Artes
Um francês apaixonado pelo Brasil
Conheça o pintor que registrou, em suas telas, a corte portuguesa, a natureza e a sociedade brasileiras no século 19


Era uma vez um menino que iniciou sua carreira de pintor aos 13 anos. O jovem e talentoso francês começou retratando pequenas paisagens e chegou a registrar os feitos do imperador Napoleão Bonaparte. O tempo passou, o monarca perdeu o poder e o artista, já bastante experiente, veio para o Brasil. Em 1816, Nicolas-Antoine Taunay chegou ao Rio de Janeiro, novo endereço da Família Real Portuguesa desde 1808. Na cidade, o artista passou a registrar, em suas telas, D. João e outros membros da corte, além da sociedade e da natureza locais. E foi assim que se tornou uma referência fundamental para quem hoje deseja entender um importante período da história do Brasil, como revela a exposição Nicolas-Antoine Taunay no Brasil: uma leitura dos trópicos.

A mostra, em cartaz atualmente no Rio de Janeiro e, em breve, em São Paulo, apresenta as obras do artista que não se sabe se chegou ao Brasil como convidado de D. João ou como fugitivo de perseguições iniciadas na França após a queda de Napoleão. O certo é que ele retornou ao seu país, seis anos após desembarcar no Rio de Janeiro, e durante sua estada em território brasileiro, pintou 29 telas. Em algumas é possível perceber seu entusiasmo com a natureza local. Pudera! O artista estava diante de uma paisagem bem diferente da que conhecia na Europa.

Tão interessante quanto notar o impacto da natureza brasileira sobre o pintor francês é perceber, em suas obras, como o artista violou certas regras artísticas e sociais vigentes na época. É o que se pode observar em telas como A cascatinha da Tijuca, em que Taunay retratou a queda d’água presente na sua propriedade no Rio de Janeiro e a si mesmo, produzindo um quadro. Ao seu lado, há dois escravos, que não trabalham, apenas observam a pintura que Taunay, dentro do quadro, produz. Só nós, que apreciamos a cena, é que não vemos o que o artista retratado no quadro pinta. Tudo porque o cavalete do pintor não está voltado em nossa direção e, sim, na de Taunay e dos escravos. Dessa forma, diante dessa tela, só nos resta a curiosidade e a chance de apreciar a bela cascata.

“Como fazia em algumas de suas obras, nessa pintura, Taunay subverteu, isto é, foi contra ordens presentes na época”, explica a historiadora Lilia Schwarcz, que organizou a exposição. Isso fica claro, por exemplo, por Taunay não se contentar em retratar uma paisagem, mas se incluir na obra de arte. Ou por colocar, em posição de igualdade com ele mesmo, dois escravos, algo impensável para a sociedade da época, que considerava os escravos inferiores. Além disso, em sua tela, Taunay não retratou os escravos trabalhando. Ao contrário: os colocou em uma posição privilegiada, em que podem observar algo que nós não podemos ver.

Segundo Lilia Schwarcz, as obras de Taunay revelam que o artista francês tinha uma posição ambígua com relação à escravidão, que não existia mais no seu país de origem. Isso quer dizer que, embora não a tenha condenado claramente, Taunay também não se mostrou como um dos seus defensores. Nos quadros do pintor, por exemplo, os escravos aparecem com freqüência e, muitas vezes, na mesma posição de Taunay, quando ele se retrata nas pinturas, como na obra A cascatinha da Tijuca. Além disso, em certas telas, o pintor retratou os escravos em tamanho pequeno, denunciando, mesmo que timidamente, a violência que era a escravidão.

Após cinco anos pintando a sociedade, a corte e a natureza brasileiras, porém, chegou a hora de Taunay partir. Em 1821, ele retornou à França, mas levou o Brasil na bagagem. Isso porque a paisagem que ele viu por aqui continuou presente nas pinturas que o artista fez em sua terra natal. Um exemplo é a obra Moisés salvo nas águas. Em meio à paisagem de tema bíblico, há, ao fundo, de forma discreta, palmeiras. Outra tela em que a natureza brasileira surge em meio a um momento bíblico é Paisagem, localidade do Brasil com a predicação de São João Batista.

Apesar de ganhar com essa obra um prêmio importante – a Legião de Honra do Rei Luís XVII –, ao retornar à França, Taunay passou a ser criticado e incompreendido. Tudo porque as luzes e as cores que ele passou a usar em seus quadros eram consideradas exageradas e artificiais pelos artistas franceses e pela sociedade da Europa, mas, para ele, não eram exagero, pois eram as cores que ele havia visto no Brasil. O artista estava, então, diante de um impasse. Se no Brasil Taunay era um pintor francês em terra estranha, ao voltar à França ele é visto como pintor do Novo Mundo – ou seja, das Américas – no Velho Mundo – a Europa. Parecia que o artista não se encaixava mais em lugar nenhum.

Porém, apesar das críticas que recebeu ao retornar à França, Taunay é considerado, hoje, uma referência na pintura de paisagens e de fatos históricos, tanto da França quanto do Brasil. E que tal levar os seus próprios olhos a apreciar tudo isso? A exposição Nicolas-Antoine Taunay no Brasil: uma leitura dos trópicos está de portas abertas, à espera da sua visita.


Bia Aparecida
Ciência Hoje das Crianças
27/06/2008


Nicolas-Antoine Taunay: uma leitura dos trópicos
Até dia 6 de julho.
Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco, 199, Centro, Rio de Janeiro/RJ.
R$ 5. Grátis aos domingos.
De terça a sexta, das 10 às 18 horas.
Sábados, domingos e feriados das 12 às 17 horas.

De 19 de julho a 7 de setembro
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2, Centro, São Paulo/SP.
R$ 5 (R$ 2 para crianças e estudantes)
De terça a domingo, das 10 às 18 horas.

Confira algumas telas de Nicolas-Antoine Taunay. Clique nas imagens para ampliá-las.

Nicolas-Antoine Taunay nasceu em 1755 em Paris, na França (imagem: Secretaria das Culturas da Cidade do Rio de Janeiro).

Na França, o pintor Nicolas-Antoine Taunay registrou os feitos do imperador Napoleão Bonaparte. Nesse quadro, ele retrata a entrada de Napoleão em Munique, à frente do exército francês, em 24 de outubro de 1805 (foto: RMN/ Musée National des Châteaux de Versailles et de Trianon).

Talentoso, Taunay foi reconhecido, a princípio, por suas telas que retratavam pequenas paisagens. Veja a habilidade do artista, autor do quadro A benção dos rebanhos em Roma (foto: Fine Art Studio – Galerie Haboldt/ Musée des Beaux-Arts de Nancy).

No Brasil, Taunay dedicou-se a retratar, entre outros temas, paisagens. Nesse quadro, o artista francês pintou um pouco da cidade do Rio de Janeiro, em 1816 (foto: Antônio Caetano).

Reprodução do quadro A cascatinha da Tijuca. Na imagem ampliada, você verá, abaixo, um detalhe do quadro, mostrando como Taunay retratou a si mesmo, ladeado por dois escravos.

A natureza brasileira surge em meio a um momento bíblico na obra Moisés salvo nas águas. No fundo da tela, repare que Taunay pintou palmeiras (imagem: Wikipedia).

Em sua estada no Brasil, Taunay retratou os membros da família real portuguesa, como Carlota Joaquina, esposa de D. João VI (imagem: Secretaria das Culturas da Cidade do Rio de Janeiro).

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