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Alô, Professor / Intervalo

'Eureca' na sala de aula

Deixar que os alunos aprendam por meio de descobertas: eis a essência do método de ensino criado há um século pelo inglês Edward Armstrong, que um físico brasileiro propõe resgatar.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 09/09/2010 | Atualizado em 09/09/2010

'Eureca' na sala de aula

O químico e educador Henry Armstrong dizia que a ciência tem de ter alguma relação com a vida do aluno. Era o aprendizado por obsevação, experiência e raciocínio.

Você, professor e cientista, já deve ter lido e ouvido falar sobre o método heurístico na ciência. Mas não se assuste com o termo difícil caso nunca tenha topado com ele.

Etimologicamente, heurística significa a 'arte da descoberta' (a raiz é a mesma que encontramos na interjeição eureca!). Em ciência, a palavra é usada para designar o conjunto de métodos que levam à descoberta e à invenção. Não estamos distantes, portanto, do empirismo e da experiência.

A sala de aula seria lugar para experimentar, conhecer com os erros e acertos

Pois bem: o método heurístico se aplica também à educação. Essa semente foi plantada há mais de um século por um químico e educador inglês – pouco conhecido, podemos dizer – chamado Henry Edward Armstrong (1848–1937).

Sua ideia: a sala de aula seria lugar para experimentar, conhecer com os erros e acertos.

No dicionário Houaiss, há uma definição simples e precisa do que seria a heurística no ensino: "método educacional que consiste em fazer descobrir pelo aluno o que se lhe quer ensinar".

Com a heurística, Armstrong tentou convencer a Inglaterra do início do século 20 a mudar a forma de se ensinar ciência. A aprendizagem deveria ser por meio de descobertas, e não por fórmulas que não se relacionariam diretamente com a vida do aluno.

Foi bem-sucedido, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, onde suas ideias também chegaram. Com a guerra e com a velocidade que o mundo impôs às pessoas, porém, a prática de ensino de Armstrong foi superada por uma educação mais técnica e imediatista. A heurística, nas escolas, era uma utopia.

O químico inglês defendia o aluno-professor, que podia – e devia – ser uma espécie de descobridor original. Muitos o criticaram por essa ideia. Os defensores das teorias educacionais do filósofo alemão Johann Friedrich Herbart, por exemplo, acreditam mais na instrumentalização do indivíduo e, portanto, na essencial presença de um professor para formar o estudante.

Armstrong hoje

A heurística no ensino, tal como proposta por Armstrong, perdeu força na segunda metade do século 20. Alguns de seus métodos, no entanto, nunca foram abandonados. O químico e educador inglês deixou marcas. Quando se critica o ensino de ciências baseado apenas na teoria, muito se deve às suas proposições.

O Alô, professor encontrou um físico e educador brasileiro que pesquisa a obra de Armstrong e escreveu um artigo sobre o educador. Publicado ano passado na revista Física na Escola, o artigo [PDF] de Arthur Galamba joga luz sobre a desconhecida biografia do químico.

Em uma passagem do artigo, Galamba diz:

O curso de química de Armstrong exigia do aluno muita prática de laboratório, com o objetivo de ilustrar o método científico através da observação, experimento e raciocínio com a ajuda de hipóteses, mas não perdia a ligação com questões da vida cotidiana, isto é, se preocupava em utilizar situações que faziam parte da experiência do estudante.

Galamba, que hoje mora na Europa e divide seu doutorado em ciências sociais entre as universidades de Leeds (Inglaterra) e Nova Lisboa (Portugal), conversou com a CH On-line sobre a importância de se resgatar alguns preceitos de Armstrong.

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, o físico brasileiro de 34 anos explica por que o método heurístico pode ajudar a formar o cidadão que queremos ajudar a construir em nossas escolas.

CH On-line: O que o motivou a escrever um artigo sobre um método de ensino?

"Ter tido uma melhor compreensão dos diferentes propósitos do ensino de ciências e dos métodos de ensino associados a eles mudou minha vida"

Arthur Galamba: Durante todo o tempo em que ensinei nas escolas, ensinei com muito amor e determinação. Tentei inovar, animar, construir etc. Entretanto, eu sempre tive muito pouco conhecimento sobre os diferentes momentos que o ensino de ciências viveu em sua história.

Esses momentos sofreram influência das inovações sobre os métodos de ensino que apareciam e da reflexão sobre os propósitos, os objetivos, do ensino de ciências para a formação geral, isto é, cultural, dos alunos. Ter tido uma melhor compreensão dos diferentes propósitos do ensino de ciências e dos métodos de ensino associados a eles mudou minha vida.

No artigo, você trata da importância do laboratório e do método heurístico em sala de aula. Na sua opinião, qual seria a vantagem e desvantagem desse método?

A exposição do método heurístico que fiz não indica que esta é a solução para o nosso ensino. Este método é apenas mais um entre muitos. O que quis fazer foi trazê-lo para o conhecimento do professor e, quem sabe, incentivá-lo a aprofundar seus conhecimentos neste e e em outros métodos.

"Qualquer método de ensino livresco em sala de aula é um verdadeiro crime a qualquer nível de compreensão do que é ciência"

Apesar de todas as críticas que foram levantadas contra o método heurístico, penso que a essência do objetivo do método defendido por Armstrong era mudar o comportamento do tipo de cidadão que queremos ajudar a construir em nossas escolas: estudantes com poder de iniciativa, questionadores, críticos, reflexivos.

Neste sentido, em minha opinião, as vantagens deste método são muito maiores do que as de qualquer método de ensino livresco de sala de aula, que foca apenas os produtos da ciência e o raciocínio lógico dos alunos. Este último método, sim, é um verdadeiro crime a qualquer nível de compreensão do que é ciência, além de  encorajar a postura de resignação e submissão dos nossos alunos.

Por que o método heurístico tem críticos?

É claro que criticar o método heurístico com a dimensão holística do ensino de ciências que temos hoje no século 21 é mais fácil. Por exemplo, temas como tecnologia, problemas sociais, história da ciência ou natureza da ciência não estavam em pauta no curso de Armstrong. Nas últimas décadas, estes temas são parte central na discussão sobre desenvolvimento curricular de ciências. Obviamente, hoje em dia é inconcebível um ensino de ciências que não leve em conta estes temas.

Como você acha possível adequar o ensino às novas descobertas que ocorrem a todo momento na ciência?

Acho impossível. Nem nos cursos de graduação das universidades se faz isso. Talvez, o melhor que se poderia fazer seria inserir no currículo escolar uma disciplina de discussão sobre a utilização consciente do conhecimento científico, que articulasse o conhecimento científico com o conceito de ética e responsabilidade social. 

E a visão imediatista dos currículos escolares?

Temo muito por qualquer currículo escolar, no nível de formação geral do estudante, que tenta fazer dos nossos alunos físicos, químicos ou biólogos

Temo muito por qualquer currículo escolar, no nível de formação geral do estudante, que tenta fazer dos nossos alunos físicos, químicos ou biólogos. A maioria esmagadora deles não será. Os produtos da ciência (o conhecimento científico de fatos, leis e teorias) terá, no máximo, um valor bastante secundário em suas vidas. Diga-se de passagem, apesar do método heurístico ser comumente rotulado de ingênuo, seu objetivo maior não era fazer dos alunos cientistas, mas como bem disse Armstrong, iniciar os jovens "no 'método da natureza humana, da criação animal”.

Há, também, quem defenda as ideias de Armstrong. Por que você acha que elas estão em voga e sendo praticadas até hoje?

Um dos conceitos educacionais mais antigos que eu conheço é o de educação liberal. Ainda hoje, sem dúvida, esse é o sonho (quase utópico) de qualquer um que luta por uma educação completa e justa.

Quais seriam os termos dessa "educação liberal" e como ela se relaciona com as propostas de Armstrong?

Por educação liberal, entende-se não apenas oferecer ao estudante o acesso à cultura humana, seja nas artes ou nas ciências, e torná-lo ciente do valor das construções humanas que ocorreram no passado, que foram inevitavelmente coletivas, e do desenvolvimento da consciência do seu papel nas construções humanas que ainda virão a ser realizadas. Mas cabe também à educação liberal formar um cidadão independente e responsável, capaz de agir, de modificar o mundo construtivamente, opinando, refletindo, analisando criticamente as suas ações e as dos demais. É neste último entendimento que se tem de educação liberal que eu acho que os ideais de Armstrong ainda estão em voga até hoje.

Qual é a diferença do ensino de ciências no Brasil e na Europa (mais especificamente, na Inglaterra e em Portugal, lugares em que você estuda)?

Na  Inglaterra e em Portugal se tem feito, historicamente, um esforço enorme de se utilizar experimentos tanto nas salas de aula, quanto, obviamente, nos laboratórios. Até a década de 1940, por exemplo, Portugal recebeu da Inglaterra larga influência do método heurístico (mencionado no artigo). Apesar da cautela que hoje se tem em não se exagerar na dose quando se fala em método heurístico (alguns professores, por não entenderem o método, tentaram ingenuamente deixar os alunos na posição de cientistas), a utilização dos experimentos nas aulas de ciências é mesmo uma realidade nestes países.

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

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