O Nobel de física de 2003, anunciado em 7 de outubro pela Real Academia Sueca de Ciências, será dividido por três cientistas: o russo naturalizado americano Alexei Abrikosov, do Laboratório Nacional Argonne (EUA), o russo Vitaly Ginzburg, do Instituto Físico Lebedev (Rússia), e o anglo-americano Anthony Leggett, da Universidade de Illinois (EUA). Os três ajudaram a elucidar fenômenos quânticos com conseqüências observáveis no mundo macroscópico: a supercondutividade e a superfluidez.
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Os laureados de física em 2003: Alexei Abrikosov, Vitaly Ginzburg e Anthony Leggett, da esquerda para a direita (fotos: reprodução) | |
A supercondutividade é observada em certos materiais que, quando resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto (-273°C ou 0 K), são capazes de conduzir eletricidade sem apresentar resistência e, portanto, sem dissipar energia sob forma de calor. Descoberta em 1911, ela abriu as portas para uma grande revolução tecnológica: materiais supercondutores poderiam reduzir gastos com produção e transmissão de energia e conduzir correntes elétricas mais altas.
É graças à supercondutividade, por exemplo, que é possível criar campos magnéticos potentes o suficiente para obter imagens por ressonância magnética -- tecnologia premiada com o Nobel de medicina deste ano. Outra área de aplicação prática do fenômeno é a de transportes: no Japão, bobinas supercondutoras estão por trás da criação de um trem que levita, ainda em estágio embrionário. Porém, o uso da supercondutividade ainda esbarra nas baixas temperaturas necessárias para sua obtenção.
Não é a primeira vez que o Nobel de física premia estudos sobre a supercondutividade. Em 1913, o holandês Heike Onnes foi laureado pela descoberta do fenômeno. Em 1972, os americanos J. Bardeen, L.N. Cooper e T. R. Schrieffer dividiram o prêmio pela teoria formulada em 1957 para descrever a supercondutividade.
No entanto, esse modelo só se aplica a metais que perdem a capacidade supercondutora quando submetidos a campos magnéticos muito altos (conhecidos como supercondutores de tipo 1). Só foi possível compreender o fenômeno nos supercondutores de tipo 2 com uma teoria proposta no final dos anos 1950 por Abrikosov.
Os compostos de tipo 2 -- ligas de diversos elementos, metálicos ou não -- conservam a supercondutividade mesmo sob efeito de campos magnéticos mais fortes. O modelo de Abrikosov se baseia na teoria proposta no início dos anos 1950 por Ginzburg junto com o físico russo Lev Landau (1908-1968). Os dois formularam equações matemáticas para descrever efeitos observados em laboratório. Embora elaboradas com supercondutores de tipo 1, elas se mostraram válidas também para os de tipo 2.
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Microfotografia de um composto supercondutor formado por lantano, estrôncio, cobre e oxigênio (reprodução/CH 49) | |
Em um material supercondutor, os elétrons se organizam em pares e se comportam da mesma forma ao viajar com a mesma velocidade. Uma propriedade similar se verifica na superfluidez -- o outro fenômeno contemplado pelo Nobel. Em temperaturas próximas a 0 K, alguns superfluidos têm seus átomos organizados em pares. Assim como a supercondutividade reduz a resistência à passagem de corrente elétrica, a superfluidez reduz a resistência do movimento interno dos átomos de um líquido e diminui sua viscosidade.
Foi Anthony Leggett quem descreveu em 1970 como átomos de um isótopo de hélio (3He) interagem e se ordenam no estado de superfluidez. O mesmo fenômeno já havia sido satisfatoriamente descrito para o isótopo mais abundante desse elemento -- 4He.
A formação de turbulência em superfluidos tem sido usada para estudar como a ordem pode se tornar caos. Entender melhor como são criadas turbulências é um dos últimos problemas da física clássica ainda não resolvido.
"Pelas teorias anteriores, tanto a supercondutividade de tipo 2 quanto a superfluidez do 3He não deveriam ocorrer. As teorias de Abrikosov e Leggett são análogas e estendem o entendimento desses fenômenos ao caso mais geral", explica Bruno Mota, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). "Os métodos desenvolvidos por ambos foram aplicados em várias áreas da física."