A viagem que revelou a biodiversidade do Brasil ao mundo
Artigo apresenta expedição de Carl von Martius que deu origem à maior obra sobre a flora de um país
Carl Friedrich Phillipp von Martius retratado pelo pintor Leo Schöninger (1811-1879). O naturalista alemão percorreu diferentes regiões do Brasil em companhia do zoólogo Johann von Spiz, entre 1817 e 1820.
Durante três anos, de 1817 a 1820, o naturalista alemão Carl von Martius percorreu 10 mil km no interior do Brasil, de São Paulo ao Amazonas, realizando um levantamento de plantas jamais superado no país. Após essa viagem, as descrições das espécies coletadas foram reunidas na
Flora brasiliensis,
maior obra sobre a flora de um país da história da botânica. Essa foi a primeira indicação de que o Brasil tinha uma das maiores diversidades de plantas do mundo.
O início da viagem que revelaria a incomparável diversidade da flora brasileira ao mundo não foi nada animador. Logo após sair do Rio de Janeiro, a 8 de dezembro de 1817, Carl Friedrich Phillipp von Martius (1794-1868) ficou desolado. Em Santa Cruz, no caminho para São Paulo, as mulas assustaram-se, deixando para trás pessoas, mantimentos e equipamentos.
Reunidos os animais, o grupo seguiu viagem. Naquele momento, Martius não imaginava as enormes dificuldades que enfrentaria em sua viagem de três anos pelo interior do Brasil, nem que seu nome ficaria ligado em definitivo às pesquisas sobre plantas das regiões tropical e subtropical das Américas.
Viajar pelo Brasil naquele tempo era uma empreitada de alto risco, que podia até levar à morte, em ataques de grupos indígenas ou de animais estranhos. Não era raro os viajantes contraírem graves doenças ainda desconhecidas, como malária ou febre amarela. Vários naturalistas da época sofreram com essas e outras doenças em suas expedições pela América do Sul. O francês Aimé Bonpland (1773-1858), que esteve na América Central e na Amazônia venezuelana com o barão alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), contraiu malária em 1800. O inglês Alfred R. Wallace (1823-1913) teve a mesma doença no Amazonas, em 1850.
Em alguns casos, o isolamento prolongado e o estresse decorrente das duras condições das viagens levavam a distúrbios mentais, transitórios ou permanentes, como aconteceu com o diplomata e naturalista russo Georg von Langsdorff (1774-1852) no final de sua viagem ao Amazonas, entre 1826 e 1828. A viagem de Martius custaria a morte de dois de seus auxiliares. Além disso, Martius e o zoólogo Johann Baptiste von Spix (1781-1826), que o acompanhava, tiveram malária e o segundo, debilitado, morreria apenas seis anos depois de retornar à Alemanha.
O efeito Humboldt
É difícil imaginar hoje, na era do ecoturismo para as mais remotas regiões do planeta, quanta admiração e atração causaram, nos europeus do início do século 19, as palestras e livros do barão von Humboldt, que viajou pela América Central e pelo noroeste da América do Sul entre 1799 e 1804. Essa viagem, inicialmente planejada para ser no Brasil, não recebeu autorização da corte portuguesa.
A crescente necessidade de conhecimento sobre a América colonial substituiu o explorador aventureiro pelo profissional de ciência da época: o naturalista. O assunto ganhou importância, virando questão de Estado. As cortes da Prússia (parte da atual Alemanha) e da Rússia enviaram naturalistas ao Brasil, após a viagem de Martius. Às vezes membros da nobreza européia participavam pessoalmente das expedições, como o príncipe da Renânia (hoje também na Alemanha), Maximilian Wied-Neuwied (1782-1867), que viajou do Rio de Janeiro à Bahia de 1815 a 1817.
O Brasil atraiu o interesse dos naturalistas europeus por razões políticas. Ao contrário de alguns países hispano-americanos, o Brasil obteve sua independência sem conflitos, em parte por ter servido de exílio para a família real portuguesa, o que tornava a viagem mais segura. Outro motivo de interesse era o pouco conhecimento da natureza brasileira.
Isso pode ser constatado pela carta enviada, a 12 de fevereiro de 1765, pelo ‘pai’ da moderna classificação biológica, o sueco Carl von Linné (ou Lineu, 1707-1778), ao italiano Domenico Vandelli (c.1735-1816), então professor na Universidade de Coimbra, em Portugal:
“Oxalá possas ir ao Brasil, terra onde nunca ninguém andou, exceto Marcgrave..., mas em um tempo em que não estava acesa nenhuma luz da história natural; agora tudo deve ser de novo descrito à luz. Tu estás apto para isso, és solidíssimo nas coisas da natureza, infatigável na inquirição, habilíssimo nos belos desenhos.”
Raimundo Paulo Barros Henriques
Departamento de Ecologia,
Universidade de Brasília
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