Debates sobre o preparo político de candidatos são constantes na atual eleição, embora poucos estudos revelem o que é estar bem preparado. Para descobrir quais fatores são relevantes para possibilitar uma carreira política bem-sucedida, o sociólogo Odaci Luiz Coradini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, desenvolveu um estudo sobre a importância da escolarização, da titulação universitária e do militantismo para o trabalho político.
Coradini entrevistou funcionários dos primeiros escalões (eleitos ou escolhidos) de dois governos, do PMDB (1995) e do PT (1999), no Rio Grande do Sul. Ele constatou aumento no nível de escolarização dos que trabalham na política -- são raros os que não têm curso superior. Outro fator interessante foi a expansão do número de profissionais com cursos como ciências sociais, em detrimento dos tradicionais diplomados em direito ou engenharia. No período avaliado, a participação de sociólogos no secretariado do governo cresceu de um para cinco na troca de mandatos, enquanto a de economistas permaneceu igual e a de administradores praticamente desapareceu.
A sucessão trouxe mudanças significativas, das quais sobressai a maneira de pensar a utilidade da escolarização para a política. "A maioria dos profissionais do governo iniciado em 1999 tem uma maneira militantista de conceber as atividades políticas", explica Coradini. Eles dificilmente desvinculam política partidária de outras formas de militância[1] , como movimento estudantil ou sindical, e, da escolarização formal, aproveitam mais as relações estabelecidas. Por outro lado, para a ocupação de um cargo político no governo anterior, prevaleciam diplomas socialmente mais valorizados e a suposta ’competência técnica’.
Para descobrir os fatores considerados pelos eleitores na escolha do candidato foi aplicado um questionário, que analisava não só suas preferências, mas também sua escolarização e renda. O resultado mostrou que pessoas com pouca escolaridade tendem a votar em candidatos sem relação com a política ou conhecidos seus. Os políticos usam esse dado para tentar criar uma identificação com eleitores: por isso, não é raro encontrar em propagandas destaque para a falta de experiência do candidato. "É como se eles dissessem: não sou profissional, sou como um de vocês", diz Coradini.
Nas camadas mais escolarizadas observam-se duas tendências diferentes. Há um grande percentual de atuantes na política que, em geral, levam em conta "a obediência ao partido" e "o grau elevado de instrução". No entanto, existem também os ’anti-militantistas’ -- apesar de pouco interesse pela política ser característica dos menos escolarizados --, que votam nos que têm pouca relação com a política. A diferença é que esses não levam em conta o conhecimento pessoal, mas a imagem de "competência" do candidato.
No exemplo estudado fica claro que o interesse pela política aumenta em função da escolaridade. No entanto, a pesquisa também concluiu que a titulação escolar pode ser usada de formas diferentes, pois é concebida de maneira distinta pelos políticos. "Embora seja óbvio que o aumento do militantismo está ligado à escolarização, é preciso considerar que esta não é causa, mas recurso na esfera política", conclui Coradini.
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O artigo ’Escolarização, militantismo e mecanismos de ’participação’ política’, de Odaci L. Coradini, foi publicado em Como se fazem eleições no Brasil
Beatriz Heredia, Carla Teixeira, Irlys Barreira (orgs.) Rio de Janeiro, 2002, Editora Relume Dumará 274 páginas - R$ 25,60 |