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 ESPECIAIS :: COP8-MOP3

Falta de comunicação
Cobertura da mídia sobre temas da área ambiental deixa muito a desejar


Em meio às muitas discussões travadas durante a COP8, era inevitável a pergunta: “Como é feita a divulgação das questões ligadas à biodiversidade?” Tratado na plenária oficial da Conferência, o tema foi debatido também no evento paralelo ‘Mídia e áreas protegidas – construção de uma estratégia de comunicação’.

Maria Cecília Trannin, do Programa de Estudos Interdisciplinares de Comunidades e Ecologia Social (Eicos), comentou alguns resultados do trabalho que realizou com o objetivo de investigar a difusão das unidades de conservação na mídia brasileira. No Brasil, convém lembrar, as unidades de conservação são estabelecidas e protegidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc).

Em sua pesquisa Trannin analisou a revista Veja, escolhida por ser a de maior tiragem e circulação no país. Ela examinou material publicado na revista ao longo de cinco anos, tendo selecionado 375 matérias. Desse total, escolheu 61 para serem analisadas sob os aspectos de forma e conteúdo. Nenhum dos textos analisados tratava do Snuc. Os temas freqüentemente diziam respeito a áreas de interesse turístico.

Segundo a pesquisadora, na maioria das vezes a natureza foi notícia por seu lado catastrófico ou paradisíaco. “Neste caso, a visão é quase sempre utilitarista, mercadológica, reforçando a idéia de que a natureza é algo distante, separado de nós”, disse. Ela lembrou que o slogan adotado por Curitiba durante as conferências da ONU – “A biodiversidade está na gente” – é uma tentativa de mudar essa visão.

Imagens e slogan criados pela prefeitura de Curitiba para recepcionar as convenções da ONU: na contramão das visões usualmente disseminadas pela mídia.


Essa abordagem, segundo Trannin, resulta do fato de que, para a maioria dos jornalistas, biodiversidade não é notícia que renda, a não ser na sua forma econômica. Além disso, a dificuldade de acesso do jornalista às informações reforçaria essa visão. “A própria ‘mídia verde’, voltada para a cobertura de temas ambientais, costuma ficar restrita aos seus nichos.” Para tentar melhorar essa cobertura, o Ministério do Meio Ambiente colocou entre suas metas buscar novas formas de aproximação com a mídia. “Precisamos construir uma estratégia nacional de comunicação, a médio prazo, para as áreas protegidas”, disse Iara Vasco, técnica do Ministério.

Jornalismo ambiental na Inglaterra
O correspondente de meio ambiente da rede de televisão britânica BBC Tim Hirsch também abordou o problema de a natureza ser vista como espetáculo pela mídia de seu país. “Os programas da BBC que mostram a ‘natureza maravilhosa’ têm grande audiência”, disse Hirsch. O problema, segundo ele, é que se tem a impressão de que os animais exóticos mencionados nas matérias vivem em uma espécie de vazio, sem relação com a humanidade. Os construtores da informação perdem, assim, a oportunidade de fazer a necessária ligação homem-natureza. “Ao final do programa, o público não é informado de que aquelas espécies podem não existir mais daí a 30 anos nem é alertado para a relação entre extinção e degradação do meio ambiente.”

Para Hirsch, a comunicação na área ambiental é um ponto crítico em todo o mundo, um tema que não recebe a cobertura que merece. “Em convenções como essas, questões essenciais como as que estão sendo discutidas ficam obscurecidas por jargões, que são reproduzidos sem as necessárias explicações.”

O biólogo e jornalista ambiental Eduardo Geraque mostrou como a mídia pode ajudar ou prejudicar a causa ambiental ao difundir informações. Ele lembrou que em 1998 a poluição estava em níveis muito altos na Cidade do México e, com a pressão da mídia e dos cidadãos, o governo criou mecanismos para atenuar o problema, como o rodízio de veículos. Já em São Paulo, recordou Geraque, os meios de comunicação em geral se posicionaram contra a medida adotada no México. “Entre nós, a discussão se deu pelo lado econômico: as multas aos infratores que violassem a regra. A questão ambiental, que era o que realmente importava, ficou em segundo plano.”
   

Luciana Cristo
Especial para a CH On-line / PR
03/04/2006

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