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Plantar ignorância

Publicado em 23/09/2010

Físico defende em artigo que a ignorância associada à religião deve ser exposta – e não escondida – nas revistas científicas. A arma para combatê-la? Debatê-la.

Plantar ignorância

A ignorância é maior quando não temos possibilidade de combatê-la. É esse o pensamento do cientista norte-americano Lawrence M. Krauss (foto: Cia de Foto / CC BY-NC 2.0).

O renomado físico norte-americano Lawrence M. Krauss, da Universidade do Estado do Arizona (Estados Unidos), tem se destacado não só por sua pesquisa teórica, mas também por ser severo crítico da ignorância – palavras dele – promovida pela religião.

Nos Estados Unidos, só 45% das pessoas acreditam que os humanos se desenvolveram de espécies anteriores de animais

Publicou recentemente, na Scientific American, belo comentário sobre a estranha atitude da Fundação Norte-americana para a Ciência (NSF, na sigla em inglês) de retirar, de um tradicional questionário bienal, questões que contrapõem religião e ciência.

Na verdade, conta Krauss, as perguntas da seção foram feitas, mas não divulgadas. Porém, as respostas parecem ter vazado para a revista Science, que publicou um quadro geral sobre elas.

Exemplos: nos Estados Unidos, só 45% das pessoas acreditam que os humanos se desenvolveram de espécies anteriores de animais (78% no Japão; 70% na Europa; 69% na China; 64% na Coreia do Sul). Cerca de um terço dos adultos norte-americanos crê que o homem e outros seres vivos sempre existiram na forma que têm atualmente.

Questionário revelador

Krauss comenta que o questionário da NSF tem mostrado, com mais intensidade nos últimos anos, que os adultos naquele país estão menos desejosos em aceitar, por exemplo, a evolução e o Big Bang como fatos, quando comparados a adultos de outros países. 

A atitude de ‘esconder’ como a religião semeia ignorância é (ainda) tabu

Poderia ser mais uma crítica ao modo como pessoas religiosas são levadas, por suas crenças, a escolher entre mito e realidade. Mas o físico teórico espeta também a própria NSF, alegando que a atitude de ‘esconder’ como a religião semeia ignorância é (ainda) tabu.

Ele finaliza o comentário relatando outros conflitos recentes entre essas duas searas: uma freira excomungada por um bispo no Texas porque autorizou o aborto de uma mulher de 27 anos, mãe de quatro filhos, que corria risco de morte caso seguisse com a gravidez.

Sobram, para o religioso, palavras duras: “Geralmente, um homem que, sem piedade, deixa uma mãe morrer e torna os filhos dela órfãos deveria ser chamado monstro; e isso não deveria ser diferente porque ele é um clérigo”.

Outro conflito: um candidato do Alabama que, depois de ser atacado pela União Estadual dos Professores pelo fato de defender o ensino da evolução, negou ter apoiado a inclusão do tema em sala da aula, por temer por seu futuro político.

“Se não estivermos dispostos a denunciar a ignorância religiosa em qualquer lugar em que ela surja, encorajaremos políticas públicas irracionais e promoveremos a ignorância em detrimento da educação de nossas crianças."


Cássio Leite Vieira

Ciência Hoje / RJ

[Publicado originalmente na CH 274, na seção Mundo de Ciência]

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