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 NOTÍCIAS :: GENÉTICA

Genoma de causador da malária parcialmente seqüenciado
DNA do parasita P. vivax pode explicar como ocorre a forma crônica da doença

Parte do genoma do protozoário Plasmodium vivax, responsável por 80% dos casos de malária no Brasil, foi decifrada por cientistas do Departamento de Parasitologia da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Centro de Pesquisas em Medicina Tropical (Cepem/Rondônia). Coordenados pelo professor Hernando Del Portillo, eles identificaram uma família de genes que pode explicar como o parasita atua de forma crônica no organismo. O resultado do estudo foi publicado na revista Nature em 12 de abril.

Acima, a membrana do P. vivax em vermelho, a membrana do reticulócito (hemácia imatura) infectado e expondo as proteínas de virulência em sua membrana em verde, os núcleos do parasita em azul e uma imagem confocal de todas elas

A malária chega ao homem pela picada da fêmea do mosquito Anopheles. Ao todo, quatro tipos de plasmódios podem causar a doença: P. falciparum, P. vivax, P. ovale e P. malariae. O Plasmodium vivax, tornou-se nos últimos 10 anos o responsável pelo maior número de casos de malária e atinge 35 milhões de pessoas por ano no mundo. Segundo Hernando, no Brasil, nesse mesmo período, o número de infectados por esse protozoário passou de 30 mil para 480 mil.

Ele atribui esse crescimento a três fatores: o protozoário possui um estágio dormente no fígado no qual causa novos ataques clínicos após o paciente ter sido curado completamente; recentemente, surgiram no Brasil casos de P. vivax resistente às drogas usadas para combatê-lo; por fim, muitos pacientes, mesmo já recuperados, voltam a apresentar a doença, pois o parasita consegue desenvolver recursos de defesa contra os anticorpos.

"Meu laboratório trabalhou por muitos anos com a idéia de encontrar genes que codificam fatores de virulência para essa espécie de malária", afirma Hernando. Os genes seqüenciados atuam no processo chamado variação antigênica, que faz com que o parasita consiga fugir dos ataques do sistema imunológico do hospedeiro. Segundo Hernando, o sistema imune, ao reconhecer uma determinada proteína exposta na membrana da hemácia infectada, produz anticorpos contra ela. "Entretanto, quando isso acontece, o plasmódio ativa um novo gene e codifica uma proteína diferente, sobre a qual aquele anticorpo não produzirá efeito."

A equipe da USP criou uma biblioteca de cromossomos artificiais de levedura, na qual é possível armazenar trechos de DNA do organismo a ser estudado. "As leveduras são utilizadas para manter o genoma do P. vivax de forma estável", explica Hernando. Já o seqüenciamento foi concluído em parceria com o Sanger Centre, na Inglaterra, e com um grupo da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Hernando afirma que a descoberta desses genes pode abrir novas portas para a produção de vacinas contra o tipo de malária causada pelo P. vivax. "Várias vacinas contra esse parasita já estão sendo testadas, inclusive uma de meu laboratório, em fase pré-clínica em macacos", diz. "Mas nenhuma delas alcançou ainda a fase dos testes clínicos em humanos." O professor acredita que ainda vai demorar de cinco a dez anos até que as experiências em humanos sejam aprovadas.

Andressa Camargo
Ciência Hoje/RJ
09/05/01

 

 
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