às 17h


Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

Este texto foi atualizado para incluir a seguinte alteração:
A exposição Fritz Müller: Príncipe dos observadores foi organizada e lançada em 2010 pelo Instituto Martius-Stade. (24/04/2014)

Publicado por Isadora Vilardo - 15/04/2014 16:20

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Bom demais para ser verdade?


Técnica ‘revolucionária’ na produção de células-tronco reprogramadas enfrenta polêmica, descrédito crescente e pode ser anulada.

Bom demais para ser verdade?

O que parecia ser uma revolução na área de pesquisas com células-tronco pode se revelar uma nova fraude nesse campo. Mesmo antes do resultado das investigações, autores já pensam em anular sua publicação. (imagem: Marcelo Garcia; original: Haruko Obokata)

Periodicamente, a ciência é sacudida por alguma ideia simples ou procedimento revolucionário, muitas vezes descoberto quase por acaso, e que muda por completo o panorama de alguma área. Em janeiro deste ano, parecia que a pesquisa com células-tronco seria a bola da vez, com a criação de uma nova técnica rápida, barata e eficiente para a produção dessas células progenitoras a partir de células adultas.

Pouco mais de um mês depois, no entanto, o cenário mudou: fracassos na reprodução dos resultados e acusações de plágio lançam dúvida sobre o estudo, que pode ser retratado (anulado) em breve. O episódio – e o debate que gerou entre pesquisadores via internet – parece evidenciar a necessidade e a oportunidade de rever os processos de publicação de artigos científicos.

Rehen: “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”

No fim de janeiro, um grupo de pesquisadores liderados pela bióloga Haruko Obokata, do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, no Japão, publicou na revista Nature uma nova técnica para obtenção de células-tronco pluripotentes (capazes de se transformar em quase qualquer outra célula do organismo) a partir de células adultas. Em vez de complicadas manipulações genéticas, a metodologia de ‘aquisição de pluripotência desencadeada por estímulos’ (Stap, do inglês), desenvolvida em camundongos, se baseava na exposição das células adultas a situações ‘estressantes’, como sua imersão em soluções com pH baixo.

Dada a simplicidade da técnica, logo pesquisadores de todo o mundo começaram a tentar reproduzir os procedimentos de obtenção das chamadas células Stap – e aí começaram os problemas. “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”, avalia o biólogo especializado em células-tronco e colunista da CH On-line Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas o que vimos foi apenas insucesso, inclusive no nosso laboratório aqui no Brasil.”

A questão era preocupante, mas talvez pudesse ser explicada por algum detalhe errado no processo descrito nos artigos. “O problema dos resultados poderia ser resolvido por um simples ajuste na metodologia”, cogita Rehen. “Mas a questão se complicou quando começaram a surgir outras acusações envolvendo plágio e alterações nas imagens publicadas, questões ‘menores’, mas que dilapidaram a credibilidade do estudo.”

A Nature e o centro Riken abriram investigações sobre o caso. Em coletiva de imprensa na última sexta-feira (14/03), o centro japonês divulgou resultados parciais: apesar da confirmação de problemas nos artigos, ainda não há como afirmar se houve conduta antiética ou até se a técnica funciona.

Microscópio quebrado
Ainda não é possível ter certeza se os resultados do estudo estão errados, mas o fracasso internacional na sua reprodução e acusações de plágio e manipulação de imagens pesam cada vez mais contra a combalida credibilidade da pesquisa publicada em janeiro. (foto: Flickr/ Twm™ – CC BY-NC-ND 2.0)

O presidente do Riken, Ryoji Noyori, prêmio Nobel de química em 2001, no entanto, desculpou-se com a comunidade científica pela confusão e garantiu que os pesquisadores serão punidos, se forem culpados. “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”, afirmou.

Noyori: “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”

De acordo com os investigadores, Obokata teria admitido a manipulação das imagens para que parecessem mais atrativas e dito não saber que o ato era inapropriado. Ela e outros coautores já reconheceram falhas no trabalho e disseram estudar a possibilidade de retratar a publicação. Um dos coautores do estudo, no entanto, o norte-americano Charles Vacanti, da Faculdade de Medicina de Harvard, defende os resultados: apesar de reconhecer alguns problemas nos artigos, o pesquisador argumenta que eles não afetariam seus dados e conclusões.

“No caso dos resultados não serem mesmo verdadeiros, é difícil entender o que passou pela cabeça dos autores, pois o procedimento era tão simples que seria facilmente invalidado depois da publicação”, avalia Rehen. O brasileiro fala do final ideal que gostaria de ver para essa história: “Obokata poderia ter preservado parte do procedimento para uma futura publicação com células humanas, mais impactante”, cogita. “Mas se, com toda essa pressão que vêm sofrendo, os autores não revelaram nada ainda, fica cada vez mais difícil acreditar nesse final feliz.”

Toda essa polêmica vem à tona num momento delicado para o Riken: o centro vai dar início a uma pesquisa clínica para tratamento de pacientes com degeneração macular utilizando células-tronco de pluripotência induzida (iPS), geradas pelo método mais usual hoje em dia de obtenção de células-tronco reprogramadas. Uma técnica central do estudo foi desenvolvida por Yoshiki Sasai, um dos coautores dos artigos sobre as células Stap.

Mudanças na publicação da ciência

O episódio lembra bastante outro escândalo na área das pesquisas com células-tronco: a famosa fraude do sul-coreano Hwang Woo-Suk, que anunciou, em 2004, a criação de células-tronco a partir de um embrião humano clonado – trabalho publicado na revista Science que acabou se revelando um embuste. Somente no ano passado a tão aguardada metodologia de clonagem de embriões humanos se tornou uma realidade.

A própria metodologia de Obokata, de tão simples, chegou a ser rejeitada anteriormente por diversas revistas, inclusive a Nature, que negou sua publicação em 2012. “Especialmente por se tratar de uma revista como a Nature, que deveria ter um processo de avaliação dos artigos muito rigoroso, o episódio é uma surpresa bem desagradável”, avalia Rehen. “A questão é que essas revistas vivem de novidade, então por vezes arriscam, na tentativa de publicar grandes descobertas. Não é a primeira vez que isso ocorre e o campo das células-tronco não é o único a sofrer com isso, está apenas em grande evidência, pela expectativa da população e da comunidade científica.”

Talvez o mais interessante no episódio, no entanto, seja a resposta da comunidade científica na internet. No caso de Hwang, os cientistas também não conseguiram reproduzir a sua pretensa técnica, mas, como não havia ainda conexões muito articuladas na rede, demorou muitos meses até a fraude ser confirmada.

Desta vez, a discussão está sendo bem mais rápida e virtual, via redes sociais. O biólogo norte-americano Paul Knoepfler, da Universidade da Califórnia (EUA), por exemplo, pediu em seu blogue que todos os cientistas postassem lá seus resultados com o procedimento, uma espécie de iniciativa de crowdsourcing para verificar se alguém conseguia reproduzi-lo.

Pesquisas com células-tronco
A articulação dos pesquisadores via internet evidenciou rapidamente os problemas da pesquisa: por meio de um blogue, por exemplo, eles puderam postar seus resultados preliminares, que apontavam a impossibilidade de reproduzir o procedimento descrito. (montagem: Marcelo Garcia)

“Esse caso promoveu uma grande ‘reunião de laboratório’ mundial, com vários dos melhores pesquisadores da área reunidos na internet para discutir o problema”, diz Rehen. “Mais do que a decepção pela possível anulação dos resultados, há uma sensação de que o episódio pode ajudar a mudar a forma como se publica e dissemina ciência e a tornar esses processos mais ágeis e transparentes.”

Rehen: Talvez o ideal fosse transformar o processo sigiloso de avaliação dos artigos em algo mais aberto, sem prejuízo ao crédito original

Um dos pedidos de muitos membros da comunidade científica, segundo Rehen, é que a Nature abra os pareceres dos revisores dos artigos de Obokata para o público. “Talvez o ideal fosse transformar esse processo sigiloso em algo mais aberto: o pesquisador faria uma pré-submissão do trabalho para que fosse testado e criticado pelos demais, sem prejuízo ao crédito original”, pondera. “Mas infelizmente essa é uma ideia polêmica e difícil de implementar, o que é quase um contrassenso no mundo tecnológico em que vivemos.”

Seja como for, a novela sobre a técnica revolucionária ainda promete novos capítulos nas próximas semanas. Prepare-se para os eventos emocionantes que podem levar nossos ‘personagens’ a um fim precoce de suas carreiras ou, quem sabe, ao tão sonhado (e nesse momento bem mais distante) prêmio Nobel.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 19/03/2014 14:15

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