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 ESPECIAIS - ELEIÇÕES 2002

Imagem prevaleceria sobre propostas na definição do voto
Estudo avalia influência das novas tecnologias da comunicação na formação política

Na era da mídia eletrônica não se escolhe mais em que candidato votar pela análise de propostas e programas políticos: o eleitor se deixa levar pela imagem. A mídia faz com que o cidadão vote no candidato mais bem ’maquiado’ pelo marketing visual. As tecnologias de comunicação fabricam personagens políticos de ficção, como o Caçador de Marajás, e levam o cidadão a escolher por fatores emocionais e não com a racionalidade que a situação exige. Essas são algumas das conclusões da dissertação de mestrado de Cristiane Neder, que avalia a influência das novas tecnologias na formação política. A pesquisa foi apresentada em junho de 2001 à Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Neder, não é de hoje que a mídia exerce poder. Os meios de comunicação sempre estiveram ligados à política, desde o surgimento dos primeiros livros e jornais. A mídia usaria uma linguagem ideológica disfarçada de entretenimento para seduzir o espectador e influenciar suas vontades. A pesquisadora afirma que novelas, filmes e desenhos animados, vistos em geral como diversão inofensiva, criam um mundo virtual aceito pelo público como uma adaptação da verdade. Isso cria padrões de conduta, induz a sociedade a sentir desejos que não eram originariamente os seus.

"A mídia não dirige o público mas o conduz", diz Neder. "Dirigir é uma atitude imperativa e conduzir é algo feito pelo poder do argumento." Conduzir é um ato suave, não demanda autoridade e a influência não é percebida diretamente -- ela seria construída pela elaboração do discurso da mídia. "A tecnologia em si não tem poder, o poder está na ideologia de quem a domina."

Na política, defende Neder, a influência da mídia se reflete pela substituição do poder dos grandes líderes pelo dos meios de comunicação. A mídia controla o acesso ao espaço público e os próprios políticos tornam-se dependentes dela para obter visibilidade e reconhecimento.

Na propaganda eleitoral, os candidatos se valem de recursos tecnológicos para arrebanhar eleitores. Neder cita o caso do projeto de transporte público "fura-fila", do então candidato à prefeitura de São Paulo Celso Pitta. "Nas imagens virtuais produzidas para a televisão, o projeto estava pronto", conta. "Mas, na verdade, praticamente nada foi feito durante o mandato."

A mídia criaria estereótipos sobre direita e esquerda e elaboraria o contexto político para o resto da sociedade. "Os políticos são catalogados por sua aparência ou linha de atuação -- o intelectual, o evangélico, o ’sapo barbudo’ -- para salientar suas qualidades ou ridicularizar seus defeitos", diz Neder. "A mídia falsifica até revolucionários, como foi o caso dos ’caras-pintadas’."

"O cidadão não se sente mais protegido por seus representantes políticos que, aos seus olhos, só promovem crises e insegurança", argumenta. Ele passa a ter a sensação de que os jornais e a televisão tomam a função de protegê-lo -- e se crê governado por algo que, na verdade, ele próprio criou.

A dissertação de mestrado de Cristiane Neder, As influências das novas tecnologias de comunicação social na formação política, pode ser consultada na íntegra na internet na Biblioteca on-line de Ciências da Comunicação


Adriana de Melo
Ciência Hoje On-line
26/09/02

 
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