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  REVISTA CH 254 :: NOVEMBRO DE 2008

Angra 3: uma decisão polêmica
Artigo discute controvérsia suscitada pela construção da usina nuclear, que começa em abril de 2009



Angras 1 e 2, junto com a futura Angra 3, produzirão, em 2014, cerca de 80% da energia consumida pelo estado do Rio de Janeiro (foto: Eletronuclear).
Em abril do ano que vem começa, com cerca de 20 anos de atraso, a construção da usina termelétrica nuclear Angra 3, no Centro Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ). O evento marcará definitivamente a retomada do programa nuclear brasileiro.

Essa opção, no entanto, vista por alguns especialistas como uma das vocações energéticas do país, dono da sexta maior reserva de urânio do mundo, é considerada equivocada por outros. Rejeitos, o custo da energia e fontes alternativas são algumas das questões discutidas pelos dois lados e empregadas para defender seus pontos de vista.

Projetada para entrar em operação em 2014, Angra 3 custará cerca de US$ 4 bilhões – além dos US$ 800 milhões já gastos com equipamentos – e terá uma potência de 1.405 megawatts (MW). Junto com os 657 MW de Angra 1 e os 1.350 MW de Angra 2, a energia gerada por essas três termelétricas (que usam calor para gerar eletricidade) nucleares responderá por 80% da demanda elétrica do estado do Rio de Janeiro.

Segundo o Plano Nacional de Energia (PNE), desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), até 2030 o Brasil contaria com mais quatro a oito usinas, além das três Angras, tendo cerca de 3% a 5% de sua matriz energética composta pela energia nuclear. O investimento auxiliaria a suprir o aumento da demanda nacional por energia, que deve passar dos atuais 100 mil MW, aproximadamente, para cerca de 230 mil MW, também até 2030. “Nossas simulações mostraram que as hidrelétricas podem não ser suficientes para uma geração de base no final desse horizonte”, relata Maurício Tiomno Tolmasquim, presidente da EPE.

A geração de base representa o mínimo de energia necessário para atender a demanda média do país. Em momentos de maior consumo, esse volume é complementado pela ativação de outros recursos, como termelétricas movidas a óleo ou carvão. “Ao contrário destas, cuja construção é barata, mas o custo de operação é alto, as usinas nucleares, assim como as hidrelétricas, têm uma instalação cara, porém operam a um preço baixo. Por isso são apropriadas para geração de base”, esclarece Tolmasquim.

O limite das fontes alternativas
De acordo com o presidente da EPE, fontes de energia alternativas, como a dos ventos (eólica) e a solar, não seriam apropriadas para esta finalidade, principalmente devido ao seu custo. Enquanto o megawatt-hora (MWh, equivalente à quantidade de energia que alimenta uma carga de 1 megawatt por uma hora) das hidrelétricas custa R$ 70 e o das usinas nucleares R$ 140, os da eólica e solar custam R$ 180 e R$ 300, respectivamente. Além disso, como os ventos só costumam estar ativos em 35% do ano, a grade brasileira não poderia contar com essa fonte para sua base, apenas para uma complementação.

Para o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o físico Odair Dias Gonçalves, a situação já está mais do que clara. ”O Brasil precisa de energia e a opção nuclear é a mais barata e limpa para complementar a hidrelétrica”, afirma. “Temos a sexta reserva mundial de urânio com apenas 30% do território nacional prospectado a uma profundidade de 100 m – seria um contra-senso, dada a demanda, não utilizar esse recurso”, argumenta Gonçalves.

Ele ressalta que mesmo a expansão da hidroeletricidade tem, atualmente, um limite, já que parte das reservas brasileiras de água são superficiais e se localizam em áreas de proteção ambiental ou reservas indígenas. “Isso dificulta a utilização do restante de nosso potencial hídrico, cerca de 70% do total, para geração de energia”, relata o presidente da Cnen, acrescentando que os investimentos em energia nuclear também renderão benefícios e aplicações para a saúde e a indústria.


Fred Furtado
Ciência Hoje/RJ
 


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