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Alô, Professor / Intervalo

Ciência em casa

Palestra do TED traz as três vencedoras da Feira de Ciências do Google, que alegaram motivações – bastante – pessoais para começar seus projetos.

Por: Thiago Camelo

Publicado em 08/02/2012 | Atualizado em 08/02/2012

Ciência em casa

Lauren Hodge, uma das vencedoras da Feira de Ciências do Google, é ovacionada pela plateia durante palestra no TED. (foto: reprodução)

Uma boa dica de vídeo para os professores. No portal do TED, já é possível assistir às palestras das três vencedoras da feira de ciências mundial promovida pelo Google no ano passado.

A curiosidade nasce a partir da reflexão sobre eventos dos mais variados

TED, só para lembrar, é uma instituição sem fins lucrativos que organiza, desde 1984, palestras sobre ciência e educação. As três letras significam Technology, Entertainment, Design (Tecnologia, Entretenimento e Design, em português).

As meninas – todas estadunidenses – falaram na edição do evento destinada apenas às mulheres. Contaram um pouco como conseguiram, ainda tão novas, ter ideias originais sobre temas relevantes para a sociedade. Explicamos a pesquisa de cada uma delas aqui mesmo, no 'Alô, Professor'.

Na palestra do TED, no entanto, é possível conhecê-las melhor, entender como elas se interessaram por estudar ciência e, sobretudo, perceber que a curiosidade nasce a partir da reflexão sobre eventos dos mais variados.

Assista abaixo, em inglês,
às palestras das três vencedoras

Lauren Hodge – vencedora da categoria de alunos entre 13 e 14 anos com o estudo sobre o potencial cancerígeno do frango grelhado – explicou que teve a ideia do projeto após ler uma revista no consultório de seu médico. Uma das reportagens falava de uma ação judicial movida pelo Comitê Médico pela Medicina Responsável dos Estados Unidos contra sete restaurantes de fast food. A motivação da ação era, justamente, a qualidade do frango desses estabelecimentos e suas possíveis propriedades cancerígenas.

A estudante ficou intrigada com a falta de conhecimento popular e científico sobre as propriedades cancerígenas do frango grelhado

Na palestra, a estudante explica que ficou intrigada com a falta de conhecimento popular e também científico sobre as propriedades cancerígenas do frango grelhado. “Mas então, numa noite, minha mãe estava cozinhando frango grelhado para o jantar e notei que as bordas do frango, que tinham sido marinadas em suco de limão, ficaram brancas”, conta. “Mais tarde, na aula de biologia, aprendi que ficam assim devido a um processo chamado desnaturação, em que as proteínas perdem algumas propriedades.”

O passo seguinte, diz Hodge, foi formular uma hipótese: será que a mudança das proteínas, de alguma forma, poderia inibir as substâncias cancerígenas do frango grelhado?

A pesquisa a surpreendeu. Segundo a menina, marinar com suco de limão diminui em até 98% a quantidade de substâncias cancerígenas do frango grelhado. Açúcar mascavo e água com sal também funcionam bem.

“Outro fator importante é que se você aumentar o tempo de cozimento, a quantidade de substâncias cancerígenas aumenta rapidamente”, acrescenta a menina. “Não é que a melhor maneira de fazer o frango seja deixá-lo cru, mas definitivamente não é cozinhá-lo em excesso. O ideal é deixá-lo marinar por um tempo no suco de limão, no açúcar mascavo ou na água salgada.”

Melhorar o ar dos interiores

Naomi Shah, que ganhou na categoria para estudantes entre 15 e 16 anos, desenvolveu pesquisa sobre a qualidade do ar de lugares fechados. O objetivo era melhorar a qualidade de vida dos mais de 1 milhão de asmáticos do mundo.

A motivação da menina nasceu, também, da observação de seu cotidiano. Tanto pai como irmão têm alergias crônicas todo o ano e os sintomas persistem mesmo após a temporada de pólen. A sua pergunta inicial foi: por que isso acontece?

Shah: “O que aprendi é que a genética carrega a arma, mas o ambiente puxa o gatilho”

A resposta veio exatamente do ‘ar dos interiores’ que, segundo Shah, tem quatro poluentes relevantes à saúde pulmonar dos asmáticos. “Por exemplo, compostos orgânicos voláteis são poluentes químicos encontrados em nossas escolas, casas e locais de trabalho”, explica a jovem cientista.

A menina desenvolveu um modelo próprio para quantificar, matematicamente, o efeito desses poluentes nos asmáticos. Um software interativo capaz de, por meio da medição do fluxo expiratório e de informações como idade, altura e sexo do paciente, dizer exatamente qual remédio ele deve tomar.

“O que aprendi é que a genética carrega a arma, mas o ambiente puxa o gatilho”, afirma Shah. “Temos de melhorar o ar na nossa própria casa, limpar os filtros de ar-condicionado, os dutos, os tapetes, temos de evitar incensos e velas”, defende.

Quimioterapia mais eficaz

A pesquisa sobre como impedir um paciente de se tornar resistente à cisplatina, uma das substâncias quimioterápicas mais usadas para combater o câncer de ovário, deu a Shree Bose dois prêmios: o de melhor projeto na categoria 17-18 anos e o grande prêmio da feira do Google, como melhor trabalho entre todos os inscritos.

Bose: “Eu desejo que nenhuma outra família passe por aquilo que a minha passou”

Em sua fala, extremamente pessoal, Bose conta a sua motivação para iniciar a pesquisa: a morte de seu avô devido ao câncer. “Eu desejo que nenhuma outra família passe por aquilo que a minha passou”, diz.

Ao estudar especialmente o câncer de ovário, Bose se deparou com o entrave causado pela cisplatina durante a quimioterapia. “Às vezes, os pacientes se tornam resistentes à droga e, anos depois de terem sido declarados como livre do câncer, ele volta”, explica a estudante. “Elas não respondem mais ao medicamento, é um problema enorme, talvez um dos maiores problemas com a quimioterapia atualmente.”

O trabalho focou especificamente em uma proteína presente no corpo humano chamada MAP quinase. A pesquisa de Bose sugere que, quando essa proteína é bloqueada, as células cancerígenas param de rejeitar o tratamento com cisplatina; um passo importante para a cura do paciente.

“Isso significa que se um paciente chegar ao médico com resistência a essa droga, basta ministrar um produto químico que bloqueia a proteína para que ele seja novamente tratado com cisplatina”, conta Bose.

Brasil de fora

É possível dizer que as vencedoras da Feira de Ciências do Google tiveram projeção mundial. Encontraram o presidente dos Estados Unidos, saíram em matéria no New York Times e, finalmente, palestraram no TED, um dos eventos mais importantes de ciência, educação, tecnologia e informação do mundo. Além disso, ganharam bolsas de estudo e estágios em instituições renomadas, entre elas o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, o Cern.

Assista ao discurso, em inglês, em que Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, elogia as meninas
Teoricamente, qualquer estudante do globo poderia participar dessa feira e disputar essas oportunidades, exceto aqueles procedentes de países com os quais os Estados Unidos têm atritos diplomáticos, como a Coreia do Sul.

Porém, uma cláusula escondida no edital da segunda edição da feira – com inscrição aberta até abril – proíbe alunos brasileiros de participar do concurso. Como no ano passado tivemos notícia de que alunos de escolas nacionais participaram do evento, estranhamos a informação e procuramos, primeiro, o organizador do evento – o Google – para entender a questão.

Depois de incessantes mensagens sem respostas, inclusive na página de dúvidas, no Twitter e no Facebook do evento, procuramos o ministério da ciência brasileiro na esperança de tirar a dúvida. Nada. O órgão, com tradição de incentivar estudantes brasileiros a entrar nesse tipo de feira, estranhou, tanto quanto nós, a informação.

A única resposta que tivemos do Google foi, praticamente, uma cópia do que está no edital: “A competição não está aberta a residentes de Cuba, Irã, Coreia do Norte, Sudão, Birmânia, Síria, Zimbábue e qualquer outro país sancionado pelos EUA, além do Brasil e de qualquer lugar onde a feira é proibida por lei”.

No entanto, ninguém conseguiu apontar qualquer restrição brasileira à participação do país nesse tipo de atividade.

Fica, portanto, a dúvida não solucionada e a tristeza por estudantes brasileiros não poderem – nesse grande evento internacional – usar o exemplo das meninas dos Estados Unidos para transformar uma inquietação pessoal num belo projeto de ciência. Mas não seja por isso. O Brasil promove uma série de feiras e olimpíadas de ciências, além de ter destaque na participação de iniciativas similares mundo afora.

 

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

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