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Noções de direita e esquerda orientam voto do brasileiro Livro defende tese polêmica que aponta ideologia como fator determinante para eleitor
É possível comparar o ramo da ciência política que estuda o comportamento eleitoral à meteorologia? A resposta, para o jornalista e cientista político André Singer, é sim: em ambas existiriam variáveis estruturais e conjunturais que se relacionam na construção seja do resultado da eleição, seja do tempo que fará amanhã. Ele apresenta essa comparação no livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro, no qual defende que uma das características de longo prazo que guia o voto do povo brasileiro é a identificação ideológica.
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Detalhe da capa de Esquerda e direita no eleitorado brasileiro | |
A visão de Singer vai de encontro ao pensamento da elite intelectual brasileira, que julga a maioria da população incapaz de se posicionar ideologicamente e de ter um raciocínio político estruturado. Ele rebate essa concepção ao analisar a literatura internacional de escolas que interpretam a influência da ideologia no voto. A idéia vigente seria a de que "a identificação ideológica, mesmo sendo difusa e cognitivamente desestruturada, sinaliza uma orientação política geral do eleitor".
No livro, que é fruto da tese de doutorado que Singer defendeu em 1998 na Universidade de São Paulo (USP), o autor tenta comprovar tal proposição a partir de pesquisas realizadas nos anos de 1989, 90, 93 e 94. Nessas pesquisas, era pedido ao eleitor que se localizasse em uma escala esquerda-direita e em seguida apontasse o candidato em que votou nas eleições presidenciais de 89 e 94 e nas eleições para o governo de São Paulo em 94.
Os resultados mostram que a maioria dos que se posicionaram à esquerda optaram por Lula em 89 e 94, e os que se localizaram à direita votaram em Collor em 89 e Fernando Henrique em 94. Isso mostra que os brasileiros mantêm uma coerência ideológica -- os eleitores tendem a votar em todos os pleitos em canditados da mesma linha ideológica na qual se situam.
Singer conclui que a "identificação ideológica foi uma das principais preditoras do voto", sobretudo após constatar que as pesquisas também relacionaram o voto em um determinado candidato a outros fatores, como a rejeição aos políticos e à intervenção estatal. Nenhum deles se mostrou eficaz para prever a escolha de um político específico. Singer, no entanto, faz questão de frisar que no pleito de 94 o Plano Real desempenhou um papel conjuntural importante na vitória de Fernando Henrique.
Singer também se preocupa em compreender o que os conceitos esquerda e direita representam para os brasileiros. As pesquisas analisadas mostram que a maioria dos eleitores não sabe verbalizar essa diferença, mas possui crenças comuns que permitem classificá-los ideologicamente.
A leitura de Esquerda e direita no eleitorado brasileiro nos revela que não existem magos ou publicitários capazes de prever precisamente o resultado de eleições -- ou se fará sol amanhã. E que "a tarefa de elucidar os sistemas de crença associados ao posicionamento do eleitor nos diversos pontos do espectro ideológico está longe de esgotar-se".
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Esquerda e direita no eleitorado brasileiro - a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 1994
André Singer São Paulo, 2000, Edusp 203 páginas - R$ 25 |
Denis Weisz Kuck Ciência Hoje On-line 25/09/02 |