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  ESPECIAIS :: 59a REUNIÃO ANUAL DA SBPC :: 2007

Brasil vive genocídio de jovens pobres e negros
Desigualdade social se reflete no quadro calamitoso da segurança pública no país, mostra antropólogo


Os 45 mil homicídios dolosos (com intenção de matar) praticados por ano no país apontam para uma concentração no perfil das vítimas: são, em sua maioria, jovens pobres e negros, moradores de favelas e periferias não só das grandes cidades, mas de todo o país.

Trata-se, segundo o antropólogo Luiz Eduardo Soares, de uma manifestação clara da desigualdade presente no país, onde os mais pobres não têm acesso à justiça e sofrem, por exemplo, com a abordagem policial. “Isso soa como um discurso ‘dinossáurico’, dos anos 50, 60. Mas o Brasil é mesmo um país ‘dinossáurico’, que ainda convive com muita desigualdade”, disse.

Os dados apresentados em conferência sobre segurança pública proferida por Soares nesta quarta-feira, na Reunião Anual da SBPC em Belém, mostram que os homicídios no país atingem 27 vítimas a cada 100 mil habitantes, contra oito nos EUA, três na Europa e apenas uma no Japão.

A proporção dobra quando se avalia somente a população masculina (54 mortes por 100 mil habitantes), e sobe para 100 vítimas a cada 100 mil habitantes se o universo considerado é o de homens jovens, entre 15 e 24 anos. Quando o foco são algumas comunidades pobres do Rio de Janeiro, os números assustam ainda mais: 240 vítimas por 100 mil habitantes.

“Não digo que estamos em guerra, porque assumir isso pode legitimar a adoção de políticas públicas inadequadas, mas é preciso entender a gravidade da situação”, diz.

Ele alerta para a quantidade de crimes perpetrados pelo Estado, seja por descumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, pela implementação inadequada de penas e, principalmente, pela brutalidade policial letal. Foram mais de 4.300 mortes em ações policiais no Estado do Rjio de Janeiro entre 2003 e 2006, das quais 65% com sinais claros de execução.

Mas o secretário de Nova Iguaçu alerta: não se pode culpar individualmente os policiais, nem considerar as ações como comportamentos desviados. “Observa-se um padrão regular, que reflete uma política institucional. Por exemplo, desde 1995 as unidades policiais do Rio de Janeiro deixaram de aceitar a rendição em suas operações”, explicou.

Para reverter, ou pelo menos minimizar, este quadro, o antropólogo sugere a adoção de políticas multidimensionais, com a articulação de redes de proteção à criança e à família, com a participação conjunta de professores, agentes de saúde e da justiça. “Este pode ser um começo. Estou certo de que ações menores, mais modestas, podem fazer a diferença neste caso”, avaliou Soares.

Para ele, a SBPC pode contribuir de modo importante na constituição de um consenso na comunidade científica para o tratamento dessas questões. “Estar aqui para discutir o tema é importante, mas é preciso que a comunidade científica pense de modo mais efetivo a questão”.

Daniela Oliveira
JC E-mail
12/07/2007

Confira a cobertura completa da 59 a Reunião Anual da SBPC

 
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