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 ESPECIAIS - REUNIÃO ANUAL DA SBPC 2005

Brasileiros buscam novas pistas sobre origem da vida
Químicos da UFPE investigam em seres vivos atuais indícios da evolução química do RNA


Concepção artística da Nasa representa a Terra há cerca de 4 bilhões de anos, antes do surgimento da vida.

A origem da vida na Terra é uma das grandes questões em aberto da ciência. Uma das hipóteses postula que as moléculas biológicas capazes de auto-replicação (RNA e DNA) teriam se formado a partir de reações entre seus principais componentes, presentes na “sopa primordial” que banhava o planeta há cerca de 4 bilhões de anos. Um estudo de pesquisadores brasileiros pode ajudar a reforçar essa hipótese: o químico Ricardo de Carvalho Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ao lado de Frederico Pontes e Benício de Barros Neto, está buscando no RNA de seres vivos atuais pistas sobre a origem dessas estruturas biológicas. Após apresentar uma conferência na Reunião Anual da SBPC em 20 de julho, Ferreira falou sobre os estudos de sua equipe em entrevista à CH On-line, concedida ao lado de Frederico Pontes.
 
O estudo da sua equipe pretende reforçar qual hipótese para o surgimento do RNA?
O que estamos tentando mostrar é que as moléculas de DNA e RNA presentes nas estruturas vivas tiveram sua origem em reações puramente químicas. A partir delas é que se construíram as primeiras estruturas biológicas. Tentamos demonstrar que o material produzido na fase que chamamos de pré-biótica tem uma relação química com o RNA atual.
 
De que maneira é possível mostrar isso?
Usamos um modelo construído a partir da cinética química, que é a parte da química que trata da velocidade das reações químicas. Seguindo conceitos estabelecidos da cinética química, podemos calcular a velocidade de formação de moléculas conhecidas como oligômeros. Cada uma delas tem uma ordem em que aparecem as quatro bases nitrogenadas que compõem a molécula de RNA (C, G, A e U). O que fazemos é comparar dados sobre essas moléculas obtidos a partir das equações do modelo teórico com as seqüências existentes em trechos das moléculas reais de RNA de seres vivos atuais. Para isso, selecionamos dez grandes proteínas, e investigamos cada uma delas em cerca de vinte organismos, de protozoários e bactérias ao Homo sapiens, passando por plantas e animais invertebrados.
 
Que parâmetros o modelo teórico levou em conta?
Ele foi estabelecido a partir de equações da cinética química. Tivemos que dar valores numéricos a uma constante – estimados, por exemplo, a partir de características da ligação química entre as moléculas C-G e A-U, por exemplo. Mas não conhecemos muitas variáveis que influem na cinética química, como a temperatura, a salinidade e acidez dos mares da época em que se formaram as primeiras moléculas de RNA. Não sabemos também se havia íons de cálcio ou magnésio, que poderiam influenciar a velocidade das reações.
 

Ricardo Ferreira e Frederico Pontes durante a Reunião Anual da SBPC.

O que indicam os resultados já obtidos?
Os resultados com bactérias são especialmente bons: nos trechos de RNA desses microrganismos, observamos que a quantidade de seqüências contendo C e G estão bastante altas, bem concordantes com o modelo. Por se tratar de organismos mais “antigos”, os resultados foram bem próximos do modelo teórico. Já nas proteínas do Homo sapiens, que é um ser vivo mais recente, a concordância com o modelo já não foi tão boa como esperávamos: a quantidade das seqüências contendo C e G é menor.
 
O que explica esses resultados melhores obtidos com bactérias?
A idéia é que, se realmente o RNA foi produzido na Terra em condições puramente químicas, devemos encontrar uma maior afinidade entre os resultados do modelo e do RNA de organismos mais “velhos”, como bactérias e arqueobactérias. Pretendemos fazer uma análise estatística dos resultados encontrados para as diferentes espécies para ver se realmente existe um afastamento gradual da seqüência dada pelo modelo à medida que o organismo vai se tornando mais complexo.
 
O que é preciso fazer para se obter resultados mais conclusivos?
Para uma resposta mais convincente sobre a correção do modelo, precisamos pegar um número maior de espécies e fazer uma análise estatística que permita afirmar que as proteínas das espécies mais “antigas” têm seqüências C-G mais ricas, como ocorre num mecanismo de evolução puramente químico, e que, nas espécies mais “recentes”, a quantidade de A-U é maior, o que evidenciaria um mecanismo biológico – e não químico – de evolução. 

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
20/07/05

 
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