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  ESPECIAIS :: 60a REUNIÃO ANUAL DA SBPC :: 2008

Dengue: vacina ainda vai demorar
Pesquisadores brasileiros estão envolvidos em duas diferentes estratégias de desenvolvimento



Atualmente há sete iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento para a obtenção de uma vacina capaz de imunizar humanos contra os quatro tipos de vírus da dengue (na imagem, o tipo 2), mas vai levar tempo até que um composto eficaz esteja disponível no mercado (imagem: Centers for Disease Control and Prevention).

A má notícia para quem aguarda uma vacina contra a dengue é que será preciso esperar mais alguns anos até que um composto eficaz esteja disponível no mercado. A boa é que existem grupos de pesquisadores brasileiros envolvidos em duas diferentes abordagens que buscam uma vacina – uma delas está sendo desenvolvida exclusivamente no país. Os principais desafios enfrentados nessa busca foram tema de uma mesa-redonda na reunião anual da SBPC.

Atualmente, há em curso sete iniciativas em diferentes estágios de desenvolvimento na corrida por uma vacina tetravalente, capaz de imunizar humanos contra os quatro tipos da dengue. A abordagem mais próxima de chegar a um composto eficaz é a desenvolvida pela multinacional francesa Sanofi-Pasteur.

“Esse grupo está em busca de parceiros para começar a terceira e última fase de ensaios clínicos com humanos”, conta o epidemiologista Expedito Luna, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Caso os resultados desses testes sejam satisfatórios, a vacina francesa poderia chegar ao mercado dentro de cerca de três anos.

Um inconveniente dessa abordagem é a necessidade de três doses do composto para promover a imunidade completa dos voluntários contra os quatro tipos de vírus. Esse é um obstáculo enfrentado por todas as estratégias em desenvolvimento, na avaliação da bioquímica Elena Caride, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “É consenso entre os especialistas que teremos que fazer uma vacina de múltiplas doses para conseguir 100% de resposta para os quatro sorotipos”, avalia.

Vírus quimérico
A estratégia da vacina desenvolvida pelo grupo francês consiste em realizar alterações genéticas em um tipo de vírus já atenuado para promover a imunização contra a febre amarela. Após essa intervenção, o vírus quimérico resultante passa a ter as proteínas do envelope do vírus da dengue e pode promover a imunização contra essa doença, embora utilize a maquinaria de replicação do vírus usado na vacina contra a febre amarela.

Essa é a mesma abordagem adotada na vacina desenvolvida pelo Instituto Biomanguinhos, ligado à Fiocruz. A vantagem desse método é usar um vírus atenuado bem conhecido pelos pesquisadores. "A vacina contra a febre amarela é usada em humanos há 60 anos", justifica Elena Caride. "Ela já foi aplicada em 400 milhões de pessoas e promove uma imunidade duradoura, eficaz e segura."

Porém, o grupo brasileiro está algumas etapas atrás do concorrente francês. Os pesquisadores da Fiocruz estão atualmente testando em primatas não-humanos diferentes tipos de vírus quiméricos contra os quatro tipos do vírus da dengue. Os testes clínicos com humanos devem começar a partir de 2012.

Na avaliação de Elena Caride, a vacina brasileira não deve estar disponível antes de 2016. Ela acredita que a espera valerá a pena, mesmo que o grupo francês obtenha antes a vacina, pois o país não ficará dependente de um composto elaborado no exterior, possivelmente de alto custo. "Ter essa tecnologia desenvolvida no Brasil é muito importante para o país”, avalia.

Parceria com os NIH
Outra vacina cujo desenvolvimento conta com a participação de brasileiros está mais perto de se tornar realidade. Trata-se de um método capitaneado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos – os NIH. Participam desse esforço pesquisadores da USP e do Instituto Butantan.

Segundo Expedito Luna, que faz parte da equipe brasileira envolvida na parceria, o grupo já dispõe de compostos capazes de promover a imunização contra três dos quatro tipos da dengue. “Se a vacina que falta for resolvida em curto prazo, possivelmente começaremos a fazer ensaios clínicos de uma formulação tetravalente no ano que vem”, prevê. O epidemiologista acredita que, até 2010, o grupo disponha de um produto pronto para ser submetido à etapa final de testes clínicos.

A parceria com os NIH envolve a construção de uma fábrica de vacinas nas dependências do Instituto Butantan e a realização de testes clínicos no Brasil. “Esses ensaios serão importantes para a capacitação de nossos pesquisadores”, justifica Luna. “Além disso, temos uma autoridade regulatória – a Anvisa – cada vez mais rígida. Realizar os ensaios clínicos no país facilitará o licenciamento do produto no futuro.” 


Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
15/07/2008

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