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Contribuição esquecida


Exposição lembra vida e obra de Fritz Müller, cientista alemão naturalizado brasileiro que ajudou a comprovar a teoria evolucionista de Charles Darwin.

Contribuição esquecida

O cientista alemão naturalizado brasileiro Fritz Müller ajudou a comprovar a teoria da evolução ao coletar provas materiais da seleção natural. (foto: Wikimedia Commons/ Museu de Ecologia Fritz Müller)

A importância da teoria da evolução de Charles Darwin não cansa de ser lembrada, mas alguns detalhes dessa história acabaram ficando esquecidos com o passar do tempo. Foi o que aconteceu com a participação do naturalista alemão Fritz Müller e do Brasil na sua confirmação, fato raramente mencionado até em nosso país.

Para tentar mudar isso, a exposição itinerante Fritz Müller: Príncipe dos observadores está em cartaz no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) até o dia 21 de abril. A mostra lembra a história e o trabalho deste importante naturalista do século 19 por meio de painéis e de seus objetos de trabalho, como um microscópio e alguns espécimes coletados aqui no Brasil.

No vídeo abaixo, você vai conhecer um pouco mais sobre a história de Fritz Müller e descobrir como ele foi de grande ajuda para confirmar a teoria de Charles Darwin.




Fritz Müller: Príncipe dos observadores
Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Quinta da Boa Vista, s/nº
Até 21 de abril; de terça a domingo, das 10h às 17h


Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

Publicado por Isadora Vilardo - 15/04/2014 16:19

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Bom demais para ser verdade?


Técnica ‘revolucionária’ na produção de células-tronco reprogramadas enfrenta polêmica, descrédito crescente e pode ser anulada.

Bom demais para ser verdade?

O que parecia ser uma revolução na área de pesquisas com células-tronco pode se revelar uma nova fraude nesse campo. Mesmo antes do resultado das investigações, autores já pensam em anular sua publicação. (imagem: Marcelo Garcia; original: Haruko Obokata)

Periodicamente, a ciência é sacudida por alguma ideia simples ou procedimento revolucionário, muitas vezes descoberto quase por acaso, e que muda por completo o panorama de alguma área. Em janeiro deste ano, parecia que a pesquisa com células-tronco seria a bola da vez, com a criação de uma nova técnica rápida, barata e eficiente para a produção dessas células progenitoras a partir de células adultas.

Pouco mais de um mês depois, no entanto, o cenário mudou: fracassos na reprodução dos resultados e acusações de plágio lançam dúvida sobre o estudo, que pode ser retratado (anulado) em breve. O episódio – e o debate que gerou entre pesquisadores via internet – parece evidenciar a necessidade e a oportunidade de rever os processos de publicação de artigos científicos.

Rehen: “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”

No fim de janeiro, um grupo de pesquisadores liderados pela bióloga Haruko Obokata, do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, no Japão, publicou na revista Nature uma nova técnica para obtenção de células-tronco pluripotentes (capazes de se transformar em quase qualquer outra célula do organismo) a partir de células adultas. Em vez de complicadas manipulações genéticas, a metodologia de ‘aquisição de pluripotência desencadeada por estímulos’ (Stap, do inglês), desenvolvida em camundongos, se baseava na exposição das células adultas a situações ‘estressantes’, como sua imersão em soluções com pH baixo.

Dada a simplicidade da técnica, logo pesquisadores de todo o mundo começaram a tentar reproduzir os procedimentos de obtenção das chamadas células Stap – e aí começaram os problemas. “Justamente por ser pouco complexo, não deveria ser difícil reproduzir esse processo”, avalia o biólogo especializado em células-tronco e colunista da CH On-line Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas o que vimos foi apenas insucesso, inclusive no nosso laboratório aqui no Brasil.”

A questão era preocupante, mas talvez pudesse ser explicada por algum detalhe errado no processo descrito nos artigos. “O problema dos resultados poderia ser resolvido por um simples ajuste na metodologia”, cogita Rehen. “Mas a questão se complicou quando começaram a surgir outras acusações envolvendo plágio e alterações nas imagens publicadas, questões ‘menores’, mas que dilapidaram a credibilidade do estudo.”

A Nature e o centro Riken abriram investigações sobre o caso. Em coletiva de imprensa na última sexta-feira (14/03), o centro japonês divulgou resultados parciais: apesar da confirmação de problemas nos artigos, ainda não há como afirmar se houve conduta antiética ou até se a técnica funciona.

Microscópio quebrado
Ainda não é possível ter certeza se os resultados do estudo estão errados, mas o fracasso internacional na sua reprodução e acusações de plágio e manipulação de imagens pesam cada vez mais contra a combalida credibilidade da pesquisa publicada em janeiro. (foto: Flickr/ Twm™ – CC BY-NC-ND 2.0)

O presidente do Riken, Ryoji Noyori, prêmio Nobel de química em 2001, no entanto, desculpou-se com a comunidade científica pela confusão e garantiu que os pesquisadores serão punidos, se forem culpados. “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”, afirmou.

Noyori: “O problema aqui é que temos uma pesquisadora imatura, que coletou enorme quantidade de dados e lidou com eles de maneira muito desleixada e irresponsável”

De acordo com os investigadores, Obokata teria admitido a manipulação das imagens para que parecessem mais atrativas e dito não saber que o ato era inapropriado. Ela e outros coautores já reconheceram falhas no trabalho e disseram estudar a possibilidade de retratar a publicação. Um dos coautores do estudo, no entanto, o norte-americano Charles Vacanti, da Faculdade de Medicina de Harvard, defende os resultados: apesar de reconhecer alguns problemas nos artigos, o pesquisador argumenta que eles não afetariam seus dados e conclusões.

“No caso dos resultados não serem mesmo verdadeiros, é difícil entender o que passou pela cabeça dos autores, pois o procedimento era tão simples que seria facilmente invalidado depois da publicação”, avalia Rehen. O brasileiro fala do final ideal que gostaria de ver para essa história: “Obokata poderia ter preservado parte do procedimento para uma futura publicação com células humanas, mais impactante”, cogita. “Mas se, com toda essa pressão que vêm sofrendo, os autores não revelaram nada ainda, fica cada vez mais difícil acreditar nesse final feliz.”

Toda essa polêmica vem à tona num momento delicado para o Riken: o centro vai dar início a uma pesquisa clínica para tratamento de pacientes com degeneração macular utilizando células-tronco de pluripotência induzida (iPS), geradas pelo método mais usual hoje em dia de obtenção de células-tronco reprogramadas. Uma técnica central do estudo foi desenvolvida por Yoshiki Sasai, um dos coautores dos artigos sobre as células Stap.

Mudanças na publicação da ciência

O episódio lembra bastante outro escândalo na área das pesquisas com células-tronco: a famosa fraude do sul-coreano Hwang Woo-Suk, que anunciou, em 2004, a criação de células-tronco a partir de um embrião humano clonado – trabalho publicado na revista Science que acabou se revelando um embuste. Somente no ano passado a tão aguardada metodologia de clonagem de embriões humanos se tornou uma realidade.

A própria metodologia de Obokata, de tão simples, chegou a ser rejeitada anteriormente por diversas revistas, inclusive a Nature, que negou sua publicação em 2012. “Especialmente por se tratar de uma revista como a Nature, que deveria ter um processo de avaliação dos artigos muito rigoroso, o episódio é uma surpresa bem desagradável”, avalia Rehen. “A questão é que essas revistas vivem de novidade, então por vezes arriscam, na tentativa de publicar grandes descobertas. Não é a primeira vez que isso ocorre e o campo das células-tronco não é o único a sofrer com isso, está apenas em grande evidência, pela expectativa da população e da comunidade científica.”

Talvez o mais interessante no episódio, no entanto, seja a resposta da comunidade científica na internet. No caso de Hwang, os cientistas também não conseguiram reproduzir a sua pretensa técnica, mas, como não havia ainda conexões muito articuladas na rede, demorou muitos meses até a fraude ser confirmada.

Desta vez, a discussão está sendo bem mais rápida e virtual, via redes sociais. O biólogo norte-americano Paul Knoepfler, da Universidade da Califórnia (EUA), por exemplo, pediu em seu blogue que todos os cientistas postassem lá seus resultados com o procedimento, uma espécie de iniciativa de crowdsourcing para verificar se alguém conseguia reproduzi-lo.

Pesquisas com células-tronco
A articulação dos pesquisadores via internet evidenciou rapidamente os problemas da pesquisa: por meio de um blogue, por exemplo, eles puderam postar seus resultados preliminares, que apontavam a impossibilidade de reproduzir o procedimento descrito. (montagem: Marcelo Garcia)

“Esse caso promoveu uma grande ‘reunião de laboratório’ mundial, com vários dos melhores pesquisadores da área reunidos na internet para discutir o problema”, diz Rehen. “Mais do que a decepção pela possível anulação dos resultados, há uma sensação de que o episódio pode ajudar a mudar a forma como se publica e dissemina ciência e a tornar esses processos mais ágeis e transparentes.”

Rehen: Talvez o ideal fosse transformar o processo sigiloso de avaliação dos artigos em algo mais aberto, sem prejuízo ao crédito original

Um dos pedidos de muitos membros da comunidade científica, segundo Rehen, é que a Nature abra os pareceres dos revisores dos artigos de Obokata para o público. “Talvez o ideal fosse transformar esse processo sigiloso em algo mais aberto: o pesquisador faria uma pré-submissão do trabalho para que fosse testado e criticado pelos demais, sem prejuízo ao crédito original”, pondera. “Mas infelizmente essa é uma ideia polêmica e difícil de implementar, o que é quase um contrassenso no mundo tecnológico em que vivemos.”

Seja como for, a novela sobre a técnica revolucionária ainda promete novos capítulos nas próximas semanas. Prepare-se para os eventos emocionantes que podem levar nossos ‘personagens’ a um fim precoce de suas carreiras ou, quem sabe, ao tão sonhado (e nesse momento bem mais distante) prêmio Nobel.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 19/03/2014 14:15

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Cientistas cidadãos


Pesquisadores alistam marinheiros e pescadores em uma força-tarefa para o maior estudo sobre fitoplâncton já feito nos oceanos.

Cientistas cidadãos

O fitoplâncton é a base de toda a teia alimentar nos ecossistemas marinhos. (imagem: divulgação)

Estima-se que a quantidade de fitoplâncton presente nos ecossistemas marinhos esteja diminuindo. A hipótese mais provável é que isso esteja ocorrendo devido ao aumento da temperatura da água nos oceanos – possível consequência do aquecimento global –, que dificulta a obtenção de nutrientes pelos organismos que formam o fitoplâncton e faz com que eles se reproduzam menos.

A queda da biomassa de fitoplâncton nos oceanos provocaria uma redução em cascata de uma série de outras espécies, continuando a afetar até o já depauperado estoque pesqueiro

Ao que tudo indica, o cenário é grave, pois o fitoplâncton é a base de toda a teia alimentar nos ecossistemas marinhos. Ele é composto de organismos com clorofila invisíveis a olho nu que sintetizam matéria orgânica e são carregados pelas correntes marinhas. A queda da biomassa desses organismos nos oceanos provocaria uma redução em cascata de uma série de outras espécies, continuando a afetar até o já depauperado estoque pesqueiro. Além disso, o fitoplâncton oceânico é o maior responsável pela produção do oxigênio atmosférico, graças à fotossíntese realizada por esses organismos.

Na tentativa de aumentar o volume de dados científicos disponíveis – ainda muito escassos – sobre fitoplâncton no mundo e obter um mapa realista da distribuição desses organismos nos oceanos, um cientista inglês criou uma estratégia no mínimo curiosa. O biólogo Richard Kirby, do Instituto de Pesquisas Marinhas de Plymouth (Inglaterra), desenvolveu um método de análise muito simples e convocou a participação de cidadãos comuns na empreitada.

O sistema se baseia no uso de um ‘equipamento científico de análise’, por assim dizer. Trata-se de um simples disco branco, de 30 cm de diâmetro e 200 g, preso a uma corda ou fita métrica. Qualquer um pode produzir seu equipamento – a partir das simples instruções de montagem disponíveis na página do projeto de Kirby na internet.

Equipamento para medir fitoplâncton
Com apenas 30 cm de diâmetro e cerca de 200 g, o equipamento usado para medir a densidade de fitoplâncton na água pode ser montado por qualquer pessoa. (foto: divulgação)

O equipamento mede a densidade de fitoplâncton na água. Basta posicionar-se de costas para o Sol, entre 10h e 14h, e mergulhar o dispositivo no mar até não conseguir mais vê-lo. Anota-se então a profundidade, com o auxílio da fita métrica, e pronto. Análise concluída.

O princípio de funcionamento do aparato é bastante simples. A profundidade a partir da qual não se consegue mais ver o reflexo da luz solar no disco branco indica o quanto a água está turva. Essa turbidez na superfície dos mares deve-se principalmente à quantidade de fitoplâncton na água. Logo, quanto maior a profundidade em que se pode observar o disco, menos turva é a água e, por associação, menor é a densidade de fitoplâncton. Esse método foi inventado em 1865 pelo padre Pietro Angelo Secchi, então consultor científico do Papa.

Aplicativo para smartphoneAs medidas coletadas são registradas em um aplicativo para smartphones, desenvolvido pela própria equipe de Kirby. Com ele, as informações são enviadas automaticamente para o banco de dados do projeto. Se não houver conexão com a internet no momento em que se está embarcado, sem problemas. O programa grava os dados na memória do telefone e procede com a transmissão assim que se conectar novamente à rede.

O aplicativo também envia dados de localização geográfica (latitude e longitude, detectadas automaticamente pelo GPS do telefone). Informações como temperatura da água, fotos e anotações sobre as condições ambientais na hora da coleta também podem ser anexadas.

Vale conferir outras iniciativas científicas que contam com a ajuda da população para coleta de dados. Essa parece ser uma tendência, pelo menos na Inglaterra.

O tal do plâncton
‘Plâncton’ é o nome genérico que se dá a um conjunto de pequenos organismos presentes na água – que, por seu reduzido tamanho, são carregados pelas correntes marinhas. O plâncton é basicamente dividido em fitoplâncton (organismos com clorofila que sintetizam matéria orgânica) e zooplâncton (organismos consumidores de matéria orgânica).


Caetano Dable
Especial para CH On-line

Publicado por Caetano Dable - 27/01/2014 15:16

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O resgate de Alfred Wallace


Documentário de 1983 sobre o naturalista inglês considerado coautor da teoria da evolução pela seleção natural é apresentado ao público brasileiro.

O resgate de Alfred Wallace

Embora Charles Darwin tenha ficado com os créditos pela ideia da seleção natural como força motriz da evolução, Alfred Wallace chegou às mesmas conclusões, de modo independente e na mesma época. (foto: Wikimedia Commons)

Um documentário de 1983, esquecido nos arquivos da BBC. “Nem mesmo os produtores se lembravam da existência desse material”, ressaltou o jornalista Sérgio Brandão, que ajudou a garimpar a preciosidade.

Trata-se da mais completa produção audiovisual já realizada sobre as aventuras de Alfred Wallace (1823-1913), naturalista inglês considerado codescobridor da seleção natural como força motriz da evolução.

A história deu os créditos apenas a Charles Darwin (1809-1882). Mas Wallace, de forma lúcida e independente, chegou às mesmas conclusões a que Darwin chegara, e na mesma época.

“Na história da ciência, isso é bastante comum: dois pensadores podem chegar às mesmas descobertas ou conclusões por caminhos distintos”, lembrou o físico Ildeu de Castro Moreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), admirador assumido do legado de Alfred Wallace.

Acontece que os louros da glória, em geral, também dependem de tramas sociais e políticas.

Nas horas vagas, Wallace era socialista, pacifista, militante político, espiritualista, defensor da justiça social e da reforma agrária

Talvez por isso Darwin – um acadêmico tarimbado e de elevado prestígio na sociedade britânica de então – tenha levado vantagem em relação a Wallace – um sujeito meio ‘alternativo’, que, a duras penas, ganhava a vida vendendo espécimes exóticos para museus londrinos e coleções particulares. Wallace não tinha formação acadêmica. Ainda assim, sua percepção do mundo natural equiparou-se à de Darwin, um dos mais respeitados pensadores do século 19.

Curiosidade: nas horas vagas, Wallace era socialista, pacifista, militante político, espiritualista, defensor da justiça social e da reforma agrária. Pode-se dizer que foi, também, um protótipo de ambientalista. Ele defendeu, num tempo em que nem se falava nisso, a preservação de uma área de florestas naturais nos arredores de Londres – território que estava prestes a ser devastado para dar espaço a loteamentos habitacionais.

Wallace, o cientista

O documentário que narra sua aventura fatídica – The forgotten voyage (algo como A viagem esquecida) – nunca fora exibido no Brasil. No domingo passado (24/11), pela primeira vez, uma versão legendada em português foi apresentada ao público. A sessão aconteceu no auditório da Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro (RJ), integrando a agenda da mostra Ver ciência.

“Esse documentário é inédito no Brasil, mas já faz uns 10 anos que o material está disponível no YouTube, em inglês”, lembrou um rapaz que assistia à sessão.

Veja na íntegra o documentário The forgotten voyage: Alfred Russel Wallace and his discovery of evolution by natural selection (em inglês)



Após a exibição do filme, Moreira e Brandão convidaram o público a trocar uma ideia sobre o universo de Wallace – especialmente sobre sua relação com Darwin.

Surpreende o grau de cordialidade e respeito entre ambos – que tinham tudo para nutrir uma inimizade ferrenha baseada em competição e vaidade; no entanto, tornaram-se grandes amigos e manifestavam admiração mútua pelo trabalho um do outro.

Antes de morrer, aliás, Darwin realizou um gesto de grandeza moral: sabendo das pendengas financeiras em que Wallace se via enredado ao longo da vida toda, solicitou que o governo britânico concedesse a ele uma pensão vitalícia.

Divergências à parte

Interessante lembrar que, apesar de ambos terem inferido o mecanismo da seleção natural, eles nem sempre concordaram em tudo – naturalmente. Wallace, ao contrário de Darwin, não acreditava que a teoria da evolução pudesse explicar o homem em sua totalidade.

Segundo Wallace, a seleção natural poderia explicar a evolução do ser humano enquanto animal, mas não poderia dar uma resposta completa sobre a natureza da consciência

Para ele, era relevante o problema da consciência – o que o torna um pensador deveras sofisticado para seu tempo. Segundo Wallace, a seleção natural poderia explicar a evolução do ser humano enquanto animal, mas não poderia dar uma resposta completa sobre a natureza da consciência. “Essa reflexão se baseava no lado espiritualista de Wallace”, lembrou Moreira.

O resgate do legado de Alfred Wallace tem recebido atenção especial em 2013, ano em que memoramos o centenário de seu falecimento.

Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Publicado por Henrique Kugler - 27/11/2013 16:05

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Sobre animais, ética e ciência


Polêmica remoída, a experimentação animal sempre desperta contendas acirradas. Atos recentes de grupos que defendem os direitos dos animais trouxeram o debate novamente à tona.

Sobre animais, ética e ciência

Se as regras forem seguidas à risca, cientistas devem se esforçar ao máximo para que animais não sofram – ou sofram o menos possível – durante experimentos científicos. (foto: Novartis AG/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Qualquer ser humano com os miolos no lugar é avesso à ideia de maltratar um animal – seja ele qual for. E cientistas, ao que tudo indica, são seres humanos. Logo, eles próprios devem repudiar atos causadores de sofrimento a seres inocentes e indefesos.

Nos últimos dias, no entanto, o uso de animais em pesquisas científicas voltou a ser fortemente repudiado por grupos defensores dos direitos dos bichos. Acirrados debates acerca desse polêmico tema pululam na esfera pública.

Onde estará o ponto de equilíbrio que norteará os valores éticos e morais de nosso desenvolvimento científico?

Mas cuidado: um falso maniqueísmo tem sido propalado por contendores desavisados e desinformados. Alega-se que, de um lado, existem cientistas perversos – que, em seus jalecos brancos impessoais ofuscados pela sedução do progresso científico, seriam insensíveis ao sofrimento da bicharada. E, no extremo oposto, estariam militantes inoportunos – estereótipos de bicho-grilo e defensores de causas perdidas, vegetarianos ou não, que prezam por uma ética universal sem se dar conta de que as próprias vacinas que tomaram quando bebês foram testadas em bichinhos fofos que hoje defendem e querem libertar.

Não é raro toparmos com esse tipo de generalização falha. Mas tanto cientistas concordam que o sofrimento animal deve ser evitado ao máximo; quanto militantes e afins entendem o fato de que a ciência, além de prezar pela ética, muitas vezes depende desses experimentos para seguir em frente.

A questão é: onde estará o ponto de equilíbrio que norteará os valores éticos e morais de nosso desenvolvimento científico?

Ponderações

“No Brasil, todo laboratório que trabalha com esse tipo de pesquisa deve ter uma comissão de ética para garantir o bem-estar dos animais”, explica o médico Hugo Faria Neto, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A instituição, aliás, divulgou uma nota pública externando sua posição. O mesmo fez a Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), que publicou uma carta aberta em seu sítio. A Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência também se manifestaram sobre os recentes atos contra a experimentação animal.

Fato é que laboratórios precisam seguir rigorosas normas para que, em todas as fases das pesquisas, seja garantido o bem-estar dos bichos. E, sempre que possível, pesquisadores buscam métodos alternativos para evitar o uso de animais. Por exemplo: eles podem utilizar culturas de células, tecidos e mesmo programas de computador para simular os processos biológicos que querem estudar. “Somente em último caso recorre-se ao uso de animais”, diz Faria Neto. “E, quando isso acontece, eles devem ser muito bem tratados.”

Gato em experimento
Os cientistas devem evitar causar qualquer tipo de sofrimento desnecessário aos animais usados em pesquisas. E, quando for preciso submetê-los a procedimentos mais delicados, os animais devem estar sob efeito de anestésicos ou analgésicos. (foto: PETA)

Se as normas forem seguidas à risca, os animais de laboratório são criados sob condições rigorosas: alimento de qualidade; água fresca em abundância; locais bem higienizados; até mesmo detalhes como temperatura e iluminação são ajustados pensando no bem-estar deles.

“Se algum procedimento mais delicado for necessário, eles deverão estar sob efeito de anestésicos ou analgésicos”, conta o médico da Fiocruz. “É preciso evitar qualquer tipo de sofrimento desnecessário.”

Nem éticos, nem hipócritas

É desgastante lembrar que novos tratamentos, remédios e curas dependem em grande parte de trâmites que envolvem experimentação animal. Igualmente enfadonho é dizer que certos valores éticos e morais são inquebrantáveis e imprescindíveis para a dignidade da condição humana. Somados esses dois fatores, estão lançadas as bases de um infindável debate.

Faria Neto: “Nos últimos vinte anos, houve diminuição significativa do uso de animais em experimentos científicos”

Para muitos, a questão não é 'se' devemos ou não parar de utilizar animais em experimentação. E sim 'quando' e 'como' esse passo será dado. “Nos últimos vinte anos, temos avançado muito nessa questão; houve diminuição significativa do uso de animais em experimentos científicos”, conta o pesquisador da Fiocruz. A tendência, segundo ele, é usarmos cada vez menos animais nas pesquisas.

Faria Neto destaca ainda a necessidade de diferenciar a pesquisa médica daquela que visa ao desenvolvimento de novos cosméticos. E pondera: “Antes de usarmos um animal, devemos sempre nos perguntar qual é a real relevância daquela pesquisa para a sociedade.”

Para se aprofundar nessa delicada questão, confira o artigo ‘Experimentação com animais: uma polêmica sobre o trabalho científico’, publicado na CH 231, de outubro de 2006.


Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.

Publicado por Henrique Kugler - 28/10/2013 18:10

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Corpo humano, passado e futuro


Espaço interativo mineiro aposta na tecnologia para promover uma imersão futurística pelo nosso organismo, enquanto exposição carioca resgata um acervo histórico de grande relevância para a patologia e a ciência nacionais – uma viagem pela complexidade humana.

Corpo humano, passado e futuro

Espaço interativo mineiro é um convite a uma viagem futurística pelo corpo humano. (foto: Márcia Vasconcelos)

O complexo organismo humano é, sem dúvida, um amplo campo para a investigação científica e também um ‘parque de diversões’ a ser explorado com criatividade pelos divulgadores. É o que mostram um novo espaço de ciência mineiro e uma exposição em cartaz no Rio de Janeiro, que nos convidam a uma viagem pelo passado, presente e futuro. A mostra carioca resgata um precioso material sobre patologia e anatomia, que ajuda a contar a história da ciência nacional desde o início do século 20. O museu de Minas Gerais utiliza tecnologias desenvolvidas no Brasil para tratar de cada componente do nosso organismo, numa futurística e interativa viagem. 

O sucesso da página virtual do Museu da Patologia foi determinante para a criação da exposição, cujo conteúdo foi, inclusive, escolhido por votação na internet

No Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) abriga a mostra ‘Corpo, Saúde e Ciência: o Museu da Patologia do Instituto Oswaldo Cruz’, que apresenta fotos, desenhos, peças anatômicas, documentos e instrumentos médicos raros utilizados desde o início do século passado. A maior parte dos itens integra o acervo do museu homônimo, criado em 1903. 

“A mostra ilustra a história dessa coleção, que pode ter chegado a mais de 40 mil peças, mas foi desmantelada no regime militar”, afirma Bárbara Dias, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e uma das curadoras da exposição. “São registros anatômicos únicos de doença de Chagas, carcinomas e alterações pulmonares e hepáticas, trabalhos de importantes cientistas brasileiros.” 

O acervo tem, hoje, 850 peças e pode ser acessado via internet. O sucesso da iniciativa on-line foi determinante para a criação da exposição – seu conteúdo foi, inclusive, escolhido por votação na plataforma. Além desses itens, a exposição ainda conta com peças cedidas por outras instituições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Na mostra, os visitantes podem conhecer a relação próxima entre anatomia e arte – Dias lembra que, antes de se configurar como ciência, muitos artistas se interessaram pelo interior do corpo humano, como Leonardo da Vinci. “As peças histológicas atuais de grande beleza estética também em exposição ilustram que essa relação nunca acabou, apesar de arte e ciência serem, hoje, campos separados.”

Peças anatômicas
Pulmão com metástase e coração com cardiopatia chagásica, peças anatômicas históricas que integram o acervo do Museu da Patologia. (foto: IOC/ Gutemberg Brito)

A programação também inclui atividades lúdicas, como um quebra-cabeça com órgãos do corpo e a extração do DNA de frutas. Além disso, algumas áreas da mostra contam com QR Codes, códigos que, ao serem lidos com o celular, direcionam o visitante para conteúdos aprofundados na internet. 

A exposição fica em cartaz na Fiocruz até o fim do ano, mas a expectativa de Dias é conseguir um espaço permanente para a visitação do acervo do museu em breve. A iniciativa também integra as atividades de comemoração do ano Brasil-Alemanha, já que um dos pesquisadores fundamentais para a criação do museu do IOC, Rocha Lima, estudou naquele país com discípulos de Rudolph Virchow, pai da patologia, e foi essencial para a boa relação do instituto com instituições alemãs no início do século.  

Corpo digital 

De volta para o futuro, adentramos um museu de grandes novidades. É o Espaço Interativo de Ciências da Vida, inaugurado no início do mês no Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais. A iniciativa também tem como tema o corpo humano e aposta na tecnologia para promover uma viagem interativa por nosso organismo. Dividida em oito salas, cada uma correspondendo a uma parte do corpo, ela investe alto em jogos, atividades, vídeos e animações para atrair a atenção do público.  

Fernandino: “Os jovens de hoje têm enorme familiaridade com o universo digital, temos que usar isso para promover a ciência”

Na sala sobre o movimento, por exemplo, sensores com tecnologia kinect – a mesma utilizada pela Microsoft no video game Xbox 360, que faz a leitura dos movimentos do jogador e os transporta para o jogo – avaliam o equilíbrio e a potência dos saltos do visitante, representados por avatares em uma tela.

Na ala dos sentidos, com movimentos de braços é possível misturar e decompor os sons de sua própria fala. E, no espaço sobre reprodução, é possível apostar uma corrida de espermatozoides. Tudo isso, é claro, acompanhado por outras atrações lúdicas, como identificar objetos apenas pelo tato ou olfato. Há ainda uma área especialmente pensada para deficientes visuais. 

A intenção dos pesquisadores era importar atrações eletromecânicas para compor o museu. No entanto, devido aos altos custos, eles optaram por desenvolver suas próprias atrações interativas digitais. “Tínhamos muitas ideias e pessoal capacitado para transformar isso em atrações divertidas, utilizando sensores de movimento e outras tecnologias que não são tão caras, o que se mostrou muito mais interessante”, avalia o idealizador e coordenador do projeto, Fabrício Fernandino. “Os jovens de hoje têm enorme familiaridade com o universo digital, temos que usar isso para promover a ciência; ainda mais porque a interação também favorece a retenção do conhecimento.” 

Espaço interativo
O novo espaço interativo da UFMG apresenta o organismo humano e convida os visitantes a explorar seus próprios corpos, seu equilíbrio e seus sentidos. (foto: Márcia Vasconcelos)

Segundo Fernandino, os investimentos totais na estrutura e em equipamentos foram da ordem de 1,5 milhão de dólares – verbas obtidas junto à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e à Fundação Lampadia. Os pesquisadores pretendem replicar essa experiência em outros locais. “Temos alguns ótimos museus de ciência no Brasil, mas nenhum com esse tipo de tecnologia”, avalia. “Estamos preparando duas publicações, uma com características mais artísticas e outra mais científica, que poderão orientar outras instituições, além de estudar possibilidades de parcerias com outras universidades para reproduzir o projeto.”

O espaço interativo já conta com uma parceria para a formação de professores da rede pública, o que pode ajudar a complementar o ensino em sala

O espaço interativo já conta com uma parceria, iniciada em agosto, com o governo estadual para a formação de professores da rede pública – uma semana por mês será dedicada apenas à recepção dos docentes. “Eles terão a oportunidade de aprender tudo sobre as instalações e os temas abordados em cada atração e atividade”, explica o idealizador e coordenador do projeto. “Assim, poderemos ajudar a complementar o ensino em sala e também orientar atividades que eles possam desenvolver com os alunos no próprio museu.” 

Se você mora ou está de passagem por alguma das duas cidades, sem dúvida vale embarcar nessa viagem pelo organismo humano!

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Publicado por Marcelo Garcia - 20/09/2013 16:44

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Biodiversidade marinha


Museu Oceanográfico Univali passa a abrigar a segunda maior coleção de peixes cartilaginosos do mundo.

Biodiversidade marinha

Pesquisadores da Univali mostram algumas espécies do acervo do Museu Oceanográfico. (foto: Divulgação/ Univali)

O Museu Oceanográfico da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), localizado em Balneário Piçarras, no litoral norte de Santa Catarina, passou a abrigar a segunda maior coleção de tubarões, raias e quimeras do mundo. A instituição chegou à vice-liderança no ranking depois de receber cinco mil peças de peixes cartilaginosos do Núcleo de Pesquisa e Estudo em Chondrichthyes (Nupec), que já abrigava a antiga coleção do Instituto de Pesca de São Paulo (Ipesca) e recentemente fechou sua sede.

Com a integração dos acervos, o museu tem agora 12 mil exemplares, entre espécies raras que ocorrem na costa brasileira e animais de outras regiões do globo. A coleção supera em quantidade amostras seculares de cidades como Londres, Paris e Nova Iorque e só fica atrás do Museu Nacional dos Estados Unidos, com sede em Washington.

Segundo o geógrafo da Univali Jules Soto, curador geral do museu, um dos maiores destaques do novo acervo é o tubarão mangona-negra (Odontaspis noronhai). “Dessa espécie, que é raríssima, apenas três exemplares estão expostos em museus do mundo todo”, diz Soto. “Agora um deles está no nosso museu”, orgulha-se o geógrafo.

Mangona-negra
Exemplar de mangona-negra (‘Odontaspis noronhai’), espécie rara de tubarão, pertencente à Univali. O animal foi capturado no início da década de 1980 na costa sul do Brasil. (foto: Jules Soto)

Com barbatanas pretas – em alguns casos a nadadeira dorsal tem a ponta branca – e o focinho pontudo, o mangona-negra ocorre em diferentes regiões do oceano Atlântico e pode ser encontrado no sul do Brasil. O macho chega a medir até 3,6 m, e a fêmea, 3,3 m.

Exposição e pesquisa

As peças de maior notoriedade serão agregadas a outras já em exposição no museu. Antes da montagem dos módulos, os exemplares vão passar por processos de revisão, higienização e acomodação.

Todo o material será disposto de uma forma que leve o espectador a passar por todo o museu. “Assim, ele não perde nenhuma atração”, comenta o curador. A previsão é de que o trabalho de organização do acervo esteja concluído em julho próximo. 

Acervo do Museu Univali
Parte do acervo do Museu Oceanográfico Univali, que passa por processo de organização. (foto: Divulgação/ Univali)

O principal objetivo da nova coleção, de acordo com Soto, é dar ao pesquisador condições de realizar estudos em áreas como anatomia, sistemática e biogeografia. A análise das peças pela comunidade científica deverá, segundo ele, ampliar o conhecimento sobre tubarões e raias encontrados no Brasil. “Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”, avalia.

“Essa coleção é o maior testemunho da biodiversidade brasileira nesse grupo zoológico”

Além da ampla coleção de peixes cartilaginosos, o Museu Oceanográfico Univali abriga também 89 mil peças de conchas, 708 lotes de mamíferos marinhos (baleias, golfinhos, focas, lobos e leões-marinhos) e 644 lotes de tartarugas-marinhas.

Clique aqui para ler o texto que a Ciência Hoje das Crianças publicou sobre esse assunto.

Marina Sequinel
Ciência Hoje On-line/ PR

Publicado por Marina Sequinel - 17/05/2013 15:50

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