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[1] Para se medir a discrepância entre o resultado das pesquisas e o das eleições, foi calculada para cada candidato a diferença absoluta entre o percentual de intenção de votos e o resultado final. As diferenças de todos os candidatos foram somadas para se chegar à discrepância total da pesquisa. As discrepâncias foram classificadas como baixa (zero a 15 pontos percentuais), moderada (16 a 25) e alta (maior que 26).

[2] O erro de cadastro ocorre quando dados censitários inexatos levam à escolha de uma amostra imprópria. Como o IBGE é responsável pelo censo em todas as regiões do país, é improvável que os erros das pesquisas eleitorais sejam desse tipo. Já no erro de não-resposta, a pesquisa diz que um candidato vencerá, mas quem ganha é outro. O erro dos institutos brasileiros também não é esse, pois nas pesquisas estudadas a tendência é superestimar a quantidade de votos do vencedor e subestimar o percentual de votos brancos e nulos. "Isso ocorre sobretudo porque o eleitor erra na hora de votar", diz Almeida. "Sua intenção era votar em determinado candidato, mas acaba anulando o voto."

 
 ESPECIAIS - ELEIÇÕES 2002

Estudo revela fragilidade de pesquisas eleitorais
Comparação aponta discrepância entre intenções de voto e resultado das urnas

Às vésperas das eleições, quando resultados de pesquisas eleitorais são revelados quase diariamente, um estudo aponta a fragilidade desses levantamentos. Realizado pelo DataUff, instituto de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), o estudo avaliou 298 pesquisas nas sete últimas eleições. Em todas foram detectados erros em relação ao resultado das urnas.

Pesquisa do Datafolha para a presidência da república divulgada em 20/09/02. Esse não é necessariamente um dos institutos avaliados no estudo da UFF (reprodução / Datafolha)


Foram avaliadas pesquisas de prognóstico (feitas imediatamente antes das eleições) e de boca-de-urna (logo após a votação) para os cargos de presidente, governador, prefeito e senador, em primeiro e segundo turnos, em todas as regiões do país. As sondagens analisadas eram de três institutos não citados no estudo. "A intenção é avaliar a precisão das pesquisas e não os institutos", diz o cientista político Alberto Carlos Almeida, diretor do DataUff.

O primeiro passo foi medir a discrepância[1] entre o resultado das pesquisas e o das eleições. A discrepância foi baixa para 53% das sondagens, média para 28% e alta para 19%. Esse resultado pode ser atribuído a erros amostrais ou não-amostrais. "A amostra de uma pesquisa deve refletir a população total", explica Almeida. "Ela deve ter a mesma proporção de homens e mulheres, pobres e ricos, jovens e velhos que há na sociedade."

O erro amostral é aleatório e corresponde à chamada "margem de erro" para mais ou para menos. Calculado estatisticamente, é anunciado junto com o resultado da pesquisa. Esse fator não pode ser a causa da discrepância observada, pois houve erro acima da margem prevista na maioria das sondagens com alto e médio índice de discrepância.

Os erros não-amostrais são divididos em erros de cadastro, não-resposta[2] ou medição -- o mais provável no caso brasileiro. A aplicação dos questionários, talvez por intimidar os cidadãos, leva aqueles que votariam em branco ou nulo a dizer o nome do primeiro colocado nas pesquisas. Esse erro ocorre sobretudo nas regiões com baixo nível de escolaridade. Talvez por isso, 45% das pesquisas no Nordeste tiveram discrepância alta, contra 9% no Sul e Sudeste.

A discrepância maior foi observada nas pesquisas para governador. "A eleição é mais disputada nos estados, sobretudo em colégios eleitorais pequenos", explica Almeida. "Os candidatos estão mais próximos da vida do eleitor." Além disso, as pesquisas erram menos no segundo turno que no primeiro. Teoricamente, deveria ocorrer o contrário, pois o erro amostral é maior quando há menos candidatos. "Mas é mais fácil votar no segundo turno", pondera.

As pesquisas de boca-de-urna são mais precisas devido ao método: nas pesquisas de prognóstico os eleitores respondem a um questionário, nas de boca-de-urna escrevem seus votos em uma cédula e os depositam em uma urna. "Se todas as sondagens usassem urnas, acertariam mais, mas isso implicaria custo exorbitante", diz Almeida.

O estudo do DataUff continua e incluirá as pesquisas relativas às próximas eleições. "A tendência é que a discrepância deste ano siga o padrão observado", diz Almeida. "Os métodos atuais são adequados para eleitorados de escolaridade alta, mas é preciso desenvolver um método que diminua erros de medição nos estados de escolaridade mais baixa."


Adriana de Melo
Ciência Hoje On-line
25/09/02

 
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