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A coluna Caçadores de Fósseis é publicada na primeira sexta-feira do mês pelo paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional. Visite o
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alexander.kellner@
gmail.com
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COLUNAS :: CAÇADORES DE FÓSSEIS
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Bacia do Araripe: Uma viagem ao passado
Artigo descreve a formação de um dos principais depósitos fossilíferos do continente, localizado no Nordeste brasileiro
Na viagem de Nova Olinda para Santana do Cariri, tenho uma visão da Chapada do Araripe, com os seus vales e sua vegetação. Muitas vezes não resisto: fecho os olhos e me transporto para um mundo bem diferente de hoje – um mundo de 115 a 110 milhões de anos atrás, quando animais bem diferentes dos atuais viviam na chapada, como o pterossauro
Tapejara imperator
e os dinossauros
Angaturama
e
Santanaraptor
, tendo na água peixes como o
Vinctifer
.
Ao olhar para a Chapada do Araripe, a maioria das pessoas não tem a menor noção de como toda a região se modificou ao longo dos anos e, sobretudo, que ela abriga alguns dos principais depósitos de fósseis do país. A riqueza de restos de organismos extintos trouxe ao Araripe importância internacional, reconhecida por pesquisadores de todo mundo: não existe paleontólogo que não tenha ouvido falar ou lido artigos relacionados aos fósseis da chapada.
Hoje em dia, a região da Chapada do Araripe pode ser considerada uma espécie de oásis em uma das áreas mais secas do país. O subsolo dessa formação, situada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, possui extensos reservatórios de água. Por isso, as terras próximas à chapada propriamente dita possuem uma vegetação abundante em espécies como o visgueiro, a faveira ou o pequi, entre outras. Já as extensas áreas ao redor da chapada, abaixo dos 400 metros de altitude, se situam, em termos ambientais, no semi-árido, com a vegetação típica da caatinga, com muitos espinhos: o mandacaru, a cabeça-de-frade e a famosa unha-de-gato que, com seus espinhos de um centímetro, são um verdadeiro terror para os vaqueiros.
Mas, no passado, essa terra estava debaixo d’água e era habitada por diversos animais e plantas que hoje em dia estão extintos. Em termos gerais, a Chapada é parte do que restou de uma área bem maior – a Bacia do Araripe –, que abrangia extensas áreas dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. A história da Bacia do Araripe começa durante a fragmentação do supercontinente Gondwana, mais precisamente quando a América do Sul e a África estavam se separando.
Segundo os geólogos, essa separação se iniciou aproximadamente há 133 milhões de anos na parte sul desses continentes, formando o início do oceano Atlântico. Em algum momento antes da separação se instalou em todo o Nordeste brasileiro e parte da África uma extensa bacia, denominada de Depressão Afro-Brasileira, que abrigava um enorme lago de águas rasas. À medida que a separação entre a América do Sul e a África se iniciava, houve diversas fraturas na massa continental, fazendo com que algumas partes afundassem e aumentasse a deposição de sedimentos.
Nesse momento, formou-se um grupo de camadas que os pesquisadores denominaram de Formação Santana, que é a unidade mais rica em fósseis da Bacia do Araripe. A Formação Santana é subdividida em três unidades (ou membros), chamadas, da base para o topo, de Crato, Ipubi e Romualdo.
O Membro Crato é constituído por calcários laminados e representa rios ou lagos que existiam naquela região há 115 milhões de anos. Essas rochas são muito ricas em diversos fósseis, sobretudo de insetos e peixes de pequeno porte. Porém, penas, anuros, plantas, crocodilomorfos, tartarugas e pterossauros também são encontrados.
À medida que as placas tectônicas da América do Sul e da África se separavam, o ambiente de deposição também ia mudando. O Membro Ipubi, situado acima do Membro Crato, possui extensos depósitos de sais (principalmente gesso), inclusive alguns dos principais do país, particularmente em Pernambuco. O gesso está intercalado por rochas escuras onde também encontramos fósseis de peixes e plantas e até mesmo um pedaço de âmbar.
Cerca de 110 milhões de anos atrás, o Brasil já estava mais separado da África, com o oceano Atlântico avançando e criando diversas lagunas na costa do Nordeste. Apesar de não se saber quando se deu a separação final, dados geológicos e paleontológicos demonstram que já havia nesse período um grande braço de mar separando o Nordeste do Brasil da África.
Uma das lagunas deu origem às rochas sedimentares que formam o Membro Romualdo, com seus ricos nódulos. Em termos de vertebrados fósseis, esta pode ser considerada a unidade mais fossilífera da Bacia do Araripe, com milhares de nódulos calcários contendo restos de peixes muito bem preservados. Também são encontradas plantas como a
Brachyphyllum
, tartarugas como a
Araripemys
, crocodilomorfos como o
Caririsuchus
e o
Araripesuchus
, dinossauros como o
Santanaraptor
e pterossauros como o
Thalassodromeus
.
Depois, houve uma retração do nível do mar e a Bacia do Araripe passou a ser assoreada por sedimentos arenosos trazidos por rios. Aliás, são esses sedimentos que deram origem às rochas que receberam o nome de Formação Exu e hoje formam o topo da Chapada do Araripe. Por fim, devido a movimentos tectônicos, houve o soerguimento de toda essa área, trazendo para cima o que era o fundo da bacia. Com a ação do intemperismo houve o esculpimento do terreno, fazendo com que se formasse a Chapada do Araripe tal qual a observamos hoje.
O depósito de fósseis da Bacia do Araripe, mais propriamente as camadas que formam a Formação Santana, está potencialmente em pé de igualdade com os principais depósitos fossilíferos do mundo. Falta mais investimento, que permitiria que pesquisadores brasileiros coletassem mais exemplares, e uma maior conscientização da população local, para evitar que o material se disperse pelo mundo.
Nunca é demais lembrar que tudo o que aconteceu na região da Chapada do Araripe, que mudou de um fundo de lago e laguna para uma chapada com mais de 900 metros acima do nível do mar, ocorreu devido a grandes forças da natureza. E, pelo menos em teoria, tudo poderia se reverter – com aquela mesma região algum dia novamente sendo coberta por água.
Esse cenário faz com que nos lembremos da célebre frase atribuída a Antonio Conselheiro, herói popular de Canudos: "o sertão vai virar mar e o mar também vai virar sertão". Naturalmente, se isso viesse acontecer, a explicação seria dada por dados geológicos, e não religiosos. Mudanças são um fato na evolução de um planeta dinâmico como a Terra. Mas ninguém precisa se preocupar com isso agora, nem fazer planos de mudança – essas modificações ocorrem em uma escala de tempo de milhões de anos.
Alexander Kellner
Museu Nacional / UFRJ
Academia Brasileira de Ciências
02/12/2005
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Paleocurtas
As últimas do mundo da paleontologia
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alexander.kellner@gmail.com
Uma pesquisadora da Universidade de Sheffield (Inglaterra) relatou uma descoberta inusitada: a maior pista com pegadas feitas por um artrópode marinho em uma superfície terrestre.O animal devia ter cerca de 1,6 metro de comprimento e quase um metro de largura. A pista, atribuída ao
Hibbertopterus
, foi encontrada na Escócia em rochas com aproximadamente 330 milhões de anos (Carbonífero) – o mesmo tempo em que os primeiros vertebrados terrestres surgiam. Segundo o estudo, publicado na
Nature
, o artrópode se locomovia lentamente.
Pesquisadores argentinos acabam de revelar a existência de dois novos exemplares do crocodilomorfo marinho
Dakosaurus andiniensis
. O material é proveniente da localidade de Pampa Tril, onde afloram rochas da Formação Vaca Muerta (Jurássico Superior). Entre os fósseis, está um crânio completo com 80 cm de comprimento que possui a parte do rostro (focinho) bem menor do que o dos demais crocodilomorfos marinhos. Este animal, que foi chamado pela imprensa de Godzila, mostra a diversidade das formas da cabeça dos crocodilomorfos marinhos. O estudo foi publicado na revista
Science
.
Um novo exemplar da ave primitiva
Archaeopteryx
acaba de ser descrito. O fóssil está quase completo e foi encontrado em uma placa calcária, típica de Solnhofen, sul da Alemanha, que há 150 milhões de anos era o fundo de uma laguna. Este novo exemplar possui diversas características de dinossauros terópodes, reforçando a hipótese da origem das aves a partir dos dinossauros. Porém, um detalhe nos membros posteriores levou os autores a sugerir que a definição do grupo das aves terá que incluir alguns dinossauros que não voam, como o
Velociraptor
. O estudo, publicado na edição de hoje da
Science
, já está causando grande discussão entre os pesquisadores.
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Da Índia veio uma descoberta bem interessante: restos de sílica (chamados de fitólitos) provaram a existência de gramíneas do grupo atualmente chamado de Poaceae em rochas formadas entre 65-68 milhões de anos atrás. O mais inusitado é a origem do material: ele foi resgatado de excrementos fossilizados, também chamados de coprólitos. A pesquisa, feita por cientistas indianos e suecos, revela, entre outros aspectos, que os dinossauros que provavelmente produziram os coprólitos – os titanossaurídeos, também encontrados no Brasil – tinham uma dieta bem mais diversificada do que se supunha. O trabalho foi publicado na
Science
.
Pesquisadores italianos redescreveram o curioso e enigmático réptil fóssil
Megalancosaurus preonensis
, encontrado na Itália em rochas do Triássico (há cerca de 215 milhões de anos). Eles descreveram em detalhes o crânio dessa espécie, que já foi considerada um animal aquático ou uma forma que vivia em formações arbóreas. O estudo, que acaba de ser publicado na
Rivista Italiana di Paleontologia e Stratigrafia
, favorece a hipótesede queo
Megalancosaurus
vivia em pequenos arbustos, possivelmente atrás de insetos.
Um estudo sobre isótopos acaba de chegar a uma conclusão inesperada: o aumento do oxigênio na atmosfera pode ter auxiliado no desenvolvimento dos mamíferos, particularmente os de grande porte. Pesquisadores americanos chegaram à conclusão de que há uma tendência de aumento do nível de oxigênio na atmosfera nos últimos 205 milhões de anos. Eles correlacionam esse fenômeno com o aumento da diversificação dos mamíferos, em especialos de grande porte.A pesquisafoi publicada na
Science
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Leia mais
sobre o paleontólogo Alexander Kellner
e a proposta da coluna "Caçadores de Fósseis".
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