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Política: a arte de conversar e comer Estudo analisa importância dos rituais de comensalidade nas campanhas eleitorais
Reuniões entre políticos e eleitores durante a época de campanha são em geral caracterizadas pela troca de idéias -- e comida. A análise dos rituais de comensalidade -- marcados pelo consumo de alimentos e bebidas -- durante e após as eleições pode ajudar a entender o processo eleitoral sob a perspectiva da relação candidato/eleitor. Esse estudo foi realizado pela antropóloga Karina Kuschnir, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
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Candidatos a presidente durante rituais de campanha caracterizados pelo consumo de comidas e bebidas (fotos: reprodução / sites oficiais dos candidatos) | |
Durante as quatro eleições entre 1992 e 1998 Karina acompanhou a trajetória de alguns candidatos e constatou a presença dos rituais de comensalidade em quase todas as campanhas. "Eles podem ser definidos como encenações simbólicas da vitória do político", explica. Essas reuniões não têm como único objetivo angariar votos, mas reforçar a identidade do político, ameaçada durante as eleições na medida em que a ocupação do cargo não está garantida.
Campanhas eleitorais costumam ser marcadas por eventos como jantares ou inaugurações. Algumas vezes a própria organização da campanha ocorre em bares e restaurantes, onde militantes se encontram para reforçar a identidade do grupo. "Feiras e botequins são lugares privilegiados para se fazer política, pois estão cheios de eleitores em potencial", observa Karina. Além disso, donos de bares e garçons têm grande capacidade para disseminar informações e podem ser tidos como "eleitores-chave".
Karina analisou também outros rituais de comensalidade durante as campanhas. Quando o candidato é responsável pela aproximação com o eleitor, as reuniões ocorrem de duas formas: ou o político patrocina um evento (do qual participa) ou simplesmente partilha refeições com eleitores. Em ambos os casos o caráter é de confraternização -- na primeira há um posicionamento hierárquico; na segunda, uma tentativa de igualdade --, o que diferencia esses rituais das doações de comida.
Embora o estudo de Karina se limite às eleições proporcionais, existem exemplos desses rituais em todas as áreas políticas. Entre eles, a famosa buchada de bode oferecida ao candidato Fernando Henrique Cardoso em 1994. Para interagir com os eleitores, o sociólogo, conhecido pelo gosto refinado, não só comeu a iguaria, mas também a comparou a Tripes à la mode de Caen, um sofisticado prato francês.
A antropóloga identificou ainda outro tipo de interação candidato/eleitor -- espécies de "comícios domésticos", em que o eleitor em geral é o anfitrião. Organizadas a partir de um objetivo específico, essas reuniões surgem como alternativa para atingir as pessoas numa cidade grande, onde é cada vez menor o tempo para grandes reuniões. "É impressionante como se gasta tempo e disposição para recepcionar os candidatos", constata Karina -- ao contrário do que supõe o senso comum.
Por fim, os rituais que ocorrem após as eleições -- reuniões menores entre políticos em ambientes privados, como restaurantes -- geralmente servem para reforçar a identidade do eleito como alguém com acesso ao poder. Esse parece ser o estágio que encerra os rituais de comensalidade em torno do período eleitoral, e é a preparação necessária para que o ciclo recomece nas novas eleições.
O artigo ’Rituais de comensalidade na política’, de Karina Kuschnir, foi publicado em
Como se fazem eleições no Brasil Beatriz Heredia, Carla Teixeira,Irlys Barreira (orgs.) Rio de Janeiro, 2002, Editora Relume Dumará 274 páginas - R$ 25,60 |
Gisele Lopes Ciência Hoje On-line 24/09/02 |